A B3 (B3SA3) prepara o lançamento da B3RL, uma stablecoin lastreada em real que deverá chegar ao mercado nos próximos meses como parte da estratégia da Bolsa para ampliar a infraestrutura de ativos digitais no Brasil. A iniciativa representa um novo passo no avanço da tokenização de investimentos e busca aproximar o mercado financeiro tradicional da tecnologia blockchain.
O projeto foi apresentado durante o painel “O futuro já tem preço: o mercado trilionário de ativos digitais”, realizado na Expert XP, em São Paulo. Executivos da B3, da XP Inc. e da Parfin defenderam que o avanço da regulação, aliado à evolução da infraestrutura tecnológica, cria as condições para acelerar a adoção de ativos digitais no mercado brasileiro.
Segundo Felipe Paiva, diretor de relacionamento com clientes e pessoa física da B3, o setor entrou em uma nova fase após anos de testes com tecnologia blockchain. Na avaliação do executivo, o ambiente regulatório evoluiu e permitiu que instituições financeiras passassem a enxergar os ativos tokenizados como uma alternativa viável para modernizar operações e ampliar a oferta de produtos aos investidores.
A B3RL funcionará como uma representação digital do real e permitirá liquidações praticamente instantâneas. A proposta vai além da criação de uma nova moeda digital: a stablecoin deverá servir de base para que bancos, corretoras e demais participantes do mercado desenvolvam novos serviços financeiros e produtos tokenizados.
Na prática, a tokenização consiste em transformar ativos financeiros tradicionais — como ações, debêntures, títulos públicos, fundos e recebíveis — em versões digitais registradas em blockchain. Essa tecnologia reduz etapas operacionais, diminui custos, acelera a liquidação das operações e permite fracionar investimentos, ampliando o acesso de investidores a ativos que antes exigiam aportes elevados.
Para Paiva, essa transformação tende a acontecer de forma quase imperceptível para o investidor. Assim como poucos usuários conhecem os protocolos tecnológicos por trás das transações bancárias atuais, blockchain e tokenização deverão se tornar apenas parte da infraestrutura do sistema financeiro.
A B3 também revelou que pretende iniciar, no começo de 2027, testes para a tokenização de ativos financeiros. A expectativa é que a tecnologia possibilite ampliar o horário de negociação, reduzir fricções operacionais e tornar o mercado mais eficiente, com liquidações praticamente em tempo real.
Na avaliação de Marcos Viriato, CEO da Parfin, um dos principais entraves para o crescimento desse mercado sempre foi a ausência de uma infraestrutura baseada em moedas digitais lastreadas em real. Segundo ele, a chegada da B3RL poderá acelerar significativamente o desenvolvimento da tokenização no país.
Atualmente, a tecnologia já é utilizada em operações de crédito estruturado, especialmente em ativos que servem de lastro para CRIs e CRAs. A expectativa, porém, é que esse modelo seja expandido para praticamente todas as classes de ativos financeiros, incluindo ações, ETFs, títulos públicos e fundos de investimento.
Viriato destacou ainda que o avanço definitivo dependerá da conclusão do marco regulatório brasileiro para prestadores de serviços de ativos digitais e da definição da infraestrutura de liquidação. Na avaliação do executivo, a tecnologia já demonstrou capacidade operacional e escalabilidade, faltando apenas o amadurecimento das regras para permitir sua adoção em larga escala.
Marcos Horie, head de produtos digitais da XP Inc., comparou o estágio atual da tokenização ao início da internet comercial. Segundo ele, a infraestrutura ainda está sendo construída, mas tende a desaparecer da percepção do usuário conforme as aplicações se consolidarem.
Para os participantes do painel, o verdadeiro sinal de maturidade do mercado será quando investidores utilizarem blockchain, stablecoins e ativos tokenizados sem sequer perceber que essas tecnologias estão por trás das operações. Nesse cenário, a infraestrutura digital passará apenas a tornar os investimentos mais acessíveis, eficientes e disponíveis praticamente em tempo integral.










