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Proposta para limitar Selic a 7,5% preocupa mercado

Proposta de Lara Resende para limitar a Selic provoca preocupação no mercado financeiro. Ministério da Fazenda nega que governo avalie a medida

A possibilidade de estabelecer limites para a taxa básica de juros por meio de um novo modelo de coordenação econômica provocou preocupação entre agentes do mercado financeiro. A proposta, apresentada pelo economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, prevê reduzir a Selic dos atuais 13,75% para aproximadamente 7,5% ao ano em um período de 12 meses, alterando a forma como são conduzidas as políticas monetária e fiscal no Brasil.

O debate ganhou repercussão após informações de que a proposta teria despertado interesse de integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, entretanto, negou que o tabelamento dos juros esteja em discussão no Executivo e afirmou que não existe reunião agendada entre o presidente e Lara Resende.

A iniciativa foi apresentada em artigo publicado em 25 de setembro, no qual o economista argumenta que os juros elevados são um dos principais responsáveis pela trajetória de crescimento da dívida pública. Em sua avaliação, o custo financeiro do endividamento compromete o equilíbrio fiscal e exige uma mudança na relação entre as decisões do Banco Central e a política econômica do governo.

O modelo prevê a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por estabelecer metas conjuntas para um horizonte de quatro a cinco anos. Nesse sistema, a Selic passaria a operar dentro de limites definidos a partir da meta de inflação e do crescimento potencial da economia, com exceções sujeitas à autorização do conselho.

Para implementar a mudança, Lara Resende defende uma redução gradual dos juros ao longo de aproximadamente um ano. O economista também propõe utilizar parte das reservas internacionais brasileiras, superiores a US$ 350 bilhões, para conter pressões sobre o câmbio que poderiam surgir durante a transição para o novo regime.

A proposta parte do diagnóstico de que a elevada despesa com juros contribui decisivamente para o avanço da dívida pública. Segundo os cálculos apresentados pelo economista, o custo médio do endividamento brasileiro supera o ritmo de crescimento da economia, dificultando a estabilização da relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB).

A interpretação, porém, enfrenta resistência entre economistas e gestores de instituições financeiras. Para esses profissionais, os juros elevados também refletem a percepção de risco fiscal, as expectativas de inflação e as incertezas sobre a capacidade do governo de controlar o crescimento das despesas públicas.

O principal receio é que a imposição de limites à Selic comprometa a autonomia operacional do Banco Central e reduza a confiança na condução da política monetária. Analistas avaliam que uma queda dos juros sem melhora consistente das expectativas fiscais poderia provocar saída de capitais, desvalorização do real e aceleração da inflação.

Nesse cenário, a utilização das reservas internacionais para conter a alta do dólar também é questionada. A avaliação de parte do mercado é que intervenções cambiais podem amenizar movimentos de curto prazo, mas não substituem medidas capazes de recuperar a credibilidade fiscal e estabilizar as expectativas econômicas.

A discussão ocorre após a reeleição de Lula, em um ambiente de maior volatilidade dos ativos brasileiros e de cobrança por definições sobre a política econômica do próximo mandato. A trajetória da dívida pública e a capacidade do governo de apresentar medidas fiscais consideradas sustentáveis estão entre os principais fatores acompanhados pelos investidores.

A proposta de Lara Resende recebeu manifestações favoráveis de integrantes do PT, incluindo a deputada federal Gleisi Hoffmann, que defendeu a importância do debate sobre o custo dos juros. A posição, contudo, não representa uma decisão oficial do governo sobre a adoção do modelo.

O Ministério da Fazenda mantém a posição de que não há discussão em andamento para tabelar a Selic ou utilizar reservas internacionais com essa finalidade. Assim, a proposta permanece no campo do debate econômico, sem anúncio de implementação ou mudança nas atribuições do Banco Central.

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