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Analistas veem Petrobras barata mesmo com volatilidade do petróleo

BTG, Santander e Terra mantêm visão favorável para a Petrobras, apesar da volatilidade do petróleo e da redução dos dividendos extraordinários

A combinação de baixo valor de mercado em relação às concorrentes, elevada rentabilidade operacional e forte geração de caixa mantém a Petrobras (PETR3; PETR4) entre as principais teses do setor de petróleo para parte dos analistas. Mesmo com a volatilidade provocada pelo conflito no Oriente Médio, a possibilidade de queda do preço do barril e a expectativa de menor distribuição de dividendos extraordinários, bancos e casas de análise ainda enxergam espaço para valorização das ações.

A estatal negocia com múltiplos significativamente inferiores aos de grandes petrolíferas globais. Considerando os papéis negociados nos Estados Unidos, a relação entre preço e lucro da Petrobras está próxima de 5,6 vezes nos últimos 12 meses, enquanto a TotalEnergies opera ao redor de 11 vezes e a Chevron chega a aproximadamente 30 vezes, segundo dados citados do Yahoo Finance. O BTG projeta que esse múltiplo poderá subir para 8,4 vezes até o fim do ano, mas ainda permaneceria abaixo de parte relevante das concorrentes internacionais.

O desconto também aparece na comparação com empresas brasileiras de exploração e produção, como Prio (PRIO3) e Brava Energia (BRAV3). Embora a Petrobras apresente retornos elevados sobre suas operações, lucro e patrimônio, seu valor de mercado incorpora riscos ligados à interferência política, à governança e à posição do governo federal como acionista controlador. Parte do mercado teme que períodos de alta do petróleo aumentem a pressão para retardar os reajustes dos combustíveis, principalmente durante o calendário eleitoral.

Empresa Ticker (Bloomberg) Valor de Mercado (US$ bi) EV/EBITDA 2026 EV/EBITDA 2027 P/L 2026 P/L 2027 FCFE Yield 2026 FCFE Yield 2027
Petrobras PBR US 103,10 4,0x 3,5x 8,4x 6,7x 6,00% 10,00%
PRIO PRIO3 BZ 9,00 5,1x 3,6x 17,2x 8,5x 9,00% 25,00%
Brava Energia BRAV3 BZ 1,70 3,7x 2,2x 5,7x 3,0x 8,00% 18,00%
Exxon XOM US 608,50 6,7x 7,1x 13,2x 14,0x 5,00% 8,00%
Chevron CVX US 372,30 5,9x 6,5x 12,9x 15,0x 5,00% 10,00%
Shell SHELL NA 240,70 4,1x 4,4x 8,6x 9,3x 9,00% 11,00%
TotalEnergies TTE FP 201,20 4,4x 5,0x 8,0x 9,2x 5,00% 10,00%

Segundo relatório da XP, os preços da gasolina praticados pela Petrobras estavam 3,4% abaixo da paridade de importação no início de julho. No diesel, a companhia chegou a operar com prêmio de 3,2%, beneficiada por uma subvenção de R$ 1,12 por litro, suspensa no início do mês. O BTG aponta como risco uma eventual redução ou retirada do subsídio de R$ 0,44 por litro da gasolina, o que poderia ampliar a diferença entre os preços internos e internacionais.

Apesar do risco político, analistas avaliam que a atual política comercial da Petrobras é mais flexível do que o antigo modelo de paridade automática e não representa, por enquanto, um retorno ao controle permanente de preços. Régis Chinchila, analista de Research da Terra Investimentos, afirma que não há elementos suficientes para concluir que a companhia voltará a adotar uma política sistemática de represamento dos combustíveis.

A intervenção do governo também trouxe efeitos positivos para o caixa da estatal. O programa federal de subvenção criado para compensar empresas pela comercialização de óleo diesel teria acrescentado R$ 4,7 bilhões aos recursos da Petrobras. Para Flavio Conde, chefe de Renda Variável da Levante, o risco eleitoral pode até produzir uma assimetria favorável: uma eventual continuidade do atual governo tenderia a preservar a política já conhecida, enquanto uma mudança para uma administração de centro poderia levar o mercado a reduzir o desconto político atribuído à companhia.

O preço do petróleo, no entanto, permanece como uma das principais variáveis para o desempenho financeiro e para a cotação das ações. A Petrobras iniciou 2026 negociada próxima de R$ 30 e chegou a R$ 49,80 em 13 de abril, acompanhando a valorização do barril, que passou de aproximadamente US$ 70 para perto de US$ 120 depois do início do conflito no Oriente Médio, em 28 de fevereiro. Com a normalização da commodity para níveis inferiores a US$ 80, os papéis recuaram para a faixa de R$ 39.

