Os ETFs de renda fixa deixaram de ocupar um espaço secundário no mercado brasileiro para se transformar em uma das principais tendências da indústria financeira em 2026. Impulsionados pelo ambiente de juros elevados e pela busca dos investidores por alternativas mais simples e eficientes para acessar títulos públicos e crédito privado, esses fundos negociados em bolsa registram forte crescimento na B3.
Os números refletem a mudança de perfil desse mercado. Segundo dados da Anbima, os ETFs registraram a segunda maior captação líquida entre todas as classes de fundos no primeiro trimestre de 2026.
Entre janeiro e março, as entradas líquidas somaram R$ 17,8 bilhões, melhor resultado para o período nos últimos cinco anos. Desse total, os ETFs de renda fixa responderam por R$ 15,5 bilhões.
O avanço da demanda também acelerou a chegada de novos produtos ao mercado brasileiro. Levantamento da consultoria Elos Ayta mostra que os ETFs de renda fixa cresceram lentamente até 2021, mas passaram a ganhar força a partir de 2024, acompanhando o cenário de juros elevados e a maior familiaridade do investidor com esse tipo de aplicação.
Desde então, bancos, plataformas e gestoras ampliaram fortemente a oferta de produtos na bolsa brasileira. Instituições como BTG Pactual, Itaú Unibanco, Bradesco, XP e Genial Investimentos estão entre os grupos que lançaram novos ETFs de renda fixa entre 2025 e o início de 2026.
O mercado hoje reúne produtos ligados à taxa Selic, CDI, inflação, títulos prefixados, crédito privado e diferentes tipos de títulos públicos federais.
Para Bruno Stein, responsável pela área de ETFs da Galapagos Capital, o avanço da indústria acontece porque o produto passou a oferecer uma forma mais simples, barata e eficiente de acessar investimentos já tradicionais no mercado.
“O Brasil é um país de renda fixa”, afirmou em entrevista ao Money Times. “O ETF não cria demanda, ele atende demanda. Ele é um veículo eficiente para atender uma demanda de alocação numa classe de ativo que já existe”.
Segundo Stein, os ETFs deixaram de ser um nicho e passaram a disputar espaço diretamente com Tesouro Direto, CDBs e fundos tradicionais de renda fixa.
Na avaliação do executivo, três fatores explicam o crescimento acelerado do produto: eficiência tributária, custo mais baixo e democratização do acesso. “O ETF é eficiente, transparente e fácil”, resumiu.
A leitura é semelhante à de Rodrigo Araújo, especialista de ETF da Itaú Asset. Segundo ele, o crescimento dos ETFs de renda fixa acompanha uma mudança no comportamento do investidor brasileiro, que passou a olhar menos para produtos isolados e mais para a construção de portfólio.
“O investidor acabou saindo um pouco mais da visão produto e indo para uma visão muito mais portfólio”, afirmou. “O ETF entra muito dentro desse protagonismo porque entrega liquidez, transparência, diversificação e agilidade operacional”.
A principal vantagem, segundo Stein, está na tributação. Diferentemente dos fundos tradicionais, os ETFs de renda fixa não possuem come-cotas semestral e, em sua maioria, já começam com alíquota de 15% de Imposto de Renda. “Ele não tem IOF, não tem come-cotas e já parte de uma alíquota de 15% no primeiro minuto”, afirmou.
O especialista de ETF do Itaú Asset explica ainda que, nos ETFs, a tributação depende do prazo médio dos títulos da carteira e não do tempo em que o investidor permanece aplicado. “Você acaba tendo uma alíquota definitiva de IR”, disse. Em carteiras mais longas, a tributação pode cair para 15%.
No Tesouro Direto, por exemplo, a menor alíquota só é atingida após dois anos de aplicação por conta da tabela regressiva de imposto. Além disso, Stein destaca que os ETFs permitem adiar o pagamento do imposto ao reinvestirem automaticamente os cupons recebidos pelos títulos públicos.
“Os cupons são reincorporados na cota, então você difere essa tributação para daqui a quantos anos demorar para resgatar”, explicou. “Enquanto o dinheiro não está pago em tributo, ele está trabalhando para você”.
Outro diferencial está nas taxas mais baixas. Segundo o executivo, os ETFs de renda fixa que mais captam recursos atualmente possuem taxas inferiores às cobradas pelo Tesouro Direto.
“O Tesouro Direto custa 0,20% ao ano. Os ETFs de renda fixa que estão captando têm taxa abaixo de 0,20%. Tem ETF com taxa zero”. Nos fundos tradicionais, acrescenta, é difícil encontrar produtos com taxa inferior a 0,5%.
Além do custo reduzido, o acesso facilitado também ajudou a popularizar o produto entre investidores de varejo.
“Com R$ 100 você compra”, disse Stein. “O ETF de renda fixa é o fundo exclusivo antigo que era só do multimilionário, mas que agora é de todo mundo”, diz referindo-se ao ajuste na Lei que tirou a vantagem dos fundos exclusivos pagarem imposto apenas no resgate do dinheiro.
Alguns ETFs já movimentam volumes bilionários na B3. O LFTB11, fundo de títulos pós-fixados lançado no fim de 2024, acumulou mais de R$ 4 bilhões em negociações apenas em 2026.
Outros produtos, como LFTS11 e LLFT11, também superaram a marca de R$ 3 bilhões em volume negociado.
Além da facilidade operacional, a rentabilidade elevada ajudou a impulsionar o interesse dos investidores.
Com a Selic em níveis elevados, muitos ETFs de renda fixa passaram a oferecer retornos competitivos, somando liquidez, diversificação e taxas geralmente inferiores às cobradas por fundos tradicionais.
