A agenda do próximo presidente brasileiro já tem um item certo na visão do Banco Mundial: a consolidação das contas públicas. William Maloney, economista-chefe da instituição para a América Latina, foi direto ao falar sobre o Brasil após a divulgação do Panorama Econômico regional nesta quarta. Independentemente de quem vencer as eleições de outubro, o trabalho fiscal terá de continuar.
O diagnóstico do organismo para o país é de desaceleração. A projeção de crescimento é de 1,6% para 2026, ante desempenho mais robusto em 2025, com o arrefecimento explicado pela combinação de menor consumo das famílias e redução nas transferências governamentais. O conflito no Oriente Médio adiciona um componente externo à equação: a alta do petróleo alimenta a inflação global, o que deve manter as taxas de juros elevadas nas economias avançadas por mais tempo, com efeito cascata sobre o custo do dinheiro na América Latina.
Para a região como um todo, o crescimento deve cair de 2,4% em 2025 para 2,1% em 2026, com recuperação projetada para 2,4% em 2027. O consumo privado continua sendo o pilar que sustenta a atividade, mas o investimento não consegue decolar num ambiente em que as condições financeiras seguem apertadas e a incerteza tanto doméstica quanto externa inibe decisões de longo prazo.
O relatório identifica três fragilidades estruturais que limitam o potencial da região. A primeira é fiscal: a maioria dos países carrega déficits persistentes, e mesmo onde há melhora no resultado primário, o peso dos juros corrói o espaço disponível para investimento público. A segunda é a dívida: os níveis se estabilizaram após a pandemia, mas estão longe dos patamares pré-2020, e o retorno a esses níveis exigiria tanto crescimento mais robusto quanto disciplina fiscal mais firme. A terceira é a informalidade, que mantém trabalhadores fora de sistemas de proteção social, comprime salários e torna os ganhos na redução da pobreza mais frágeis diante de turbulências econômicas.
No campo das políticas industriais, o Banco Mundial observa uma guinada regional. Após décadas em que a intervenção estatal foi vista com desconfiança, como reação às experiências frustrantes de industrialização por substituição de importações, os governos voltaram a usar ativamente barreiras comerciais e subsídios. Brasil e Argentina lideram esse movimento na região, enquanto Chile e Peru mantêm postura mais liberal.
A instituição não condena o uso dessas políticas, mas impõe condições: transparência, prazos definidos, metas mensuráveis e supervisão efetiva para que o instrumento gere resultado sem reproduzir os vícios históricos.










