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Bancos divergem em rentabilidade e risco no 2T26, aponta especialista

Análise compara qualidade do crédito, ROE, provisões e estratégia de Itaú, Bradesco e Santander e aponta diferenças relevantes entre os bancos

Os resultados dos grandes bancos brasileiros no segundo trimestre de 2026 mostram instituições caminhando na mesma direção estratégica, mas em velocidades bastante diferentes. Na avaliação de Tiago Couto, sócio-diretor da Peers Consulting + Technology, Itaú, Bradesco e Santander estão todos ajustando suas carteiras para um ambiente de crédito mais seletivo, mas a capacidade de proteger a rentabilidade ainda varia de forma relevante entre eles.

Para Couto, o Itaú permanece como a referência do setor. O banco registrou lucro recorrente de R$ 12,4 bilhões no trimestre, alta de 7,8% em um ano, e ROE de 24,3%. Mais do que o crescimento do resultado, o especialista destaca a combinação entre expansão da carteira e controle da inadimplência.

Segundo ele, o Itaú conseguiu crescer 9,6% em crédito mantendo inadimplência em 1,9%, a menor entre os grandes bancos analisados. Essa combinação mostra uma estratégia deliberada de privilegiar clientes e produtos de melhor qualidade, mesmo que isso limite a velocidade de crescimento em alguns segmentos.

O consignado privado aparece como uma das principais apostas para ampliar a carteira sem comprometer o perfil de risco. Para Couto, a originação concentrada em clientes de maior qualidade ajuda a preservar o mix defensivo que sustenta o retorno sobre o patrimônio em níveis superiores aos dos concorrentes.

A tecnologia também faz parte dessa equação. O analista vê os investimentos em inteligência artificial e automação como instrumentos para reduzir estruturalmente os custos e permitir que o banco avance em linhas de menor spread sem deteriorar a rentabilidade. O índice de eficiência ficou em 37,3% no semestre.

O principal ponto de atenção no Itaú está fora do crédito. A revisão do guidance de receitas de serviços e seguros, de uma faixa de 5% a 9% para 2% a 5%, mostra que até mesmo as linhas utilizadas para diversificar a receita estão sujeitas à volatilidade do mercado.

Ainda assim, Couto interpreta o ajuste como pontual. O fato de o banco ter mantido as demais projeções reforça, segundo ele, a leitura de que a administração trata a fraqueza em serviços e seguros como um problema conjuntural e não como uma mudança estrutural na capacidade de geração de resultados.

No Santander, a análise é significativamente mais cautelosa. O banco teve lucro recorrente de R$ 3 bilhões, queda de 17,6% em relação ao segundo trimestre de 2025, e ROAE de 12,5%, o menor desde o fim de 2023.

Para Couto, o resultado evidencia o custo de um processo de ajuste que ainda está em andamento. O banco elevou as provisões em 20,6% frente ao trimestre anterior, para R$ 7,65 bilhões, ao mesmo tempo em que enfrentou compressão do spread.

A margem caiu de 10,41% para 10,03%, menor patamar da série. Na leitura do especialista, isso coloca o Santander sob pressão simultânea em duas frentes: maior custo de crédito e menor capacidade de gerar margem com os ativos.

A estratégia adotada pelo banco é reduzir exposição a linhas consideradas mais arriscadas, como crédito pessoal, consignado e baixa renda, e direcionar recursos para imobiliário, cartões e clientes de maior renda.

Couto interpreta esse movimento como um processo de redução de risco necessário para reconstruir a rentabilidade. O desafio é que os benefícios dessa mudança levam tempo para aparecer, enquanto as provisões e a compressão de margem afetam o resultado imediatamente.

O enxugamento da rede física, a redução do quadro de funcionários e a utilização de inteligência artificial em atendimento e prevenção a fraudes também fazem parte da tentativa de elevar a eficiência. Ao mesmo tempo, o banco busca ampliar receitas com cartões, seguros e administração de recursos para compensar a pressão sobre a margem financeira.