As ações voltaram a avançar na segunda-feira (13), depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar a cobrança de um pedágio de 20% no Estreito de Ormuz. Na ocasião, PETR3 subiu 3,44%, para R$ 45,71, enquanto PETR4 avançou 2,55%, para R$ 40,65. A sensibilidade da companhia ao petróleo é elevada: com base em referências históricas da própria Petrobras, cada variação de US$ 10 no preço do Brent pode alterar o fluxo de caixa operacional em aproximadamente US$ 5 bilhões.

Papel P/L P/VP Dividend Yield EV/EBITDA Margem operacional (EBIT) Margem líquida ROIC ROE
BRAV3 37,59 0,77 0,66% 3,50x 23,64% 1,96% 7,84% 2,04%
PRIO3 19,27 1,87 0,00% 7,40x 21,29% 14,65% 6,45% 9,72%
PETR3 5,48 1,32 6,49% 3,24x 39,07% 21,69% 16,79% 24,17%
PETR4 4,87 1,18 7,30% 3,01x 39,07% 21,69% 16,79% 24,17%

Essa oscilação afeta diretamente o Ebitda, o lucro líquido e a capacidade de distribuição de proventos. Com a queda do barril após o pico de abril, a Terra Investimentos reduziu sua projeção de dividend yield da Petrobras de 14,2% para 12,2% em 2026 e de 15,3% para 13,2% em 2027. Mesmo com a revisão, a casa espera melhora operacional no segundo semestre, com crescimento de 12,9% no Ebitda ajustado e avanço de 21,3% no lucro líquido do terceiro trimestre.

O BTG estima um retorno total ao acionista, somando dividendos e recompras líquidas, de 7% em 2026, 10% em 2027 e 11% em 2028. A redução em relação a anos anteriores já era esperada depois de o diretor financeiro da Petrobras indicar menor espaço para pagamentos extraordinários. Com o endividamento sob controle, o principal concorrente dos dividendos passou a ser o plano de investimentos em exploração, produção e refino.

Em um cenário de petróleo mais barato, uma parcela maior do fluxo de caixa deverá financiar os projetos previstos pela companhia. Isso reduz a possibilidade de distribuições excepcionais, mas não compromete, na avaliação das casas mais otimistas, o pagamento dos dividendos ordinários. Mesmo após a revisão das projeções, a Petrobras continua entre as empresas com maior capacidade de remuneração ao acionista na Bolsa brasileira.

A Terra Investimentos mantém recomendação de compra para a estatal, com preço-alvo de R$ 44 para PETR3 e de R$ 48 para PETR4, considerando um cenário em que o Brent oscile entre US$ 70 e US$ 75 no segundo semestre. O BTG também conserva visão positiva e calcula preço-alvo de US$ 25 para os recibos PBR e PBR/A negociados em Nova York, o que representaria potencial de valorização de até 55% e 72%, respectivamente, segundo os valores utilizados no relatório.

O Santander elevou anteriormente sua recomendação de neutra para desempenho acima da média do mercado e aumentou o preço-alvo do ADR de US$ 19,80 para US$ 24. Para PETR3, o banco passou a projetar R$ 60, ante R$ 49,70. Na avaliação dos analistas, os preços elevados do petróleo mais do que compensariam a menor rentabilidade da gasolina, enquanto as subvenções governamentais ajudariam a limitar as perdas do refino, especialmente no diesel.

O Santander estima retorno de fluxo de caixa livre ao acionista de 12% e dividend yield próximo de 9,5% em 2026, além de prever a retomada dos dividendos extraordinários em 2027. As projeções, porém, dependem da evolução do petróleo, da política de preços, do cronograma de investimentos e do ambiente político nos próximos trimestres.

A Levante apresenta uma leitura mais cautelosa. Para Flavio Conde, uma solução para o conflito envolvendo o Irã poderia levar o barril para perto de US$ 60 em 2027, pressionando as ações, o lucro e a geração de caixa da Petrobras. O analista considera que o mercado oferece alternativas de dividendos menos expostas ao risco da commodity, citando Caixa Seguridade (CXSE3), Cemig (CMIG4) e Direcional (DIRR3).

A diferença entre as avaliações mostra que a tese da Petrobras permanece sustentada por fundamentos operacionais fortes, desconto em relação aos pares e capacidade de gerar caixa, mas continua altamente dependente do petróleo e das decisões do acionista controlador. Para os analistas otimistas, a companhia ainda oferece uma relação favorável entre risco e retorno. Para a visão mais conservadora, a possibilidade de normalização do barril e a existência de outras pagadoras de dividendos justificam maior cautela.

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