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Documentos indicam que o BRB comprou duas vezes a mesma CCB do Banco Master

Relatórios internos indicam fragilidades e riscos em operação do BRB com ativos do Banco Master

Registros internos do Banco de Brasília indicam que a instituição realizou duas aquisições da mesma cédula de crédito bancário originada no Banco Master, em operações que somaram R$ 498 milhões e ocorreram em meio a alertas técnicos sobre riscos relevantes. As transações envolveram um crédito vinculado à empresa RKO Alimentos, um frigorífico localizado no Mato Grosso, que havia contratado um financiamento de R$ 400 milhões em dezembro de 2023, com prazo de carência até fevereiro de 2026.

A primeira compra foi realizada em 17 de outubro de 2024, quando o BRB adquiriu parte do crédito por R$ 174 milhões. Essa operação não foi incluída em planilhas internas consolidadas que registravam aquisições de ativos provenientes do Banco Master. A segunda aquisição ocorreu em 30 de junho de 2025, no valor de R$ 324 milhões, totalizando a recompra da mesma dívida. Essa decisão foi tomada em um contexto de revisão de ativos, após a identificação de inconsistências em carteiras de varejo adquiridas anteriormente do mesmo banco.

A estrutura da operação previa que 90% dos recursos do financiamento concedido à RKO permaneceriam aplicados em um fundo de investimento e seriam liberados gradualmente conforme o avanço dos projetos da empresa. Inicialmente, os valores estavam vinculados a um fundo específico, mas posteriormente passaram a ser alocados em outro, sem apresentação de aditivo contratual que formalizasse a mudança. Esse ponto foi destacado como uma das fragilidades pelos setores técnicos do BRB, que também apontaram ausência de acompanhamento sobre a utilização dos recursos.

Outro elemento relevante envolveu as garantias da operação. O padrão adotado pelo banco estatal exigia cobertura mínima de 130% do valor cedido, mas o índice observado foi inferior, com cerca de 69%. Para suprir essa lacuna, foi indicada a inclusão de um imóvel urbano avaliado em aproximadamente R$ 1,3 bilhão, localizado em Mata de São João, na Bahia. No entanto, verificações posteriores indicaram que o ativo não pertencia ao Banco Master e não havia registro de alienação fiduciária vinculada à operação, o que impedia sua utilização como garantia efetiva.

Relatórios assinados por cinco superintendências do BRB, produzidos no próprio dia da segunda aquisição, listaram 18 pontos de atenção relacionados ao crédito. Entre eles estavam a ausência de garantias reais imobiliárias formalizadas, falta de comprovação sobre a aplicação dos recursos no projeto original, inexistência de documentos contábeis atualizados e ausência de informações sobre liberações financeiras e cumprimento de etapas contratuais. Também foi registrado que o saldo devedor já ultrapassava R$ 550 milhões sem acompanhamento adequado.

Apesar desses apontamentos, a operação foi aprovada no mesmo dia, sem condicionantes formais. O parecer jurídico sobre o caso foi elaborado posteriormente, em 11 de julho de 2025, indicando a necessidade de inclusão de salvaguardas contratuais, como cláusulas de revenda para mitigar riscos institucionais. As recomendações, no entanto, não foram incorporadas à decisão que autorizou a compra.

A segunda aquisição ocorreu em um momento em que o Banco de Brasília buscava ajustar sua carteira de ativos e avançava em tratativas relacionadas à aquisição do próprio Banco Master, em negociação que dependia de avaliação do Banco Central. Nesse contexto, a substituição de ativos considerados problemáticos por outros classificados como de melhor qualidade foi apontada como um dos fatores que influenciaram a decisão de compra da mesma cédula de crédito novamente.

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