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Diesel sobe 11,6% na Petrobras e ainda fica abaixo do preço internacional

O risco central é que os R$ 10 bi da subvenção se esgotem antes do fim do ano caso o conflito se prolongue

A decisão da Petrobras de reajustar o preço do diesel nas refinarias em 11,6%, ou R$ 0,38 por litro, a partir deste sábado (14), e a adesão da companhia ao programa de subvenção econômica lançado pelo governo na quinta-feira (12), carregam uma aposta implícita de que a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã terá curta duração. O raciocínio subjacente é direto: se o conflito se prolongar e o petróleo permanecer acima de US$ 100 por barril por um período estendido, tanto o reajuste quanto a subvenção podem se revelar insuficientes, forçando a empresa a tomar decisões ainda mais difíceis num ano eleitoral. Na sexta-feira (13), o barril do tipo Brent subiu 2,67%, para US$ 103,14, reforçando a pressão sobre os preços dos derivados.

O primeiro risco identificado por pessoas próximas à companhia diz respeito à capacidade financeira do programa de subvenção. O governo disponibilizou R$ 10 bilhões para subsidiar o diesel até o fim do ano, com um valor inicial fixado em R$ 0,32 por litro. Se o conflito no Oriente Médio se estender além do previsto, essa verba pode se esgotar antes de dezembro, obrigando a Petrobras a elevar novamente os preços para compensar a perda da subvenção. Reajustar o diesel envolve invariavelmente uma decisão política sensível pelos efeitos na inflação e na popularidade do governo, especialmente em 2026, com eleições presidenciais no horizonte.

O segundo risco, também levantado por pessoas próximas à empresa, é operacional: a possibilidade de o Tesouro Nacional não liquidar os repasses da subvenção dentro dos prazos estabelecidos, gerando restos a pagar em favor da Petrobras. Nesse cenário, a companhia chegaria a 2027 com valores a receber da União num momento de incerteza sobre a manutenção da atual gestão, dado que o resultado das eleições de outubro de 2026 pode alterar o comando da estatal.

Na visão de especialistas, a velocidade das mudanças no mercado internacional pode exigir da Petrobras uma cadência inédita de revisões de preços. Uma reavaliação semanal ou quinzenal poderia levar a reajustes com periodicidade muito mais curta do que a historicamente praticada pela companhia, o que representa uma mudança cultural e operacional significativa na gestão de preços.

Há ainda uma preocupação específica relacionada às importações de diesel. Cerca de 25% da demanda doméstica do combustível é suprida por importações, e o que se busca garantir é que esses volumes não sejam absorvidos com prejuízo pelo sistema Petrobras. A solução adotada nas últimas semanas tem sido a venda em leilões a preços de mercado, mecanismo que transfere o custo ao comprador sem contaminar as margens da estatal.

Mesmo com o reajuste de R$ 0,38 e a subvenção de R$ 0,32 por litro, o diesel da Petrobras seguia sendo vendido abaixo do mercado internacional na sexta-feira, e a distância em relação à paridade varia significativamente dependendo da metodologia de cálculo. Para a StoneX, o combustível estava 48,5% abaixo do preço internacional, ou R$ 1,77 por litro mais barato. O BTG Pactual calculou uma defasagem de 32,3%, equivalente a R$ 1,74 por litro, reduzida em relação aos 37% anteriores ao reajuste. Já a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis, a Abicom, apurou uma defasagem de 59%, com o diesel da Petrobras R$ 2,14 por litro abaixo do importado.

A discrepância entre os cálculos reflete diferenças metodológicas relevantes. A Petrobras não divulga sua própria estimativa de defasagem, mas trabalha com uma fórmula que considera, além do preço do Brent e do câmbio, os custos de entrega às diferentes regiões do país, lógica distinta da paridade de importação utilizada pelas consultorias privadas. Com as duas medidas combinadas, o ganho da companhia por litro de diesel vendido às distribuidoras foi de R$ 0,70, o equivalente, segundo pessoas ligadas à empresa, a uma redução de 21% na defasagem. Ainda assim, considerando o barril acima de US$ 100, haveria espaço teórico para reajustes adicionais superiores a 30%.

Considerando ainda a mistura do diesel A com o biodiesel antes de chegar ao consumidor, o impacto nas bombas deve ser menor que R$ 0,06 por litro, segundo estimativa da própria Petrobras. A presidente da companhia, Magda Chambriard, afirmou na sexta que a empresa está satisfeita com a política de preços atual e que as medidas de subvenção ainda precisam ser regulamentadas pela Agência Nacional do Petróleo para que se chegue ao número real de ganho da companhia.

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