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Bitcoin testa resistência dos US$ 80.000 após rali de 26% e analista aponta suportes

Morgan Stanley e Goldman entraram no segmento e um short squeeze de US$ 394 mi acelerou o rali

Abril de 2026 deveria ter sido um mês de retração. A escalada da crise geopolítica no Oriente Médio, o estrangulamento das principais rotas comerciais e a inflação global ainda pressionada compunham um cenário em que o comportamento esperado dos investidores seria de migração defensiva, com redução de exposição ao risco.

O que se observou, no entanto, foi o oposto — e Ana de Mattos, Analista Técnica e Trader Parceira da Ripio, detalha os mecanismos que explicam esse paradoxo.

A capitalização total do mercado de criptomoedas avançou de US$ 2,28 trilhões para US$ 2,6 trilhões ao longo do mês, enquanto o Bitcoin acumulou valorização de 18%.

Da mínima anual de US$ 60.000, registrada em fevereiro, até o fechamento de abril na faixa de US$ 75.846, o ativo acumulou alta de 26,4%. Para a analista, esse descompasso entre um ambiente macro incerto e a retomada do apetite por risco não foi aleatório — e pode ser explicado por uma sequência de eventos que reabriu espaço para a recomposição de risco nas principais mesas institucionais do mundo.

O mês começou sob forte estresse

O impasse diplomático e militar entre Estados Unidos e Irã praticamente paralisou o tráfego no Estreito de Ormuz no início do mês.

O volume de embarcações despencou de uma média de 129 navios por dia para apenas 19, enquanto o petróleo Brent rompeu a marca de US$ 110. Nesse contexto, o Bitcoin foi negociado a US$ 65.712 no dia 2, marcando a mínima do mês, em meio à expectativa pelos dados do payroll no dia seguinte.

A divulgação veio com 178 mil novas vagas e taxa de desemprego de 4,3%, reforçando a leitura de juros elevados por mais tempo. Como consequência, houve reposicionamento nos ativos macro: o Treasury de 10 anos avançou para 4,35%, o dólar voltou à região dos 100 pontos no DXY e o Bitcoin reprecificou negativamente esse movimento, mantendo sua sensibilidade à liquidez global.

O evento que realmente quebrou a narrativa de busca por proteção veio no dia 7, com o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã.

A trégua foi interpretada como redução temporária do risco inflacionário, melhorando o ambiente para ativos de risco de forma imediata. O petróleo recuou, os juros cederam e o Bitcoin saiu da faixa dos US$ 68.000, retomando a tendência de alta e voltando aos US$ 72.000 — abrindo caminho para o movimento que levaria o preço próximo dos US$ 80.000 ao longo do mês.

Um segundo fator reforçou essa virada: as mudanças no cenário institucional do Federal Reserve. O encerramento de uma investigação envolvendo Jerome Powell abriu espaço para a transição de liderança, com a expectativa de uma condução do Fed mais favorável à liquidez.

O mercado passou a precificar que o Fed poderia tolerar o impacto inflacionário do petróleo mais caro sem responder de forma agressiva com juros — entendimento que reduziu a aversão ao risco e incentivou a realocação de capital.

O sinal mais claro dessa dinâmica foi a perda de força do dólar, com o índice DXY recuando de níveis acima de 100 para a região de 98,5, enquanto o S&P 500 reverteu uma queda de cerca de 10% em uma recuperação em “V” de apenas 11 pregões e o Nasdaq 100 registrou 13 dias consecutivos de alta — a sequência mais longa em mais de uma década.

Fluxo institucional como pilar do rali

Na avaliação de Ana de Mattos, o fluxo institucional foi um dos principais pilares do movimento de abril. Após encerrar março com US$ 1,32 bilhão em entradas líquidas, os ETFs de Bitcoin aceleraram o ritmo ao longo do mês, com US$ 471 milhões em um único dia e mais de US$ 2,1 bilhões acumulados em apenas oito pregões até o dia 23.

No total, abril se aproximou de US$ 2,5 bilhões em entradas — crescimento de aproximadamente 89% em relação ao mês anterior e volume superior ao fluxo acumulado em todo o primeiro trimestre do ano. O total de ativos sob gestão dos ETFs de criptoativos nos EUA atingiu US$ 125 bilhões, mantendo o segmento próximo das máximas históricas.

