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Como R$ 2,2 bi da família Vorcaro foram escondidos em fundos investigados

O multimercado Somme administrado pela QORE e gerido pela North Sea teria o pai de Daniel Vorcaro como beneficiário final

Um fundo multimercado com cerca de R$ 2,2 bilhões em patrimônio está no centro da segunda fase da Operação Compliance Zero. O veículo é o Somme, administrado pela QORE DTVM e gerido pela North Sea, apontado por investigadores como possível estrutura de ocultação de patrimônio da família Vorcaro. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, o beneficiário final dos recursos seria Henrique Moura Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro.

Em janeiro deste ano, o ministro André Mendonça, do STF, assinou decisão determinando o bloqueio de R$ 2.245.235.850,24 em contas associadas à família. O valor estava registrado numa conta de Henrique Vorcaro na CBSF DTVM, empresa da Reag que atuava como distribuidora do fundo. Ao atingir a conta do investidor, as medidas judiciais travaram na prática também o acesso às cotas e aos ativos mantidos dentro do Somme. No dia seguinte ao bloqueio, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da própria Reag, citando graves violações às normas do sistema financeiro nacional.

A coincidência numérica é quase exata: R$ 2.245.235.850,24 bloqueados na conta vinculada à Reag e aproximadamente R$ 2,2 bilhões registrados no patrimônio do Somme no mesmo período. A correspondência direta entre os valores depende de elementos sob sigilo judicial, mas a proximidade reforça a conexão investigada.

Antes do bloqueio, o fundo operava com concentração praticamente total num único ativo. Entre maio e setembro de 2025, o Somme alocava cerca de R$ 2,1 bilhões em Cédulas de Crédito Bancário emitidas pela PKL ONE Participações, empresa que controla a Credcesta, fintech de crédito consignado cujo acionista majoritário é Augusto Lima, ex-sócio do Master. O fundo tinha um único cotista cuja identidade não é pública, mas que segundo fontes seria ligado a familiares de Vorcaro.

A Credcesta é um dos principais pilares de originação de crédito dentro do entorno do Master. O produto, estruturado como cartão consignado com desconto em folha para servidores públicos, gera fluxos previsíveis que podem ser convertidos em ativos e distribuídos por fundos. Segundo a Polícia Federal, parte dessas carteiras pode ter sido inflada ou estruturada sem lastro adequado, sendo usada na composição de ativos de grande volume e criando camadas adicionais de complexidade que dificultam o rastreamento dos recursos.

Em outubro de 2025, as posições do Somme desapareceram dos relatórios públicos da CVM. Em janeiro de 2026, os dados voltaram sob nova configuração: o fundo passou a deter cotas do Marne FIDC-NP, também gerido pela North Sea, no valor de R$ 2,2 bilhões. A troca preservou praticamente todo o volume financeiro e ocorreu exatamente na janela temporal das medidas judiciais. A partir de fevereiro, o Somme deixou de aparecer nos relatórios convencionais da CVM e passou a constar apenas em arquivos classificados como confidenciais.

O Marne, por sua vez, direcionou praticamente todo o seu patrimônio, cerca de R$ 2,19 bilhões, para cotas de um veículo da Kinea Investimentos. A gestora informou que não se posicionará sobre o assunto.

O histórico do Somme mostra que o fundo foi constituído em julho de 2022 com a Master S/A Corretora como administradora e a 3J Gestora como gestora original, permanecendo inativo até maio de 2025, quando a administração passou para a QORE e a gestão para a North Sea. Semanas após a transição, os primeiros bilhões em ativos ligados à Credcesta apareceram na carteira. Um detalhe chama atenção: os registros oficiais ainda listam a Master S/A Corretora como controladora do fundo, sem data de encerramento.

A atuação da QORE e da North Sea não se restringe ao Somme. Pouco antes do pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor, a companhia transferiu em bloco a administração de três FIDCs para a QORE. Fundos ligados à Reag também foram transferidos em massa para a mesma administradora. Em novembro de 2025, o fundo Delta, gerido pela North Sea, foi usado na aquisição de ações do BRB pelo Master. Em janeiro de 2026, o Kadesh FIDC, administrado pela QORE e gerido pela North Sea, alocou R$ 15,49 milhões em ativos da Fictor Holding. Em 1º de fevereiro, a Fictor entrou com pedido de recuperação judicial. No mesmo mês, o fundo registrou depreciação de 70%.

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