A Bolsa brasileira inicia outubro negociando com desconto em relação à própria média histórica e aos mercados internacionais, mas esse valuation mais baixo não será suficiente, sozinho, para determinar a trajetória das ações. No Raio XP de outubro, a XP mantém uma visão construtiva para o mercado brasileiro, mas considera que o Ibovespa chegou a uma “encruzilhada”, com resultados bastante diferentes dependendo principalmente do comportamento dos juros, das contas públicas, do fluxo estrangeiro e das condições financeiras globais.
A casa mantém em 200 mil pontos o valor justo do Ibovespa para o fim de 2026, aproximadamente 7% acima da referência utilizada no estudo. A amplitude dos cenários, porém, chama atenção. Sob premissas mais favoráveis, o índice poderia chegar a 248 mil pontos, enquanto um ambiente mais adverso levaria o valor calculado para aproximadamente 165 mil pontos. As estimativas representam cenários econômicos construídos pela XP e não uma previsão de resultado eleitoral ou garantia de desempenho do índice.
O ponto de partida é uma Bolsa que ainda parece barata pelos parâmetros utilizados pela corretora. O mercado brasileiro negocia a cerca de 8,5 vezes o lucro projetado, aproximadamente 0,6 desvio-padrão abaixo da média dos últimos dez anos. O desconto chega a 15% na comparação com outros mercados emergentes e a 49% diante das bolsas globais.
Mesmo assim, a XP avalia que o preço das ações precisa ser analisado junto com o nível dos juros. A dívida bruta brasileira está próxima de 83% do PIB e, segundo os números utilizados no relatório, cresce a um ritmo de aproximadamente três pontos percentuais por ano, enquanto o serviço da dívida equivale a 8,9% do PIB. Uma percepção mais desfavorável sobre a trajetória fiscal pode manter elevados os juros longos e dificultar a expansão dos múltiplos da Bolsa.
É justamente essa variável que ajuda a explicar a distância entre os cenários calculados pela XP. Na hipótese otimista, lucros e Ebitda das empresas ficariam 10% acima do cenário-base, os juros reais recuariam para 6% e a relação preço/lucro avançaria para 12 vezes, combinação que levaria o Ibovespa a aproximadamente 248 mil pontos. No cenário pessimista, lucros e Ebitda seriam 10% inferiores, os juros reais subiriam para 8,5% e os múltiplos retornariam às mínimas, resultando em um índice próximo de 165 mil pontos. Os 200 mil pontos do cenário central são obtidos pela média de quatro metodologias de avaliação utilizadas pela casa.
A análise ocorre depois de um setembro positivo para os ativos brasileiros. O Ibovespa avançou 5% no mês e encerrou o período aos 186.340 pontos, mesmo diante de uma deterioração das condições externas. O rendimento do Treasury americano de dez anos subiu de 4,75% para 5,30%, maior nível desde 2007, enquanto o petróleo Brent alcançou US$ 103,50 por barril. No mesmo período, o MSCI ACWI, índice que reúne mercados desenvolvidos e emergentes, recuou 1%.
Outro componente relevante foi a retomada do capital estrangeiro. Depois de retirar aproximadamente R$ 18 bilhões da Bolsa em agosto, investidores internacionais compraram R$ 9,6 bilhões em ações no mercado à vista em setembro. No acumulado de 2026, o ingresso chega a R$ 27,9 bilhões. Nos contratos futuros, por outro lado, o saldo acumulado permanece negativo em R$ 15,1 bilhões.
A XP considera que ainda existe espaço para entradas adicionais caso aumente o interesse internacional pelo Brasil. Historicamente, esse movimento tende a favorecer primeiro as empresas de maior porte e liquidez. Nos 13 meses de maior ingresso estrangeiro desde 2022 analisados pela corretora, 64% das ações pertencentes ao grupo das 20% maiores companhias da B3 receberam compras líquidas desses investidores, contra apenas 26% entre as 20% menores.
A partir desse comportamento, a casa mantém uma cesta específica de “Fluxo Estrangeiro”, formada por Petrobras (PETR4), Embraer (EMBJ3), Itaú (ITUB4), Mercado Livre (MELI34) e Nubank (ROXO34). A seleção busca identificar empresas que, segundo a metodologia da XP, apresentam características que historicamente atraem maior participação internacional em períodos de entrada de recursos.
