Pagamentos de R$ 37,8 milhões feitos por uma offshore sediada em Curaçao colocaram o advogado Nelson Wilians no centro de uma investigação da Polícia Federal sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro relacionado à exploração de apostas ilegais.
Wilians foi alvo de buscas nesta quinta-feira (13) durante a Operação Arena. Na representação que fundamentou as medidas judiciais, os investigadores apontam o advogado como possível “pessoa interposta para lavagem de dinheiro”, sob a suspeita de que teria participado de mecanismos destinados a ocultar patrimônio e movimentar recursos do grupo investigado.
A defesa rejeita qualquer envolvimento de Wilians em atividades ilícitas e afirma que sua relação com empresas e empresários investigados decorre exclusivamente da prestação de serviços jurídicos.
A Operação Arena cumpre 17 mandados de busca e apreensão distribuídos por São Paulo, Paraíba, Sergipe, Rio de Janeiro e Paraná. A Justiça também autorizou quebras de sigilos bancário e telemático e determinou o sequestro de R$ 1,1 bilhão.
A investigação alcança operadores, pessoas apontadas como laranjas e integrantes de empresas do setor de apostas. Entre os grupos citados está a Pixbet, controlada pelo empresário Ernildo Junior, conhecido como “Paraibano Junior”.
É justamente a relação de Wilians com esse grupo que aparece em uma das principais frentes da apuração.
A PF identificou 15 notas fiscais emitidas pela Pix Star Brasilian, offshore sediada em Curaçao e ligada ao grupo Pixbet, em favor do escritório Nelson Wilians Advogados. Os documentos somam R$ 37,8 milhões.
Os investigadores levantam dúvidas sobre a efetiva atividade da empresa estrangeira e a classificam, na representação apresentada à Justiça, como uma empresa fantasma. Entre os elementos considerados suspeitos estão os valores movimentados, a forma como as notas fiscais teriam sido emitidas e a ausência de detalhamento dos serviços que justificariam os pagamentos.
A apuração encontrou ainda dois comprovantes de transferências da Pix Star para o escritório de Wilians, totalizando R$ 9,8 milhões. Um pagamento de R$ 4,8 milhões teria ocorrido em 24 de julho de 2023, enquanto outro, de R$ 5 milhões, foi registrado em 18 de agosto daquele ano.
Outro elemento analisado pela Polícia Federal envolve a aquisição de um helicóptero.
Documentos localizados na nuvem de Ernildo Junior mostram um contrato de compra e venda de uma aeronave EC130T2 por US$ 5,5 milhões, assinado em 18 de agosto de 2023. Segundo a linha de investigação da PF, o helicóptero teria sido adquirido pelo empresário em benefício de Nelson Wilians.
A aeronave posteriormente foi vendida à SP Aviação Táxi Aéreo, empresa criada em 2022 com capital social de R$ 15 mil. Dez dias depois, foi cedida à Cactus Tecnologia. Para os investigadores, a sequência das operações reforça a suspeita de utilização de terceiros para ocultar os verdadeiros proprietários de bens.
Esses elementos são tratados pela PF como indícios dentro de uma investigação em andamento e não representam conclusão definitiva sobre a responsabilidade criminal dos envolvidos.
A apuração também procura identificar possíveis crimes tributários e evasão de divisas relacionados às operações das casas de apostas. A suspeita é que estruturas empresariais tenham sido utilizadas para esconder receitas e beneficiários finais e, consequentemente, reduzir ou evitar o recolhimento de tributos.
A Receita Federal, que participa da força-tarefa, afirma que os elementos reunidos apontam para atividades no setor de apostas realizadas antes da consolidação da regulamentação brasileira, acompanhadas de possíveis mecanismos de ocultação das operações e dos rendimentos obtidos.
Nelson Wilians possui relações profissionais com a Pixbet e com Ernildo Junior. Em resposta às acusações, sua defesa sustenta que a ligação do escritório com a casa de apostas é exclusivamente profissional.
Segundo os advogados, a atuação de Wilians e de seu escritório está restrita ao exercício da advocacia e não pode ser confundida com as atividades empresariais desempenhadas pelos clientes.
Nota da defesa de Nelson Willians
A relação entre o escritório e a Pixbet é estritamente profissional e decorre da prestação de serviços de advocacia. A atuação do escritório em favor de seus clientes limita-se ao exercício regular da advocacia, não se confundindo com as atividades empresariais por eles desenvolvidas. O escritório repudia qualquer tentativa de associar a atuação profissional de seus advogados às atividades ou condutas atribuídas a seus clientes. É preciso ter cautela para que o legítimo exercício da advocacia não seja indevidamente criminalizado em razão da natureza ou das atividades daqueles que o advogado representa.









