A definição da equipe econômica e a capacidade de negociar medidas de ajuste fiscal com um Congresso de forte presença oposicionista estão entre os principais desafios do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo análise do BTG Pactual divulgada após a reeleição do presidente, neste domingo (25).
Para o banco, o resultado das urnas desloca a atenção dos investidores para as primeiras decisões do governo reeleito, especialmente a composição dos ministérios, a construção de uma base parlamentar e a definição de medidas para enfrentar a deterioração das contas públicas.
A vitória de Lula contrariou o cenário indicado pelas pesquisas eleitorais das últimas semanas e pelo resultado do primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente do petista.
Apesar das controvérsias envolvendo a prorrogação do horário de votação, determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), o BTG avalia que a margem obtida pelo presidente reeleito reduz a possibilidade de questionamentos capazes de comprometer o resultado.
A votação foi estendida das 17h para as 19h, no horário de Brasília, por decisão liminar do magistrado, em meio a reclamações sobre dificuldades no transporte de eleitores em diferentes regiões do país.
Segundo o relatório, integrantes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do STF consideram que a diferença de votos entre os candidatos não oferece fundamento para contestações relevantes ao desfecho da eleição.
Superada a disputa presidencial, o principal desafio político identificado pelo BTG será a reconstrução da base de sustentação do Executivo no Congresso Nacional.
Embora tenha conquistado a reeleição, Lula encontrará, a partir de 2027, um Legislativo com presença expressiva de partidos de direita e de parlamentares que apoiaram a candidatura de Flávio Bolsonaro.
O PL, legenda do senador, contará com 28 cadeiras no Senado e 121 na Câmara dos Deputados, segundo os números apresentados pelo banco. Essa representação amplia o peso da oposição nas negociações legislativas e poderá dificultar a aprovação de propostas consideradas prioritárias pelo governo.
A situação é agravada pelo movimento de partidos do Centrão, que se aproximaram da candidatura de Flávio Bolsonaro após o primeiro turno. Para o BTG, Lula precisará reconstruir pontes com essas legendas e negociar uma composição política capaz de assegurar apoio às iniciativas do Executivo.
A articulação parlamentar será especialmente relevante para a agenda econômica, uma vez que eventuais mudanças nas regras fiscais, medidas de contenção de despesas e propostas de reorganização das contas públicas dependerão de negociações com deputados e senadores.
O relatório também examina os efeitos da eleição sobre as disputas pelo comando do Congresso.
Na avaliação do BTG, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), saem politicamente fortalecidos por terem atuado como importantes articuladores em favor de Lula.
A possibilidade de Motta permanecer à frente da Câmara é considerada mais favorável do que a continuidade de Alcolumbre no comando do Senado, conforme a análise do banco.
No campo econômico, a principal incerteza está relacionada às prioridades que serão adotadas pelo governo no próximo mandato. O BTG observa que a administração federal concentrou seus esforços recentes na campanha de reeleição, sem apresentar um planejamento detalhado para o novo ciclo.
A instituição destaca que a situação fiscal se deteriorou após medidas adotadas na reta final da disputa presidencial, aumentando a importância de uma sinalização sobre o controle das despesas e a sustentabilidade das contas públicas.
Segundo os analistas, integrantes da atual equipe econômica defendem a apresentação de medidas de ajuste ainda em 2026. A implementação dessa estratégia, entretanto, depende de convencer Lula sobre a extensão das mudanças e o momento adequado para anunciá-las.
“A agenda econômica de Lula ainda será definida, assim como os nomes de sua futura equipe econômica. O time atual defende que sejam apresentadas medidas de ajuste ainda este ano — mas precisa convencer o presidente sobre o alcance delas, especialmente num contexto de deterioração do cenário fiscal após as medidas tomadas na reta final da eleição”, afirma o relatório.
A escolha dos responsáveis pela condução da política econômica também está entre os pontos acompanhados pelo mercado financeiro.
Entre as possibilidades mencionadas pelo BTG está a indicação de Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda, com Bruno Moretti permanecendo à frente do Ministério do Planejamento.
O banco ressalta, porém, que não existe decisão definitiva sobre essa composição. A eventual escolha de Alckmin para a Fazenda poderia ser interpretada como uma sinalização de abertura do governo à adoção de medidas de ajuste fiscal.
“O anúncio viria como mensagem ao mercado de que há abertura para algum ajuste, mas ainda não há martelo batido sobre a composição”, destacam os analistas.
Para o BTG, as primeiras definições do presidente reeleito serão importantes para esclarecer a direção da política econômica e a capacidade do governo de construir apoio político para sua implementação.
O cenário reúne, portanto, duas questões diretamente relacionadas: a disposição do Executivo para apresentar medidas fiscais e a formação de uma base parlamentar capaz de viabilizá-las no Congresso a partir de 2027.










