O Goldman Sachs emitiu alerta sobre riscos crescentes de alta nos preços do petróleo, apontando que as interrupções no Estreito de Ormuz estão se mostrando mais severas do que o banco havia projetado em seu cenário-base. Em nota distribuída a clientes na sexta-feira, a equipe de pesquisa de commodities da instituição, liderada pelo estrategista Dan Struyven, afirmou que, se os fluxos pelo estreito permanecerem deprimidos ao longo de março, os preços do petróleo — especialmente os de produtos refinados — devem superar os picos históricos registrados em 2008 e em 2022, dois dos momentos de maior estresse no mercado global de energia das últimas décadas.
Para contextualizar a magnitude da preocupação, é necessário entender o papel do Estreito de Ormuz na cadeia global de abastecimento de petróleo. Trata-se de um corredor marítimo estreito situado entre o Irã e a Península Arábica, por onde transita entre 20% e 21% de todo o petróleo comercializado no mundo. É a principal saída de exportação para países como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e o próprio Irã. Qualquer interrupção significativa nessa rota produz efeitos imediatos sobre a oferta global e pressiona os preços para cima.
Segundo as estimativas do Goldman Sachs, os embarques pelo Estreito de Ormuz estão cerca de 1,8 milhão de barris por dia abaixo dos níveis normais, representando uma queda de aproximadamente 10%. Esse número já supera a premissa anterior do banco, que projetava uma interrupção de apenas 15% dos fluxos. O cenário-base da instituição havia sido calibrado para o Brent negociar na faixa de US$ 80 em março e nos US$ 70 finais no segundo trimestre, mas os desenvolvimentos recentes no Golfo Pérsico tornaram esse referencial inadequado, segundo a própria equipe de pesquisa.
As rotas alternativas de exportação, acionadas para compensar o bloqueio, estão operando muito abaixo de sua capacidade potencial. O Goldman estima que o redirecionamento líquido via oleodutos e portos alternativos — como Yanbu, na Arábia Saudita, e Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos — tem gerado apenas 0,9 milhão de barris por dia nos últimos dias, enquanto a capacidade teórica dessas rotas é de aproximadamente 3,6 milhões de barris diários. A diferença entre o fluxo real e o potencial evidencia que as alternativas disponíveis estão longe de compensar o déficit criado pelo bloqueio do Estreito.
O porto de Fujairah, que seria uma das principais válvulas de escape para o escoamento de petróleo do Golfo, também foi atingido por ataques, e enfrenta escassez local de combustível marítimo, o que dificulta ainda mais os esforços de redirecionamento dos embarques. Esse dado é relevante porque Fujairah é o terceiro maior hub de bunker do mundo, e sua incapacidade operacional compromete a logística de toda a cadeia de exportação regional.
O banco também alertou que os custos de seguro, por si só, não explicam integralmente a queda nos embarques. Algumas seguradoras seguem oferecendo cobertura para a rota, e as taxas de frete já subiram o suficiente para compensar os prêmios mais elevados. O que mantém os operadores de petroleiros afastados é, sobretudo, a incerteza sobre as condições de navegação e os riscos de segurança em ambiente de conflito ativo, levando muitos deles a adotar uma postura de espera.
O Goldman Sachs avaliou ainda que a escala do choque de oferta atual é substancialmente maior do que a interrupção gerada pela produção russa no início de 2022, episódio que já havia sido suficiente para levar os preços do Brent a máximas históricas. A perda de aproximadamente 1,7 milhão de barris por dia do Golfo Pérsico, segundo o banco, pode drenar os estoques globais rapidamente e empurrar os preços a patamares capazes de destruir demanda — mecanismo pelo qual o mercado se equilibra quando a alta de preços é tão intensa que consumidores e indústrias reduzem voluntária ou compulsoriamente o consumo. Esse risco se intensifica caso haja acumulação antecipada de estoques pelos consumidores ou queda nas exportações de produtos refinados de países fora da OCDE.
Para que os preços se estabilizem ou recuem, o Goldman Sachs identificou três condições necessárias: uma desescalada mais ampla do conflito militar na região, proteção militar mais robusta por parte dos Estados Unidos para garantir a passagem segura de petroleiros, ou uma decisão explícita do Irã de permitir o trânsito pelo Estreito de Ormuz. Enquanto nenhuma dessas condições se concretizar, o banco afirmou que os riscos para os preços do petróleo permanecem firmemente inclinados para cima, com possibilidade de revisão das projeções caso os fluxos de navegação não se normalizem em breve.









