O número recorde de empresas em recuperação judicial no Brasil reforça a pressão financeira enfrentada pelo setor empresarial após um período prolongado de juros elevados e crédito mais restrito. O país encerrou 2025 com 5.680 companhias nessa situação, maior quantidade já registrada para o período, segundo levantamento da RGF.
Para o economista Wagner de Moraes, especialista em mercado financeiro, crédito e reestruturação empresarial, parte das dificuldades atuais reflete dívidas assumidas anteriormente e que continuam pressionando o caixa das empresas. Na avaliação dele, esse efeito pode se prolongar e manter elevado o número de companhias buscando renegociação judicial em 2027.
“A recuperação judicial não começa quando a empresa entra na Justiça. Ela começa muito antes, quando o caixa deixa de acompanhar o crescimento da dívida e a companhia perde capacidade de negociar com seus credores. O que estamos vendo é o resultado acumulado de anos de crédito caro e decisões financeiras que agora estão chegando ao limite”, afirma.
Os dados de 2026 mostram que os pedidos continuaram ocorrendo em diferentes setores da economia. A Serasa Experian contabilizou 194 solicitações de recuperação judicial no primeiro trimestre, sendo 76 somente em março. O desempenho financeiro das empresas ao longo do restante do ano será determinante para avaliar se a pressão observada anteriormente continuará se traduzindo em novos processos.
Juros elevados afetam as companhias por diferentes canais. Além de aumentar o custo de rolagem das dívidas, podem dificultar a obtenção de novos financiamentos e elevar as despesas financeiras. Empresas com baixa geração de caixa, alto endividamento ou necessidade frequente de refinanciamento ficam mais expostas a esse ambiente.
Moraes avalia que o risco pode persistir em 2027 porque parte das companhias continuará carregando obrigações contratadas em condições financeiras desfavoráveis. “Se não houver uma melhora consistente na geração de caixa e nas condições de crédito, veremos mais companhias buscando reestruturação para sobreviver”, afirma. A projeção representa a avaliação do economista e não uma estimativa consolidada para o número de recuperações judiciais no próximo ano.
O aumento das reestruturações também alcança companhias de maior porte. Processos recentes envolvendo empresas conhecidas do mercado mostram que dificuldades de liquidez e renegociação de passivos não estão restritas aos pequenos negócios. O tamanho da dívida, entretanto, não determina sozinho a capacidade de recuperação, que depende da geração de caixa, dos ativos disponíveis, das condições negociadas com credores e da viabilidade operacional.
A recuperação judicial permite que uma empresa busque reorganizar suas obrigações enquanto mantém as atividades, mas não elimina a necessidade de corrigir desequilíbrios financeiros e operacionais. O processo pode incluir renegociação de prazos, condições de pagamento, venda de ativos e outras medidas previstas no plano apresentado aos credores.
“A recuperação judicial pode salvar uma empresa, mas não corrige um modelo de negócio inviável. O objetivo precisa ser recuperar a capacidade operacional e financeira, e não apenas postergar a dívida. Quanto mais cedo a empresa reconhecer o problema, maiores são as chances de reestruturação”, afirma Moraes.
Antes de um pedido chegar à Justiça, alguns indicadores podem sinalizar deterioração financeira, como redução persistente da geração de caixa, aumento acelerado do endividamento, dificuldade para renovar linhas de crédito e crescente necessidade de recursos de curto prazo para financiar despesas correntes.
Nesse contexto, o recorde de empresas em recuperação judicial funciona também como um indicador das dificuldades acumuladas pelo setor produtivo. A evolução dos juros, das condições de crédito e da capacidade das companhias de recompor caixa e reduzir dívidas será decisiva para determinar se a pressão sobre as reestruturações empresariais continuará em 2027.