O segundo trimestre também marcou o primeiro balanço sob a gestão de Gilson Finkelsztain. Para Couto, a nova administração assume com um objetivo claro: elevar o ROE para 20% até 2028 em um momento no qual a rentabilidade atual ainda está distante desse nível.

O Bradesco ocupa uma posição intermediária entre Itaú e Santander na análise. Para Couto, o banco continua avançando em sua recuperação operacional, mas o aumento da inadimplência mostra que o processo ainda exige cautela.

O lucro recorrente atingiu R$ 7,05 bilhões, alta de 16,2% em um ano, marcando o décimo trimestre consecutivo de crescimento. O ROE chegou a 16,2%, ampliando gradualmente a distância em relação ao custo de capital.

O grupo segurador permanece como um dos principais pilares dessa recuperação. O lucro da operação de seguros cresceu 28,3%, para R$ 2,9 bilhões, com ROAE de 22,8%.

Na avaliação de Couto, esse desempenho é importante porque reduz a dependência do banco em relação ao ciclo de crédito. Enquanto as operações bancárias enfrentam maior inadimplência e provisões, seguros continuam oferecendo uma fonte mais estável de rentabilidade.

A qualidade dos ativos, porém, permanece como principal ponto de atenção. A inadimplência subiu para 4,3%, enquanto as despesas com provisões cresceram 22,6% em um ano, ritmo bem superior à expansão de 11,6% da carteira de crédito.

A piora ficou concentrada principalmente em capital de giro garantido para micro, pequenas e médias empresas e em clientes pessoa física. Para o especialista, a resposta do Bradesco tem sido ajustar gradualmente o apetite ao risco, sem interromper a expansão da carteira.

Couto também destaca o reforço de capital obtido com a reorganização da BradSaúde. O CET1 passou de 10,2% para 11,3%, criando espaço regulatório para a continuidade do plano de recuperação do banco.

A leitura conjunta dos três balanços mostra, segundo o analista, que a qualidade dos ativos passou a ser a principal variável do setor bancário em 2026.

O aumento das provisões em cartões e pequenas empresas, episódios específicos no atacado e a deterioração do agronegócio indicam que o custo de crédito deixou de ser um problema isolado de uma instituição e passou a afetar o setor de maneira mais ampla.

Ao mesmo tempo, os bancos estão fazendo escolhas semelhantes. Itaú, Bradesco e Santander vêm direcionando suas carteiras para clientes de maior renda, crédito com garantias, consignado privado, imobiliário e outras linhas consideradas mais defensivas.

Para Couto, a diferença entre eles está menos na direção estratégica e mais no custo e na velocidade dessa transição.

O Itaú entra nesse processo com maior rentabilidade e menor inadimplência. O Bradesco avança na recuperação, mas ainda enfrenta deterioração em determinados segmentos. O Santander, por sua vez, precisa reconstruir margem e rentabilidade ao mesmo tempo em que reduz o risco da carteira.

A Selic em níveis elevados adiciona outra pressão. Juros altos aumentam o custo do crédito, elevam a inadimplência e tornam mais importante a geração de receitas fora da margem financeira, como seguros, tarifas, cartões e gestão de recursos.

O problema é que essas linhas também não são imunes à volatilidade, como mostrou a revisão do guidance de serviços e seguros do Itaú.

Na visão de Couto, o principal desafio para os bancos agora é normalizar o custo do crédito sem interromper o crescimento. A oportunidade está em aumentar o relacionamento com os clientes e ampliar receitas menos dependentes de juros.

Essa diferença de execução deve manter elevada a dispersão de rentabilidade entre as instituições. No segundo trimestre, os ROEs variaram de 12,5% no Santander a 24,3% no Itaú, distância que, segundo o especialista, tende a persistir enquanto o ciclo de crédito permanecer mais apertado.

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