Entre os destaques do levantamento da Elos Ayta aparece o MARG11, que acumulou retorno de 15% nos últimos 12 meses. Outros ETFs de renda fixa registraram ganhos próximos de 14% no mesmo período.
O crescimento desse segmento também reflete uma mudança de comportamento do investidor brasileiro, que passou a buscar alternativas mais acessíveis e transparentes para exposição à renda fixa, sem necessidade de aplicação direta em títulos públicos ou crédito privado.
| Código | Indicador | Retorno em 12M | Retorno em 2026 | Primeiro dado | Volume R$ Milhares em 2026 |
|---|---|---|---|---|---|
| FIXA11 | CDI (juros básicos) | 12,54 | 3,35 | 06/09/2018 | 18.988 |
| IMAB11 | Inflação geral (NTN-B) | 12,26 | 5,22 | 17/05/2019 | 1.047.100 |
| IRFM11 | Prefixado médio | 13,62 | 3,92 | 23/09/2019 | 318.885 |
| IB5M11 | Inflação curta | 12,19 | 4,79 | 23/09/2019 | 241.793 |
| IMBB11 | Inflação geral | 12,06 | 4,92 | 11/12/2019 | 92.236 |
| B5MB11 | Inflação longa | 12,10 | 4,55 | 11/12/2019 | 158.629 |
| B5P211 | Inflação longa | 11,95 | 5,42 | 16/11/2020 | 1.154.049 |
| DEBB11 | Crédito privado (CDI) | 13,89 | 4,31 | 28/06/2022 | 371.904 |
| LFTS11 | Tesouro Selic | 14,73 | 4,77 | 09/11/2022 | 3.120.451 |
| NTNS11 | Inflação longa (Tesouro) | 12,18 | 5,52 | 19/06/2023 | 102.466 |
| BDAP11 | Juros vs inflação (DAP) | 14,78 | 5,24 | 26/09/2023 | 840 |
| PACB11 | Inflação longa | 13,20 | 5,07 | 12/07/2024 | 104.430 |
| IDKA11 | Prefixado curto | 13,60 | 3,83 | 30/10/2024 | 223.875 |
| PACG11 | Juros geral (mix) | 12,19 | 5,20 | 01/11/2024 | 57.414 |
| PACC11 | Inflação curta | 12,14 | 5,59 | 01/11/2024 | 92.165 |
| LFTB11 | Tesouro Selic | 14,74 | 4,79 | 05/11/2024 | 4.184.674 |
| PHIP11 | Inflação (IPCA+) | 12,28 | 4,87 | 10/03/2025 | 3.184 |
| MARG11 | Crédito privado | 15,00 | 4,70 | 24/03/2025 | 80.645 |
| LLFT11 | Tesouro Selic | 8,05 | 4,74 | 13/06/2025 | 3.102.355 |
| LTNB11 | Prefixado médio | 7,28 | 3,65 | 15/07/2025 | 31.084 |
| PACL11 | Inflação curta | 4,97 | 4,84 | 22/07/2025 | 34.959 |
| AREA11 | Juros diversificado | 2,88 | 3,30 | 26/09/2025 | 34.702 |
| LFIN11 | Inflação | 3,57 | 4,81 | 30/09/2025 | 298.844 |
| SFIX11 | Prefixado | 2,95 | 5,48 | 02/10/2025 | 14.081 |
| HYBR11 | Juros misto | 4,02 | 3,77 | 10/10/2025 | 62.971 |
| HGBR11 | Juros global | 2,86 | 4,00 | 10/10/2025 | 41.611 |
| GICP11 | Crédito incentivado | 2,50 | 3,41 | 10/10/2025 | 9.832 |
| GLFT11 | Tesouro Selic | 2,88 | 4,76 | 16/10/2025 | 768.029 |
| NCDI11 | CDI | 2,84 | 4,76 | 17/10/2025 | 9.102 |
| BPRE11 | Prefixado | 2,86 | 3,91 | 17/10/2025 | 21.109 |
| BOL511 | Juros + bolsa | 2,56 | 5,61 | 17/10/2025 | 59.976 |
| BLFT11 | Tesouro Selic | 2,77 | 4,72 | 17/10/2025 | 244.373 |
| WEJR11 | Inflação (juros reais) | 3,35 | 4,84 | 20/10/2025 | 8 |
| XB5011 | Inflação muito longa | 0,12 | 5,17 | 16/12/2025 | 58.184 |
| XB3511 | Inflação longa | 0,54 | 4,37 | 16/12/2025 | 49.080 |
| T10R11 | Juros EUA (10 anos) | -0,04 | 3,67 | 16/12/2025 | 17.407 |
| AUPO11 | Prefixado | 0,35 | 4,93 | 16/12/2025 | 590.133 |
| NLFA11 | Crédito bancário | 0,27 | 4,74 | 17/12/2025 | 84.401 |
| LFTI11 | Tesouro Selic | 0,06 | 4,92 | 26/12/2025 | 58.360 |
| XB6011 | Inflação diversificada | – | 1,92 | 04/03/2026 | 1.840 |
| XB4511 | Inflação longa | – | 2,89 | 04/03/2026 | 2.894 |
| 5PRE11 | Prefixado (5 anos) | – | 3,16 | 26/03/2026 | 31.023 |
| LTBX11 | Selic otimizado | – | 1,03 | 06/04/2026 | 30.072 |
| POSB11 | Selic + inflação | – | 1,09 | 07/04/2026 | 89.617 |
| LFTX11 | Tesouro Selic | – | 1,04 | 07/04/2026 | 2.953 |
| XB3011 | Inflação média | – | 0,86 | 09/04/2026 | 15.179 |










