A criação de 112,3 mil empregos formais em janeiro, número superior à mediana de mercado de 92 mil vagas, não surpreendeu economistas que já esperavam uma compensação após o resultado fraco de dezembro. Para além do dado headline, porém, os analistas consultados identificam sinais de desaceleração gradual do mercado de trabalho — e alertam que o ritmo ainda elevado representa uma fonte ativa de pressão sobre a inflação, fator relevante para a reunião do Copom marcada para 17 e 18 de março.
Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, contextualiza o resultado de janeiro dentro de uma dinâmica sazonal distorcida. Segundo ele, mudanças nos fatores sazonais desde a pandemia, combinadas ao posicionamento dos feriados de Natal e Ano Novo no meio da semana, explicaram boa parte da surpresa negativa registrada em dezembro de 2025. A reversão em janeiro, com admissões totais avançando 9,8% para 2,202 milhões, confirmou a expectativa de compensação que ele já antecipava.
Apesar do resultado positivo, Margato identifica uma perda de fôlego na geração de vagas ao longo de 2025. O ritmo médio de criação de empregos recuou de cerca de 135 mil no primeiro semestre para aproximadamente 80 mil no segundo semestre do ano, movimento que, na avaliação do economista, reflete o arrefecimento da atividade doméstica. Outro indicador dessa moderação é o crescimento do salário médio de admissão nominal, que avançou 6,1% em janeiro, abaixo da média de 7% observada nos três meses anteriores. Margato ressalta, contudo, que o dado salarial segue em patamar elevado.
Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetimes Gestora de Recursos, prefere a comparação interanual para avaliar a tendência do mercado de trabalho, argumentando que o confronto mensal entre dezembro e janeiro é naturalmente distorcido pela sazonalidade. Pelo critério anual, a desaceleração fica mais nítida: em janeiro de 2025 haviam sido abertas 137 mil vagas líquidas, ante 112,3 mil no mesmo mês de 2026. Ainda assim, Kawauti avalia que o ritmo de desaceleração tem sido mais lento do que o esperado.
A economista destaca que a resiliência do mercado de trabalho deve ser incorporada pelo Banco Central na calibragem da política monetária. Para ela, o emprego formal segue como uma das principais fontes de pressão sobre a inflação de demanda e sobre os preços de serviços, segmento que o Copom monitora com atenção particular. O dado do IPCA-15 de fevereiro, divulgado em 27 de fevereiro com alta de 0,84% no mês e acima das projeções, reforça o ambiente de cautela que deve pautar a reunião de março. A expectativa do mercado ainda aponta para um corte de 0,50 ponto percentual na Selic.









