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Move Brasil esbarra na inadimplência e usa Desenrola para tentar destravar crédito

Dificuldade para comprovar renda, inadimplência e critérios bancários limitam adesão ao Move Brasil, que busca financiar veículos para motoristas de aplicativo e taxistas

Pouco mais de um mês após o lançamento do Move Brasil, programa criado pelo governo federal para facilitar o financiamento de veículos a taxistas e motoristas de aplicativos, a adesão ficou muito abaixo do esperado. Apesar de contar com R$ 30 bilhões disponíveis para operações de crédito, a linha havia registrado apenas R$ 2,2 bilhões em demanda até o fim da semana passada, o equivalente a 7,3% do volume previsto, evidenciando que o principal desafio do programa não é a procura, mas a dificuldade dos trabalhadores em conseguir aprovação do financiamento.

A baixa execução frustrou as expectativas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que vê a iniciativa como uma das principais ações voltadas à ampliação do acesso ao crédito para trabalhadores autônomos. O programa permite financiar veículos novos e seminovos, a partir do ano-modelo 2024, com valor de até R$ 150 mil, tendo como público-alvo motoristas de aplicativos, taxistas e profissionais que dependem do automóvel para gerar renda.

Na prática, porém, milhares de interessados encontram obstáculos antes mesmo de concluir a contratação. Entre os principais problemas estão a inadimplência, o elevado nível de endividamento, a dificuldade para comprovar renda e critérios internos adotados pelas instituições financeiras, que continuam aplicando modelos tradicionais de análise de crédito mesmo nas operações cobertas parcialmente por garantias públicas.

O diagnóstico já mobiliza o governo, que passou a buscar formas de destravar o programa por meio dos bancos públicos. Como grandes instituições privadas, entre elas Itaú e Bradesco, optaram por não aderir à iniciativa, a estratégia passou a concentrar esforços na atuação da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, que anunciaram parcerias com plataformas de mobilidade para estimular novas contratações.

A Caixa firmou acordo com a plataforma 99 para oferecer cashback aos motoristas que financiarem veículos pelo programa. Quem contratar empréstimos a partir de R$ 40 mil poderá receber de volta até R$ 6,3 mil, distribuídos em parcelas mensais de até R$ 350. O banco também passou a aceitar os extratos das corridas realizadas nos aplicativos como comprovante de renda, uma reivindicação antiga da categoria. A instituição ainda estuda firmar parceria semelhante com a Uber, enquanto o Banco do Brasil já anunciou um convênio que prevê devolução equivalente a até 3,5 parcelas do financiamento para motoristas parceiros.

Mesmo com essas medidas, a aprovação do crédito continua restrita. Em concessionárias e lojas especializadas, a procura aumentou após o lançamento do programa, mas a conversão em vendas permanece baixa. Em uma rede de revendas, por exemplo, mais de cem propostas foram encaminhadas aos bancos, mas menos de 10% receberam aprovação.

Levantamento realizado pela Federação Nacional dos Sindicatos de Motoristas de Aplicativos (Fenasmapp), com 1.551 motoristas, mostra que a principal reclamação está na forma como os bancos analisam os pedidos. Para 46,1% dos entrevistados, as instituições continuam tratando o financiamento como uma operação convencional, desconsiderando a existência do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI-PEAC), criado justamente para reduzir o risco das operações. Outros 23,5% relataram falhas operacionais e problemas de integração com o sistema do BNDES, responsável pela estrutura financeira do programa. A exigência de entradas elevadas foi apontada por 19,5% dos participantes, enquanto 7% citaram critérios internos dos bancos e 2,8% atribuíram a dificuldade ao histórico bancário.

Segundo o presidente da Fenasmapp, Leandro Cruz, a inadimplência é hoje a maior barreira para os trabalhadores conseguirem acesso ao crédito. Ele afirma que muitos motoristas permanecem com o nome negativado justamente porque destinam boa parte da renda ao aluguel de veículos. Em muitos casos, os gastos mensais com locação variam entre R$ 3,5 mil e R$ 6 mil, enquanto o faturamento pode chegar a R$ 13 mil, indicando capacidade financeira para assumir um financiamento, mas insuficiente para superar as restrições cadastrais impostas pelos bancos.

O cenário ocorre em um momento de deterioração dos indicadores de crédito no país. Segundo dados do Banco Central, a taxa média de inadimplência nas operações de crédito alcançou 4,7%, o maior nível desde o início da série histórica, em 2011. Esse ambiente levou as instituições financeiras a endurecerem os critérios para concessão de novos empréstimos, mesmo em linhas que contam com garantias públicas.

Para o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Antônio Jorge Martins, o aumento do risco de crédito naturalmente torna as instituições mais conservadoras. Segundo ele, embora o programa conte com o FGI e com alienação fiduciária do veículo, os bancos continuam avaliando limites de exposição ao risco e o histórico financeiro dos clientes, o que reduz a aprovação das propostas.

Outro fator que explica a baixa participação dos bancos privados é o próprio perfil do financiamento. Como o veículo representa o instrumento de trabalho do motorista, a retomada do bem em caso de inadimplência tende a ser mais sensível, além de envolver ativos sujeitos à rápida desvalorização e maior exposição a acidentes, elevando o risco das operações.

Diante desse cenário, o governo passou a integrar as estratégias do Move Brasil e do Desenrola Brasil 2.0. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que muitos trabalhadores aptos ao programa ainda carregam pendências financeiras que impedem a contratação do crédito e recomendou que utilizem primeiro o programa de renegociação de dívidas. A recente prorrogação do Desenrola até 31 de agosto busca justamente ampliar o número de pessoas capazes de regularizar sua situação financeira e, posteriormente, acessar as linhas de financiamento do Move Brasil.

Apesar da baixa execução inicial, o governo acredita que os ajustes operacionais, a flexibilização na comprovação de renda e os incentivos oferecidos pelos bancos públicos poderão ampliar gradualmente a adesão ao programa nos próximos meses.

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