A proximidade das eleições também levou a XP a atualizar estratégias construídas para diferentes ambientes de política econômica. Em um cenário que a corretora denomina “Política Alternativa”, associado em seu modelo a menor percepção de risco fiscal e redução dos juros, a cesta reúne Petrobras, B3 (B3SA3), Sabesp (SBSP3), Banco do Brasil (BBAS3) e Localiza (RENT3). A classificação é da própria XP e descreve premissas econômicas utilizadas no relatório, sem indicar avaliação sobre candidatos ou resultado eleitoral.
Essa cesta avançou 9,4% em setembro e acumula valorização de 19,9% em 2026, desempenho 5,9 pontos percentuais superior ao Ibovespa. Mesmo depois da alta, as ações do grupo negociam, em média, a 8,1 vezes o lucro projetado, 1,3 desvio-padrão abaixo da média observada desde 2021. Em seis episódios analisados pela XP desde aquele ano em que houve valorização simultânea do real e dos títulos prefixados, a seleção superou o Ibovespa em cinco.
A corretora também montou uma estratégia para a situação oposta. A cesta chamada de “Deterioração Fiscal” reúne Aura (AURA33), Petrobras, Gerdau (GGBR4), WEG (WEGE3) e Suzano (SUZB3), empresas com maior exposição ao dólar ou características que, na metodologia da casa, podem oferecer maior proteção em períodos de enfraquecimento do real e alta dos juros longos.
Essa seleção acumula valorização de 29,9% em 2026, 15,8 pontos percentuais acima do Ibovespa, sendo a cesta temática de melhor desempenho da XP no ano. Nos seis períodos de queda simultânea do real e dos títulos prefixados avaliados desde 2021, a carteira superou o índice em todos, com excesso médio de retorno de 4,1 pontos percentuais. Petrobras aparece tanto nessa seleção quanto na construída para um ambiente fiscal mais favorável, refletindo a avaliação da XP sobre a relação entre risco e retorno da companhia em diferentes cenários.
O câmbio também altera a composição das estratégias. Para períodos de valorização do real, a XP seleciona empresas predominantemente domésticas e com menor exposição ao dólar: Copasa (CSMG3), Copel (CPLE3), Motiva (MOTV3), Allos (ALOS3), Cyrela (CYRE3), Rede D’Or (RDOR3), Lojas Renner (LREN3) e C&A (CEAB3). A cesta subiu 8,8% em setembro e acumula 7,5% em 2026. Em cinco dos seis episódios de maior valorização do real analisados desde 2021, superou o Ibovespa, com excesso médio de retorno de 3,9 pontos percentuais.
No sentido contrário, a cesta desenhada para um real mais depreciado concentra empresas exportadoras ou com receitas relevantes em moeda estrangeira. Fazem parte desse grupo PRIO (PRIO3), Gerdau, Vale (VALE3), Klabin (KLBN11), MBRF (MBRF3), Suzano e JBS (JBSS32).
Diante desse conjunto de cenários, a XP decidiu elevar moderadamente o risco de suas carteiras recomendadas para outubro, mas manteve a preferência por empresas consideradas de maior qualidade dentro de sua metodologia. Na Top Ações, o peso do BTG Pactual (BPAC11) passou de 5% para 10%, enquanto Iguatemi (IGTI11) e Sabesp subiram de 7,5% para 10%. Em contrapartida, foram reduzidas as participações de Rede D’Or e Gerdau.
A carteira de dividendos também foi ajustada. Petrobras passou de 12,5% para 15% e B3, de 10% para 12,5%, enquanto Vale caiu de 12,5% para 7,5%. No caso da Petrobras, a XP cita uma relação considerada favorável entre risco e retorno e estima FCFE yield próximo de 12% em 2027, utilizando como premissa petróleo Brent a US$ 75 por barril.
Nas small caps, a principal alteração foi a entrada de Cogna (COGN3), com participação de 10%. A XP relaciona a escolha à melhora operacional, resiliência dos lucros e geração de caixa, estimando FCF yield de aproximadamente 20%. Tupy (TUPY3) e Ecorodovias (ECOR3) tiveram seus pesos elevados, enquanto C&A e 3tentos (TTEN3) deixaram a carteira. Orizon (ORVR3) e Alupar (ALUP11) tiveram suas participações reduzidas.
A leitura da XP para outubro, portanto, combina dois elementos que apontam em direções diferentes. De um lado, valuation descontado, retomada parcial do fluxo estrangeiro e possibilidade de melhora das condições domésticas sustentam a visão construtiva. Do outro, dívida elevada, juros longos, cenário internacional mais restritivo e incerteza sobre a política econômica ampliam a distância entre os possíveis resultados para o mercado. É essa combinação que leva a casa a trabalhar com um intervalo tão amplo, de 165 mil a 248 mil pontos, para o Ibovespa.










