As emissões de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) registraram uma queda de 48% nos últimos dois anos, em um movimento que reflete a combinação de juros elevados, deterioração do crédito e mudanças nas alternativas de financiamento disponíveis às empresas. Entre janeiro e agosto de 2026, os dois instrumentos movimentaram aproximadamente R$ 34,6 bilhões, volume 35% inferior ao registrado no mesmo período de 2025.
A retração contrasta com o desempenho geral do mercado de capitais brasileiro. Enquanto as emissões de CRIs e CRAs perderam força, o volume total captado por empresas e instituições cresceu 7,1% neste ano, alcançando cerca de R$ 485 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
A diferença aparece também na participação dos títulos de recebíveis nas operações de financiamento. Nos primeiros oito meses de 2024, CRIs e CRAs representavam 13,6% do volume emitido no mercado de capitais. Essa fatia diminuiu para 11,7% em 2025 e chegou a 7,1% em 2026.
Tradicionalmente, esses instrumentos se beneficiam da isenção de Imposto de Renda concedida às pessoas físicas e da demanda por investimentos associados aos setores imobiliário e agropecuário. Entretanto, as vantagens tributárias não têm sido suficientes para compensar o aumento dos riscos percebidos pelos investidores e o custo das operações para os emissores.
A expectativa de profissionais do mercado é que a recuperação não ocorra imediatamente, mesmo após a valorização recente da Bolsa brasileira na sequência do primeiro turno das eleições presidenciais. Diferentemente das ações, as operações de securitização envolvem decisões de financiamento de prazo mais longo e dependem de condições estruturais de crédito.
O impacto mais expressivo aparece no agronegócio. De janeiro a agosto, as emissões de CRAs totalizaram R$ 10,1 bilhões, menos da metade dos R$ 23,2 bilhões registrados no mesmo intervalo do ano passado. Em comparação com os R$ 27 bilhões emitidos em 2024, a redução alcança 63%.
Parte dessa queda está relacionada à substituição dos CRAs por outros instrumentos. As Cédulas de Produto Rural Financeiras (CPR-Fs), por exemplo, ganharam espaço como alternativa de financiamento para empresas do setor.
Somente no primeiro semestre de 2026, as CPR-Fs movimentaram R$ 11 bilhões em dez operações, superando os R$ 7,1 bilhões captados por meio de CRAs no mesmo período. O montante também corresponde a quase duas vezes e meia os R$ 4,5 bilhões registrados em CPR-Fs durante todo o ano de 2025.
A migração ocorre porque determinadas operações podem ser estruturadas de maneira mais simples e com custos inferiores por meio das CPR-Fs. Além disso, recebíveis que anteriormente sustentavam emissões de CRAs passaram a integrar carteiras de Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros).
Segundo Eugênia Souza, responsável pela área de negócios da Vórtx, os fundos oferecem maior flexibilidade para reunir créditos de diferentes devedores, enquanto algumas operações de securitização concentram a exposição em um único tomador.
A executiva observa que a utilização dos recebíveis permanece relevante para o financiamento do agronegócio, mas parte das operações mudou de estrutura, passando dos títulos de securitização para veículos de investimento coletivo.
Outra alternativa utilizada pelas empresas tem sido o crédito oferecido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Renan Toffanin, diretor de securitização da Vert, explica que o elevado custo de captação no mercado privado tem levado companhias com situação financeira mais sólida a buscar outras fontes de recursos ou adiar novas operações.
Com taxas do DI próximas de 13% a 14% ao ano, determinadas emissões deixam de apresentar condições financeiras atrativas para os tomadores.
A redução dos CRAs, portanto, não significa necessariamente uma diminuição equivalente de todo o financiamento privado ao agronegócio. Parte dos recursos continua chegando às empresas, mas por instrumentos diferentes.
Ainda assim, especialistas identificam uma deterioração efetiva das condições de acesso ao crédito, principalmente para companhias menores, mais endividadas ou com maior exposição a riscos operacionais.
Octaciano Neto, fundador da Zera, avalia que a retração não caracteriza uma crise estrutural do financiamento do agronegócio pelo mercado de capitais. Para ele, o desempenho recente também precisa ser analisado à luz de fatores tributários, regulatórios e da elevada base de comparação.
Em 2025, a discussão sobre a tributação dos investimentos isentos, apresentada por meio da Medida Provisória 1.303, incentivou empresas a antecipar emissões diante da possibilidade de alteração no tratamento fiscal dos títulos. Esse movimento contribuiu para elevar as captações no segundo semestre do ano passado.
As mudanças promovidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) também influenciaram o mercado. Desde 2024, novas restrições sobre os créditos elegíveis como lastro dos CRAs reduziram as possibilidades de estruturação de determinadas operações.
Segundo Neto, algumas empresas perderam a capacidade de utilizar ativos anteriormente aceitos como garantia econômica das emissões, enquanto as alterações regulatórias ampliaram as incertezas sobre novos projetos de securitização.