A retomada do capital institucional também se refletiu na atuação de grandes players tradicionais. O Morgan Stanley lançou seu primeiro ETF spot de Bitcoin no dia 8, enquanto o Goldman Sachs protocolou seu produto no dia 14 — movimentos que, para a analista, reforçam que a demanda institucional por Bitcoin voltou a ganhar tração de forma consistente, com demanda efetiva no mercado à vista e não apenas reposicionamento especulativo em derivativos.

Short squeeze amplifica o movimento

No mercado de derivativos, abril foi um mês de amplificação. No início do período, com o petróleo pressionando e o sentimento mais defensivo, as funding rates ficaram negativas e o mercado acumulou posições vendidas. Com a melhora do cenário geopolítico e a recuperação dos preços, essas posições passaram a ser encerradas à força, acelerando a alta além do que o fluxo à vista sustentaria sozinho.

O episódio mais relevante aconteceu no dia 22, quando um short squeeze liquidou cerca de US$ 394 milhões, com 97,7% das liquidações concentradas em posições vendidas, impulsionando o preço rapidamente acima dos US$ 79.000.

Para de Mattos, a direção foi dada pelo retorno do fluxo nos ETFs, enquanto a intensidade veio dos derivativos — o mercado estava mal posicionado para a alta e precisou corrigir essa assimetria rapidamente.

Fragilidades internas do ecossistema

Abril também expôs vulnerabilidades relevantes no mercado cripto nativo. O principal evento foi o exploit no Kelp DAO, um dos projetos mais relevantes no segmento de restaking, que resultou em perdas de cerca de US$ 292 milhões e comprometeu a liquidez do rsETH, desencadeando saídas estimadas entre US$ 10 bilhões e US$ 13 bilhões do ecossistema DeFi.

No total, as perdas com ataques no mês superaram US$ 606 milhões. Redes ligadas a Ethereum, Solana, protocolos DeFi e altcoins foram as mais afetadas em termos de confiança, com parte do capital migrando para ativos considerados mais seguros dentro do próprio ecossistema — especialmente o Bitcoin, cuja dominância saiu de 57,9% em março para 60,66% em abril, enfraquecendo a narrativa de altseason no curto prazo.

Avanços regulatórios parciais

No campo regulatório, o mês trouxe sinais com efeitos distintos. O GENIUS Act introduziu diretrizes para emissores de stablecoins, com exigências de compliance, capital e normas mais rígidas de prevenção à lavagem de dinheiro. A SEC e a CFTC publicaram uma taxonomia conjunta para ativos digitais, formalizando o entendimento de que a maioria dos criptoativos não se enquadra como valor mobiliário.

Por outro lado, o CLARITY Act voltou a travar no Senado — indicando que o avanço regulatório ainda é parcial. A CFTC também sinalizou intenção de aprovar contratos perpétuos nos Estados Unidos, movimento que tende a aumentar a profundidade de mercado, mas que também pode acelerar a transmissão dos choques macroeconômicos diretamente para os preços.

O que observar em maio

O rali de abril terminou com sinais de perda de fôlego. Apesar de o preço ter se aproximado dos US$ 80.000, houve dificuldade em sustentar o movimento em um contexto de petróleo novamente acima de US$ 108, ambiente macro ainda pressionado e parte da alta explicada por recompras forçadas.

Para avançar acima da resistência dos US$ 80.000, será necessário um novo fluxo comprador aliado a algum alívio no cenário macroeconômico — com as próximas resistências em US$ 83.200 e US$ 85.900 no médio prazo.

Para o próximo mês, Ana de Mattos aponta quatro vetores que o investidor cripto deve monitorar de perto: o petróleo, principal canal de transmissão entre o cenário geopolítico e a inflação; o comportamento do dólar e dos Treasuries, que continuam determinando o apetite global por risco; a continuidade dos fluxos nos ETFs, cuja consistência tem se mostrado um dos principais vetores de sustentação do preço; e a dinâmica interna do mercado, especialmente em DeFi e derivativos, onde falhas de segurança e excesso de alavancagem seguem capazes de redistribuir o capital dentro do ecossistema e ampliar a volatilidade.

Nos suportes, a analista aponta os níveis de US$ 73.500 e US$ 69.150 no médio prazo como regiões relevantes para aportes fracionados com melhor relação risco-retorno.

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