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Bancos elevam provisões contra calotes em 33% com juros altos e guerra

Inadimplência no agronegócio do Banco do Brasil sobe para 6,22% e pressiona custo de crédito do setor bancário

Os principais bancos do país ampliaram de forma significativa as provisões para perdas com crédito no primeiro trimestre de 2026, em meio ao avanço da inadimplência e aos efeitos acumulados do ciclo de juros elevados sobre empresas e famílias.

Banco do Brasil, Santander, Itaú Unibanco e Bradesco registraram juntos R$ 44,8 bilhões em despesas relacionadas a provisões contra devedores duvidosos entre janeiro e março. O valor representa crescimento de 33% em relação ao mesmo período do ano anterior, considerando o cálculo líquido das recuperações de créditos já baixados, indicador conhecido no setor financeiro como custo de crédito.

O aumento das provisões ocorre em um ambiente marcado pela manutenção da Selic em patamares elevados, atualmente em 15% ao ano, o que encarece o crédito, amplia o endividamento e pressiona a capacidade de pagamento de empresas e consumidores. O cenário também passou a incorporar os impactos da guerra no Oriente Médio e da alta do petróleo, fatores que reduziram as expectativas de cortes mais rápidos de juros pelo Banco Central.

Além do ambiente macroeconômico, os bancos passaram a operar sob as novas regras da resolução CMN 4.966, que tornou mais rigoroso o reconhecimento antecipado de perdas esperadas nas carteiras de crédito. A mudança elevou a pressão sobre indicadores de inadimplência e provisões contábeis no sistema financeiro.

Entre os grandes bancos, o Banco do Brasil concentrou a deterioração mais intensa das métricas de risco. A instituição registrou R$ 18,9 bilhões em custo de crédito no primeiro trimestre, avanço anual de 86%. A principal pressão continua vindo da carteira do agronegócio, segmento mais relevante da operação de crédito do banco.

A inadimplência rural da instituição atingiu 6,22% em março, considerando atrasos superiores a 90 dias, contra 2,76% no mesmo período do ano anterior. Segundo o banco, fatores como volatilidade das commodities agrícolas e eventos climáticos extremos contribuíram para o aumento do risco no setor.

Do total provisionado para perdas esperadas pelo Banco do Brasil, cerca de R$ 7,4 bilhões vieram da carteira agro. O banco também registrou recuperação de crédito abaixo do esperado no período. Enquanto a expectativa era recuperar entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões por trimestre, o resultado efetivo ficou em R$ 1,2 bilhão.

O vice-presidente de Gestão Financeira do Banco do Brasil, Geovanne Tobias, afirmou que a instituição antecipou reforços de provisão, especialmente nas operações de cartão de crédito, diante da piora observada também na carteira de pessoa física.

Nos bancos privados, a deterioração ocorreu de forma mais moderada, embora espalhada por diferentes segmentos. O Santander registrou o avanço mais expressivo na inadimplência entre os grandes privados, com alta de 0,6 ponto percentual em 12 meses, para 3,3% da carteira.

No Bradesco, a inadimplência avançou 0,1 ponto percentual, enquanto o Itaú manteve o indicador estável em 1,9%. Ainda assim, o banco identificou piora nas operações com micro, pequenas e médias empresas, influenciada pelo encerramento dos períodos de carência de programas garantidos pelo governo, como o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI).

O presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, afirmou que a inadimplência nesse segmento pode continuar subindo nos próximos trimestres, embora ainda permaneça abaixo dos níveis observados em ciclos anteriores.

Os bancos também passaram a monitorar de forma mais próxima carteiras corporativas diante das dificuldades financeiras enfrentadas por algumas grandes empresas. O mercado acompanha casos recentes envolvendo grupos como GPA e Raízen, que recorreram a processos de recuperação extrajudicial nos últimos meses.

No Bradesco, o ambiente levou a um aumento do custo de crédito para 3,5% da carteira média de empréstimos no trimestre. Executivos do banco estimam que o indicador deve permanecer próximo de 3,3% ao longo de 2026.

Relatório do Citi apontou que o custo de risco seguirá como principal indicador de atenção para o Bradesco nos próximos trimestres, especialmente devido à necessidade de provisões mais elevadas no segmento de varejo de massa.

No Santander, o CEO Mario Leão afirmou que o banco mantém atenção sobre três áreas específicas: pequenas empresas, agronegócio e operações de cartão de crédito. Segundo o executivo, a expectativa é de melhora gradual no agronegócio em 2026, embora o ambiente ainda permaneça pressionado.

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