Os principais bancos do país ampliaram de forma significativa as provisões para perdas com crédito no primeiro trimestre de 2026, em meio ao avanço da inadimplência e aos efeitos acumulados do ciclo de juros elevados sobre empresas e famílias.
Banco do Brasil, Santander, Itaú Unibanco e Bradesco registraram juntos R$ 44,8 bilhões em despesas relacionadas a provisões contra devedores duvidosos entre janeiro e março. O valor representa crescimento de 33% em relação ao mesmo período do ano anterior, considerando o cálculo líquido das recuperações de créditos já baixados, indicador conhecido no setor financeiro como custo de crédito.
O aumento das provisões ocorre em um ambiente marcado pela manutenção da Selic em patamares elevados, atualmente em 15% ao ano, o que encarece o crédito, amplia o endividamento e pressiona a capacidade de pagamento de empresas e consumidores. O cenário também passou a incorporar os impactos da guerra no Oriente Médio e da alta do petróleo, fatores que reduziram as expectativas de cortes mais rápidos de juros pelo Banco Central.
Além do ambiente macroeconômico, os bancos passaram a operar sob as novas regras da resolução CMN 4.966, que tornou mais rigoroso o reconhecimento antecipado de perdas esperadas nas carteiras de crédito. A mudança elevou a pressão sobre indicadores de inadimplência e provisões contábeis no sistema financeiro.
Entre os grandes bancos, o Banco do Brasil concentrou a deterioração mais intensa das métricas de risco. A instituição registrou R$ 18,9 bilhões em custo de crédito no primeiro trimestre, avanço anual de 86%. A principal pressão continua vindo da carteira do agronegócio, segmento mais relevante da operação de crédito do banco.
A inadimplência rural da instituição atingiu 6,22% em março, considerando atrasos superiores a 90 dias, contra 2,76% no mesmo período do ano anterior. Segundo o banco, fatores como volatilidade das commodities agrícolas e eventos climáticos extremos contribuíram para o aumento do risco no setor.
Do total provisionado para perdas esperadas pelo Banco do Brasil, cerca de R$ 7,4 bilhões vieram da carteira agro. O banco também registrou recuperação de crédito abaixo do esperado no período. Enquanto a expectativa era recuperar entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões por trimestre, o resultado efetivo ficou em R$ 1,2 bilhão.
O vice-presidente de Gestão Financeira do Banco do Brasil, Geovanne Tobias, afirmou que a instituição antecipou reforços de provisão, especialmente nas operações de cartão de crédito, diante da piora observada também na carteira de pessoa física.
Nos bancos privados, a deterioração ocorreu de forma mais moderada, embora espalhada por diferentes segmentos. O Santander registrou o avanço mais expressivo na inadimplência entre os grandes privados, com alta de 0,6 ponto percentual em 12 meses, para 3,3% da carteira.
No Bradesco, a inadimplência avançou 0,1 ponto percentual, enquanto o Itaú manteve o indicador estável em 1,9%. Ainda assim, o banco identificou piora nas operações com micro, pequenas e médias empresas, influenciada pelo encerramento dos períodos de carência de programas garantidos pelo governo, como o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI).
O presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, afirmou que a inadimplência nesse segmento pode continuar subindo nos próximos trimestres, embora ainda permaneça abaixo dos níveis observados em ciclos anteriores.
Os bancos também passaram a monitorar de forma mais próxima carteiras corporativas diante das dificuldades financeiras enfrentadas por algumas grandes empresas. O mercado acompanha casos recentes envolvendo grupos como GPA e Raízen, que recorreram a processos de recuperação extrajudicial nos últimos meses.
No Bradesco, o ambiente levou a um aumento do custo de crédito para 3,5% da carteira média de empréstimos no trimestre. Executivos do banco estimam que o indicador deve permanecer próximo de 3,3% ao longo de 2026.
Relatório do Citi apontou que o custo de risco seguirá como principal indicador de atenção para o Bradesco nos próximos trimestres, especialmente devido à necessidade de provisões mais elevadas no segmento de varejo de massa.
No Santander, o CEO Mario Leão afirmou que o banco mantém atenção sobre três áreas específicas: pequenas empresas, agronegócio e operações de cartão de crédito. Segundo o executivo, a expectativa é de melhora gradual no agronegócio em 2026, embora o ambiente ainda permaneça pressionado.









