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Ata do Copom divide analistas sobre novos cortes da Selic em 2026

Economistas analisam sinais da ata do Copom e apresentam cenários distintos para a Selic diante de inflação, atividade, crédito e risco fiscal

A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) reforçou a percepção de desaceleração da economia brasileira, mas não produziu consenso entre economistas sobre a continuidade do ciclo de cortes da Selic. Enquanto parte dos especialistas vê sinais de que o Banco Central está mais confortável para prosseguir com a flexibilização monetária, outros consideram que inflação, expectativas desancoradas, cenário fiscal e incertezas domésticas e externas justificam uma pausa nos próximos encontros.

A divergência ocorre depois de o Copom reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano. As análises convergem principalmente na avaliação de que a política monetária restritiva começa a aparecer de forma mais clara na atividade e no crédito. A diferença está na interpretação sobre quanto esse processo permitirá ao BC avançar na redução dos juros.

Para Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, a ata mostra que o corte não deve ser interpretado como início de uma trajetória previamente definida de redução da Selic. Ele destaca que o Banco Central reconheceu uma desaceleração mais evidente do PIB, do crédito e dos segmentos mais sensíveis aos juros, ao mesmo tempo em que continua lidando com inflação acima da meta e expectativas desancoradas.

Na avaliação de Spyer, um dos trechos mais importantes é a indicação de que esse ambiente exige política monetária restritiva por mais tempo do que seria normalmente necessário. Dessa forma, embora o BC mantenha espaço para novos cortes, ritmo e magnitude continuarão condicionados aos próximos dados de inflação, expectativas, atividade e às condições fiscais.

O especialista também chama atenção para o alerta relacionado às contas públicas. Segundo sua leitura, uma política fiscal expansionista ou dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida podem aumentar o prêmio de risco e a taxa de juros neutra da economia, tornando mais difícil o processo de flexibilização monetária.

“É uma flexibilização com freio de mão puxado”, resume Spyer. Para ele, a economia perde força e a inflação corrente apresenta melhora, mas a ausência de uma ancoragem mais firme das expectativas limita a velocidade dos próximos movimentos.

Natalie Victal, economista-chefe da SulAmerica Investimentos, identifica na ata sinais um pouco mais favoráveis à continuidade dos cortes. Um dos principais pontos, segundo ela, é o aumento da convicção do Banco Central sobre a desaceleração da atividade, principalmente nos setores cíclicos.

Victal destaca ainda a inclusão de uma análise mais detalhada sobre o comportamento do crédito. Para a economista, o espaço dedicado ao tema reforça a percepção do Copom de que os mecanismos de transmissão da política monetária estão funcionando. Ela também observa que o documento reconhece melhora da inflação ao consumidor, embora simultaneamente destaque piora dos preços ao produtor.

Na avaliação da economista, as alterações introduzidas na ata têm viés um pouco mais favorável à flexibilização e mostram um Banco Central disposto a continuar reduzindo os juros. A SulAmerica Investimentos revisou sua projeção para a Selic no fim de 2026 para 13,5% e vê assimetria para uma taxa ainda menor.

Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, também identifica maior inclinação do Copom para continuar o processo de afrouxamento. Segundo ele, a ata manteve o tom do comunicado da semana anterior e mostrou confiança no arrefecimento da atividade e no processo de desinflação, apesar da incerteza externa e da permanência das expectativas de inflação desancoradas.

A Genial mantém como cenário-base Selic de 13,75% até o fim do ano, mas Lin considera que a ata aumentou a possibilidade de novos cortes, criando um viés de baixa para essa projeção. Na avaliação do economista, porém, a continuidade do ciclo também estará condicionada aos desdobramentos do cenário doméstico e seus possíveis efeitos sobre o câmbio.

Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, segue uma leitura semelhante quanto à ausência de compromisso do Banco Central com uma trajetória predeterminada. Para ele, a ata confirmou a desaceleração dos setores mais cíclicos e destacou a perda de força das concessões de crédito mais sensíveis à política monetária.

A MAG mantém como cenário principal a Selic em 13,75% até dezembro. Oliveira afirma, entretanto, que uma alternativa com novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 13,50%, ganhou força diante da combinação entre desaceleração da atividade, juros ainda elevados e projeções de inflação caminhando gradualmente em direção à meta.

Roberto Luis Troster, coordenador do Centro de Estudos Fipe do Endividamento das Empresas Brasileiras (Cefeb/Fipe), apresenta uma avaliação mais favorável à continuidade do ciclo. Segundo ele, a redução de setembro foi o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual e ocorreu sem indicação explícita sobre a decisão seguinte.

Troster considera razoável, no cenário atual, projetar outro corte de mesma magnitude na próxima reunião e uma nova redução em dezembro. A avaliação está baseada principalmente no comportamento da atividade e do crédito, embora ele ressalte que mudanças relevantes nos indicadores poderiam alterar essa projeção.

O economista também chama atenção para sinais de deterioração na qualidade da oferta de crédito, com maior participação de linhas de prazo mais curto e custo mais elevado. Ao mesmo tempo, observa uma diferença entre a inflação corrente, que apresenta comportamento mais favorável, e as projeções futuras, ainda pressionadas. Para Troster, parte desse risco está relacionada ao avanço dos preços de bens intermediários, que pode chegar posteriormente ao consumidor.

Carlos Lopes, economista do banco BV, adota uma leitura mais cautelosa. Para ele, a ata não apresentou mudança relevante em relação ao comunicado divulgado na semana anterior, embora tenha detalhado melhor a desaceleração da atividade.

O economista ressalta, porém, que o mercado de crédito e o mercado de trabalho ainda mostram resiliência, fatores capazes de sustentar pressões inflacionárias. Por isso, o BV mantém como cenário que a redução para 13,75% tenha sido o último corte por enquanto.

Lopes ressalta que o cenário permanece aberto e que o Banco Central deverá acompanhar tanto a evolução doméstica quanto o ambiente internacional antes de definir o próximo movimento. Mudanças nas condições financeiras e no câmbio também podem ampliar ou restringir o espaço para continuidade do ciclo.

As avaliações mostram, portanto, um consenso maior sobre o diagnóstico atual do que sobre os próximos passos. Há sinais mais claros de desaceleração da atividade e de transmissão dos juros elevados para o crédito, mas inflação, expectativas e riscos fiscais continuam impondo cautela.

A principal divisão está no que acontece a partir daí. SulAmerica, Genial e MAG enxergam aumento do espaço para uma nova redução, embora com diferentes cenários-base. Troster trabalha com a possibilidade de mais dois cortes de 0,25 ponto percentual. Já o BV considera que a Selic pode permanecer em 13,75% no restante do ano.

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