O executivo acrescenta que o ambiente político e econômico tem levado companhias a postergar investimentos, diminuindo a necessidade imediata de financiamento. Ele estima que o mercado de capitais responda por aproximadamente 20% a 30% dos recursos destinados ao agronegócio.
Apesar das dificuldades, grandes empresas continuam encontrando investidores interessados em suas emissões. O problema se concentra principalmente nas companhias com menor capacidade financeira.
Cristian Lara, sócio da Strategi, observa que a demanda por operações de emissores considerados de primeira linha pode transmitir uma impressão mais favorável do que a realidade enfrentada por empresas de menor porte. Fora desse grupo, a disponibilidade de novos recursos diminuiu significativamente.
A cautela está relacionada, entre outros fatores, ao avanço das recuperações judiciais no agronegócio. Segundo a Serasa Experian, o setor encerrou 2025 com 1.990 pedidos, crescimento de 56,4% em relação ao ano anterior e maior número da série histórica.
A tendência prosseguiu em 2026. Apenas no primeiro trimestre, foram registrados outros 474 pedidos de recuperação judicial, alta de 21,9% na comparação anual.
O aumento das dificuldades financeiras alterou a atuação dos fundos especializados no setor. Amanda Martins, sócia-fundadora da Canal Securitizadora, afirma que parte dos gestores passou a concentrar esforços na administração de problemas existentes nas carteiras, reduzindo a disposição para novas captações.
No mercado imobiliário, a desaceleração também é relevante, embora menos intensa. As emissões de CRIs passaram de R$ 39 bilhões nos primeiros oito meses de 2024 para R$ 29,9 bilhões em 2025 e aproximadamente R$ 24,5 bilhões neste ano, uma redução acumulada de 37%.
Nesse segmento, a retração está associada tanto às condições de financiamento quanto ao ritmo de desenvolvimento de novos empreendimentos.
Toffanin aponta que incorporadoras voltadas ao público de renda média enfrentam maior saturação em determinadas regiões, após uma sequência de lançamentos imobiliários. Ao mesmo tempo, o custo elevado do crédito restringe a capacidade de compra das famílias de menor renda.
Empresas que dispõem de recursos próprios têm preferido adiar projetos ou aguardar condições mais favoráveis antes de realizar novas emissões.
Para os investidores, a análise das operações imobiliárias passou a exigir maior atenção à situação financeira das incorporadoras e à capacidade de geração dos recebíveis que sustentam os títulos.
Entre os principais riscos estão atrasos na conclusão das obras, distratos de contratos de compra e venda e dificuldades dos compradores para obter financiamento bancário no momento da entrega das chaves.
Esses fatores podem comprometer o fluxo de pagamentos utilizado para remunerar os investidores dos CRIs, especialmente quando as operações envolvem empresas com endividamento elevado.
Segundo Amanda Martins, a demanda das incorporadoras por esse tipo de financiamento continua expressiva, mas os investidores passaram a exigir taxas de remuneração superiores ou garantias adicionais para aceitar determinadas operações.
A executiva considera possível uma recuperação das emissões no segundo semestre, em razão de fatores sazonais que costumam favorecer as captações nessa etapa do ano.
Lara acrescenta que diversas ofertas de CRIs e CRAs precisaram ser reformuladas para atender às novas exigências dos investidores. O mercado secundário também passou a reagir de maneira mais intensa a notícias relacionadas à deterioração do crédito.
Nos anos anteriores, a forte captação de Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e Fiagros contribuiu para sustentar a demanda pelos certificados de recebíveis, especialmente em um ambiente de elevada liquidez para ativos isentos de Imposto de Renda.
Agora, a seletividade dos investidores favorece operações de emissores com maior solidez financeira, garantias consideradas adequadas e menor exposição a riscos de inadimplência.
A perspectiva de recuperação do mercado depende principalmente da redução da taxa Selic e de maior clareza sobre os resultados dos processos de recuperação judicial em andamento.
Toffanin avalia que, à medida que os investidores consigam distinguir quais reestruturações financeiras foram bem-sucedidas e quais resultaram em perdas, haverá melhores condições para avaliar e precificar o risco de novas operações.
O ambiente regulatório também permanece no centro das discussões. Amanda Martins defende uma revisão de determinadas restrições sobre o uso dos recursos captados por meio de CRIs e CRAs, incluindo limitações ao reembolso de despesas anteriormente realizadas pelas empresas.
Na avaliação da executiva, regras excessivamente restritivas sobre os ativos elegíveis como lastro podem reduzir a oferta de financiamento aos setores imobiliário e agropecuário.
O cenário atual indica uma transformação no mercado brasileiro de recebíveis. Enquanto parte das operações migra para instrumentos alternativos, as emissões tradicionais enfrentam maior exigência de garantias, custos elevados e investidores mais cautelosos. A retomada dos volumes dependerá não apenas de condições monetárias mais favoráveis, mas também da recuperação da confiança na qualidade do crédito oferecido pelos emissores.










