Conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mostram discussões com o publicitário Thiago Miranda sobre uma estratégia de comunicação direcionada ao Itaú Unibanco e, principalmente, ao CEO da instituição, Milton Maluhy Filho. As mensagens, obtidas pelo Valor, tratam da escolha dos alvos, do momento das publicações e da articulação de diferentes veículos.
Os diálogos remontam pelo menos ao fim de 2024, período em que grandes bancos demonstravam preocupação com o modelo de captação do Master, fortemente baseado em depósitos protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O Itaú, como maior instituição financeira privada do país, também está entre os principais participantes do fundo.
Em dezembro de 2024, Miranda encaminhou a Vorcaro uma publicação do Portal LeoDias que mencionava supostos problemas internos no Itaú. O ex-controlador do Master reagiu positivamente ao conteúdo. A troca ocorreu pouco depois de vir a público uma disputa entre o banco e seu ex-diretor financeiro Alexsandro Broedel.
As mensagens indicam que Vorcaro também opinava sobre o momento em que determinados conteúdos deveriam ou não ser divulgados. Em fevereiro de 2025, depois de receber de Miranda a prévia de outra publicação, pediu que o material não fosse divulgado naquele momento e afirmou que era necessário analisar a situação com “calma e estratégia”.
Foi no mesmo mês que Vorcaro pediu ao publicitário um levantamento sobre Milton Maluhy. Segundo as mensagens reveladas, o então controlador do Master afirmou que o executivo estava lhe causando problemas e recebeu como resposta de Miranda que cuidaria do assunto. O material solicitado incluía dados de identificação civil, CPF e outras informações pessoais. A existência do pedido já havia sido revelada anteriormente durante as investigações relacionadas ao Master.
A estratégia aparece de forma ainda mais explícita nas conversas de maio. Depois que Miranda publicou conteúdo relacionado ao divórcio de Roberto Setubal, copresidente do conselho de administração do Itaú, Vorcaro orientou que o foco não fosse o acionista, mas Maluhy. “Temos que bater no Milton”, escreveu. Miranda respondeu: “Vou bater muito”. Vorcaro acrescentou que seria necessário alinhar previamente as divulgações porque o momento das publicações era importante.
Dois dias depois, os dois voltaram ao assunto. Vorcaro propôs organizar uma “campanha concatenada” e mencionou a intenção de reunir diferentes veículos para ampliar a pressão sobre o executivo. Na mesma conversa, afirmou querer fazer uma “bomba atômica” contra Maluhy. Miranda respondeu que poderia coordenar a iniciativa com os veículos disponíveis e outros parceiros.
O conjunto das mensagens indica, portanto, que as conversas iam além de comentários isolados sobre reportagens. Os diálogos tratavam da definição de um alvo específico, da coordenação do momento das publicações e da possibilidade de utilizar diferentes canais. As mensagens, contudo, não demonstram por si mesmas quais conteúdos efetivamente foram publicados como resultado dessas conversas nem estabelecem eventual responsabilidade de terceiros citados de forma genérica como parceiros ou veículos.
A atuação de Thiago Miranda já está no radar da Polícia Federal em outra frente da investigação sobre o Banco Master. Em julho, o publicitário foi alvo da 10ª fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. A PF apura indícios de uma atuação coordenada nas redes sociais que teria como objetivo comprometer a credibilidade do Banco Central.
Segundo a investigação, dezenas de perfis teriam publicado conteúdos críticos ao BC e favoráveis ao Master. A PF identificou pelo menos 40 perfis nessa apuração, e Miranda é apontado pelos investigadores como responsável pela contratação de influenciadores. Em depoimento, ele admitiu ter participado da contratação e afirmou que o trabalho fazia parte de um serviço de “gestão de crise”, com contratos que chegaram a R$ 8 milhões.
A Polícia Federal também investiga, nessa frente, suspeitas de intimidação de jornalistas, monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades, obtenção indevida de informações sigilosas e possíveis medidas para interferir em investigações. As suspeitas continuam sob apuração e não representam conclusão definitiva sobre responsabilidade criminal.
As novas mensagens acrescentam o Itaú e seus executivos ao contexto das estratégias de comunicação discutidas entre Vorcaro e Miranda. O banco não comentou o conteúdo revelado pelo Valor. A defesa de Miranda não havia apresentado manifestação sobre as novas conversas até a publicação da reportagem.










