(Por Letícia Bogéa – Analista de Economia do Boletim Nacional)
A reflexão desta semana vai além das bets. A discussão não é ser contra ou a favor do jogo, mas o que a proibição representa em um momento eleitoral. O avanço das apostas online no Brasil trouxe consequências preocupantes para a saúde financeira das famílias, estimulando a perda de dinheiro em um país que já convive com níveis elevados de endividamento e inadimplência.
Apostar não é investir, não constrói patrimônio e não deveria ser apresentado como caminho para melhorar de vida. Não dá para ignorar o que considero evidente na decisão anunciada pelo governo federal em 25 de setembro de 2026: a proibição, neste momento, tem caráter eleitoreiro.
A contradição começa no próprio histórico do governo. As apostas esportivas haviam sido legalizadas em 2018, no governo Michel Temer, mas foi Lula quem, em 2023, editou a MP 1.182 para regulamentar a atividade. No mesmo ano, sancionou a Lei 14.790, a chamada Lei das Bets, estabelecendo as regras que permitiram a estruturação do mercado regulado.
O governo criou mecanismos de fiscalização, e, a partir de 2025, passou a existir um mercado formal sob controle federal. Três anos depois, às vésperas das eleições de 2026, o mesmo governo decide que a atividade que regulamentou deve ser proibida. Uma virada dessas, justamente às vésperas da eleição, dificilmente pode ser vista como simples coincidência.
A MP assinada em 25 de setembro produz efeitos imediatos, mas precisa ser apreciada pelo Congresso para continuar valendo e sua tramitação pode chegar a 120 dias. Isso significa que parte relevante da discussão parlamentar ocorrerá depois das eleições. É aí que, na minha avaliação, aparece o componente eleitoral da decisão. Se os problemas provocados pelas bets justificam hoje uma proibição completa, por que essa conclusão não veio antes? O endividamento das famílias, a compulsão, as perdas financeiras e os impactos sociais não surgiram em setembro de 2026. O que mudou foi o calendário eleitoral.
APOSTAR NÃO É INVESTIR
Isso não transforma as bets em vítimas nem torna sua existência desejável. Há uma discussão muito importante para a população: dinheiro destinado ao jogo poderia estar sendo usado para reorganizar as finanças, quitar dívidas, formar uma reserva de emergência e, depois disso, construir patrimônio por meio de investimentos adequados ao perfil e aos objetivos de cada pessoa. Educação financeira dá autonomia. O jogo faz o oposto: tira o controle e pode afundar famílias em dívidas.
É possível, portanto, defender o fim das bets e, ao mesmo tempo, criticar os interesses políticos que cercam essa decisão. Uma coisa não anula a outra. O problema não está apenas em saber se as apostas deveriam ou não existir no Brasil, mas em observar como decisões de grande impacto econômico e social são tomadas.
Quando um governo regulamenta um mercado, acompanha sua expansão e, três anos depois, decide extingui-lo às vésperas de uma eleição, considero legítimo chamar a medida pelo que ela representa na minha leitura: uma decisão de forte conveniência eleitoral. Combater o jogo é necessário; transformar esse combate em ativo político no momento mais conveniente é outra história.









