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Casas Bahia pede recuperação judicial com dívidas de R$ 17,3 bilhões

Casas Bahia acumula prejuízo, patrimônio líquido negativo e falta de capital de giro; grupo pediu recuperação judicial e busca proteção contra credores

A Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial após a deterioração de sua liquidez comprometer a capacidade de financiar estoques e sustentar a operação. O processo foi protocolado no fim da noite de domingo (16), na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, com R$ 17,3 bilhões em passivos e 19,4 mil credores quirografários, aqueles que não possuem garantias específicas para receber seus créditos.

A varejista também solicitou proteção emergencial à Justiça. Entre as medidas requeridas estão a suspensão de vencimentos antecipados de obrigações e a proibição de que transportadoras retenham mercadorias da companhia. O objetivo é preservar a operação enquanto o grupo reorganiza suas dívidas.

O pedido ocorre dois anos depois de a empresa recorrer a uma recuperação extrajudicial para reestruturar seu endividamento. Desta vez, porém, o problema central não está apenas no tamanho da dívida financeira. A Casas Bahia chegou à recuperação judicial enfrentando uma crise de capital de giro que passou a interferir diretamente na disponibilidade de produtos, nas vendas e na própria capacidade de manter o negócio funcionando normalmente.

Os sinais mais graves apareceram nas demonstrações financeiras do segundo trimestre. A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões, ante perda de R$ 555 milhões no mesmo período de 2025. Do resultado negativo, R$ 9,1 bilhões foram atribuídos a eventos considerados não recorrentes, incluindo baixas de ativos, contratos não performados, despesas de reestruturação e efeitos relacionados a imposto diferido.

No acumulado do primeiro semestre, o prejuízo chegou a R$ 11,18 bilhões. Ao fim de junho, o patrimônio líquido estava negativo em R$ 8,27 bilhões, uma reversão expressiva frente ao saldo positivo de R$ 1,5 bilhão registrado um ano antes.

Outro indicador evidencia a pressão financeira de curto prazo. O passivo circulante superava o ativo circulante em R$ 7,83 bilhões no consolidado. Na prática, a companhia terminou o período sem recursos de curto prazo suficientes para fazer frente ao conjunto de obrigações também exigíveis nesse horizonte.

A situação levou a própria Casas Bahia a reconhecer, no balanço divulgado no domingo, a existência de incerteza relevante capaz de levantar dúvida significativa sobre sua capacidade de continuar operando normalmente. A empresa já mencionava entre as alternativas possíveis uma recuperação judicial ou uma nova reestruturação extrajudicial.

A EY, responsável pela auditoria, não apresentou opinião sobre as demonstrações financeiras do trimestre. Em seu relatório, a auditoria afirmou não ter conseguido concluir sobre a utilização da base contábil de continuidade operacional em 30 de junho nem determinar eventuais efeitos ou ajustes necessários nas informações financeiras.

A crise financeira também chegou às prateleiras. Com dificuldades para obter crédito comercial, a Casas Bahia reduziu as compras e perdeu capacidade de recompor os estoques. O volume consolidado de mercadorias caiu de R$ 5,4 bilhões em março para R$ 4,2 bilhões em junho, uma redução superior a R$ 1,1 bilhão em apenas três meses.

Em número de dias, os estoques passaram de 95 para 75 no mesmo intervalo. A redução provocou indisponibilidade de produtos em determinadas categorias, lojas e canais de venda e passou a limitar a geração de receita.

A companhia tentou ampliar prazos de pagamento junto a fornecedores para preservar caixa, mas os limites de crédito comercial concedidos por fornecedores e seguradoras não acompanharam essa extensão. A restrição criou um ciclo desfavorável: menos crédito reduziu a capacidade de comprar mercadorias, estoques menores limitaram as vendas e a menor geração de recursos aumentou a pressão sobre a liquidez.

O reflexo apareceu no desempenho comercial. A receita bruta consolidada avançou apenas 1,6% entre abril e junho, para R$ 8,3 bilhões, enquanto as vendas das lojas recuaram 3,5%. O marketplace também perdeu força, com retração de 2,4%.

A Casas Bahia atribui parte da deterioração ao ambiente de consumo pressionado, aos juros elevados, ao custo de capital e à maior seletividade na concessão de crédito. A companhia também afirma ter buscado alternativas de financiamento nos mercados de dívida e de ações entre 2025 e 2026, sem conseguir concluir as operações necessárias para reforçar o caixa.

Uma tentativa de captação internacional não avançou após a desistência do investidor âncora que participava das negociações. Empréstimos-ponte e outras alternativas de liquidez estudadas pela administração também não foram concretizados.

O ambiente macroeconômico, entretanto, não explica isoladamente a dimensão da crise. A companhia acumula um histórico prolongado de resultados negativos e desgaste financeiro. Desde que deixou o controle do GPA, em 2019, registrou prejuízo em 20 de 30 trimestres e permanece com balanços trimestrais no vermelho desde 2024.

A sucessão de dificuldades também afetou a percepção de risco da empresa entre fornecedores, seguradoras e investidores. Com menor confiança na capacidade financeira da varejista, linhas comerciais foram restringidas justamente quando a companhia precisava de capital para financiar estoques e recuperar as vendas.

A comparação com concorrentes submetidos ao mesmo cenário de juros e consumo reforça o peso dos problemas específicos da Casas Bahia. Embora o varejo de bens duráveis esteja particularmente exposto ao crédito caro e ao endividamento das famílias, a companhia chegou ao atual ciclo com menor flexibilidade financeira e poucas alternativas para levantar recursos. As ações acumulam queda de 78% em 2026.

A resposta da administração inclui uma nova etapa de redução da estrutura operacional. A empresa concluiu o fechamento de 298 lojas e iniciou uma ampla adequação de custos e despesas. Cerca de 2 mil funcionários já teriam sido desligados, segundo fontes, com possibilidade de o número superar 3 mil.

O plano também prevê redução da necessidade de capital empregado, gestão mais rigorosa do capital de giro e busca por novas alternativas de liquidez e estrutura de capital. Com o pedido de recuperação judicial, essas iniciativas passam agora a ocorrer dentro de um processo destinado a reorganizar R$ 17,3 bilhões em passivos e preservar a continuidade das operações.

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