As ações da Taurus (TASA4) entraram no chamado “trade eleitoral” e acumularam uma das altas mais expressivas entre os papéis associados pelo mercado a possíveis mudanças de política econômica e regulatória. Entre a mínima registrada em junho e a máxima de 21 de setembro, a ação avançou 121%, segundo levantamento publicado pelo Money Times.
O movimento ocorreu no mesmo período em que Flávio Bolsonaro (PL) avançou nas pesquisas presidenciais, mas essa coincidência não permite atribuir toda a valorização ao cenário eleitoral. Para a Taurus, além das expectativas sobre uma eventual mudança na política brasileira para armas, as tarifas dos Estados Unidos representam uma variável relevante para os resultados.
A exposição ao mercado americano é significativa e a companhia já vinha sentindo os efeitos das barreiras comerciais. No balanço de 2025, a própria Taurus estimou em cerca de US$ 16 milhões o impacto das tarifas americanas naquele exercício.
É justamente uma eventual redução desse custo que aparece como um dos principais componentes das projeções mais otimistas para a companhia. Marcos Saravalle, CIO da Krivo Capital, estima que a retirada das tarifas poderia acrescentar entre R$ 100 milhões e R$ 200 milhões ao Ebitda da Taurus. A estimativa representa uma avaliação do analista e depende de mudanças na política comercial americana que não estão asseguradas.
Como referência, a companhia encerrou o segundo trimestre com Ebitda de aproximadamente R$ 124 milhões. Na hipótese mais alta calculada por Saravalle, portanto, o benefício potencial das tarifas seria superior ao resultado operacional registrado naquele trimestre. O analista também considera que uma redução dos custos poderia permitir à fabricante ajustar preços e disputar maior participação no mercado americano.
A política brasileira para armas forma a segunda parte da tese que passou a ser considerada por investidores. Flávio Bolsonaro incluiu Marcos Pollon (PL-MS) na elaboração de propostas para a área, e o deputado defende a substituição do atual Estatuto do Desarmamento por uma nova legislação. Pollon já apresentou na Câmara o PL 3.931/2025, que propõe revogar a Lei nº 10.826/2003. O projeto ainda tramita no Congresso e aguarda etapas de análise parlamentar.
Uma eventual alteração das regras poderia modificar o tamanho do mercado doméstico acessível à Taurus, mas os efeitos dependeriam do conteúdo aprovado pelo Congresso e de sua posterior implementação. Por isso, não é possível assumir que uma eventual vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro resultaria automaticamente em expansão das vendas da fabricante.
Saravalle avalia que o mercado brasileiro dificilmente substituiria os Estados Unidos como principal operação da Taurus, mas poderia ganhar relevância por apresentar margens potencialmente maiores. Nesse cenário, mudanças regulatórias capazes de ampliar a demanda doméstica teriam impacto adicional sobre uma companhia cuja base de resultados está atualmente pressionada.
O desempenho recente das ações também precisa ser colocado em perspectiva. Mesmo após a valorização superior a 100% desde a mínima de junho, o papel acumulou forte perda de valor nos cinco anos anteriores. A recuperação recente parte, portanto, de uma base bastante deprimida.
O precedente de 2018 também serve de alerta para o comportamento das ações. Na eleição daquele ano, expectativas de flexibilização da política de armas ajudaram a impulsionar os papéis antes da posse de Jair Bolsonaro. Parte dos ganhos foi posteriormente revertida em um ambiente de questionamentos jurídicos e incertezas sobre o alcance das mudanças regulatórias.
A valorização atual da Taurus reúne, assim, expectativas relacionadas a fatores que ainda não estão definidos: o resultado das eleições, eventuais mudanças legislativas no Brasil e a evolução das tarifas cobradas pelos Estados Unidos. O potencial impacto financeiro desses cenários pode ser relevante para a companhia, mas depende de decisões políticas, comerciais e regulatórias futuras.










