A dívida pública brasileira ultrapassou o endividamento de famílias e empresas e ampliou a disputa entre governo e setor privado pelos recursos disponíveis no mercado financeiro. Em abril, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 77,2% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a dívida privada recuou para 75,7%, segundo levantamento do Centro de Estudos do Financiamento das Empresas Brasileiras (Cefeb), da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
A inversão chama atenção por seus efeitos sobre o custo e a disponibilidade de crédito na economia. Quanto maior a necessidade do governo de captar recursos para financiar e refinanciar sua dívida, maior pode ser a competição pela poupança disponível, pressionando as condições enfrentadas pelas empresas para obter financiamento.
Na economia, esse processo é conhecido como “crowding out”, ou efeito de deslocamento. Como os títulos públicos são considerados de menor risco, taxas elevadas oferecidas pelo governo aumentam a remuneração exigida pelos investidores para assumir o risco adicional de financiar empresas.
Segundo Roberto Troster, coordenador do Cefeb e responsável pelo estudo, a dinâmica cria um ciclo adverso para o setor produtivo. “O governo demanda mais recursos, e isso eleva o prêmio de risco e os juros para quem toma financiamento”, afirmou.
O levantamento encontrou correlação de 0,97 entre o custo médio de captação da dívida pública mobiliária federal interna e o custo da dívida das empresas. Um indicador próximo de 1 mostra forte associação entre os dois movimentos: quando aumenta o custo de financiamento do governo, as condições enfrentadas pelo setor corporativo tendem a acompanhar essa alta.
Até o fim de 2025, segundo o Cefeb, as dívidas pública e privada avançavam de maneira relativamente paralela. A mudança ficou mais evidente em abril de 2026, quando a dívida pública alcançou 77,2% do PIB ao mesmo tempo em que o endividamento privado caiu para 75,7%.
Troster compara o cenário atual ao período entre 2014 e 2016, quando o país também enfrentou um processo de deslocamento do crédito privado. A diferença é que o mercado de capitais ganhou importância substancial no financiamento das empresas desde então.
Entre 2022 e 2026, a participação do mercado de capitais na dívida das companhias abertas passou de 14,8% para 22%, enquanto a participação do crédito bancário caiu de 38,4% para 31,2%.
Essa mudança torna a transmissão das condições financeiras mais disseminada. Além de bancos e grandes investidores institucionais, uma parcela crescente dos títulos corporativos está direta ou indiretamente nas carteiras de pessoas físicas.
Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro Nacional e fundador da Oriz, lembra que o Brasil passou entre 2023 e 2025 por um movimento contrário, de “crowding in”, marcado pela expansão do crédito privado e pelo crescimento das emissões corporativas. Agora, a preocupação é que o aumento das necessidades de financiamento do setor público passe a competir de maneira mais intensa com esse mercado.
A estrutura da poupança brasileira também amplia o desafio. Para Jeferson Bittencourt, chefe de Macroeconomia da ASA Investments e ex-secretário do Tesouro Nacional, o país combina baixo nível estrutural de poupança com maior estresse fiscal.
“Qual é a contribuição que o governo dá para essa poupança? Nenhuma, ele faz uma poupança negativa, consome a poupança dos outros, pagando juros altos, em prazos curtos e avaliação de risco baixa”, afirmou.
O impacto não é uniforme entre as empresas. Grandes companhias ainda conseguem recorrer ao mercado de capitais e emitir dívida, enquanto negócios menores permanecem mais dependentes dos bancos e de estruturas alternativas de crédito.
Segundo o Cefeb, o custo médio das debêntures estava em 13,68%, enquanto o crédito bancário para pessoas jurídicas alcançava 18,40%. Em abril, a diferença entre modalidades chegou a 4,53 pontos percentuais.
O ambiente de juros elevados ocorre ao mesmo tempo em que cresce a deterioração financeira das empresas. A inadimplência das pessoas jurídicas chegou a 4,8%, maior patamar da série considerada pelo estudo.
Entre micro e pequenas empresas, o índice alcançou 6%. Nas grandes companhias, ficou em 0,5%, evidenciando a diferença na capacidade de atravessar um ambiente de crédito restritivo.
O número de empresas negativadas também avançou. Eram 6,66 milhões em janeiro de 2024 e passaram a 8,96 milhões em abril de 2026, aumento de 34,5%.
Para as companhias, juros mais altos e crédito mais seletivo podem produzir efeitos além do custo financeiro imediato. Projetos de expansão que apresentam retorno adequado em um ambiente de financiamento mais barato podem deixar de ser economicamente viáveis quando o custo do capital sobe.
Com isso, empresas tendem a priorizar redução de endividamento, preservação de caixa e eficiência operacional em detrimento de novos investimentos.
O debate também alcança a composição das despesas públicas. Kawall avalia que a política fiscal perdeu capacidade de atuar de maneira anticíclica e aponta que o crescimento econômico dos últimos anos ajudou a conter uma deterioração ainda maior da relação dívida/PIB, mas não eliminou o problema estrutural provocado pelo avanço das despesas.
Outra preocupação envolve a capacidade do Tesouro de alongar seus financiamentos. No fim de julho, foi solicitado ao Senado aumento da capacidade de captação soberana no exterior. A proposta permitiria elevar a participação da dívida denominada em moeda estrangeira dos atuais 3,8% para aproximadamente 7% do total.
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, não comentou especificamente os resultados do Cefeb, mas apontou três componentes relevantes para as taxas de juros de longo prazo: o nível dos juros internacionais, a trajetória fiscal brasileira e a expansão dos títulos privados com benefícios tributários.
Segundo Ceron, a redução dos prêmios associados à incerteza fiscal é necessária para diminuir as taxas de longo prazo. Ele também defendeu uma discussão sobre o crescimento de instrumentos incentivados, diante da limitada disponibilidade de poupança de longo prazo no país.
Debêntures incentivadas, Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), por exemplo, disputam recursos dos investidores com os títulos emitidos pelo Tesouro.
Kawall reconhece que essas isenções produzem distorções, mas considera que elas não explicam o núcleo do problema. Na avaliação do economista, mesmo uma mudança na tributação desses instrumentos não seria suficiente para eliminar as pressões decorrentes da trajetória fiscal.
O desafio brasileiro combina ainda elevado endividamento com um custo alto para financiar essa dívida. Além disso, a rigidez do orçamento reduz a capacidade de realizar ajustes pelo lado das despesas.
Segundo Bittencourt, enquanto aproximadamente 20% dos gastos públicos dos Estados Unidos são discricionários, no Brasil essa parcela não chega a 5%, tornando eventuais processos de ajuste fiscal mais complexos.
Nesse cenário, o avanço da dívida pública deixa de ser uma questão restrita às contas do governo. Ao influenciar a remuneração exigida pelos investidores e disputar recursos com empresas, a trajetória fiscal passa a afetar diretamente o custo do crédito, as decisões de investimento e a capacidade de expansão do setor produtivo.









