A inadimplência da carteira de agronegócios da Caixa praticamente triplicou em um ano e alcançou 20,74% em junho de 2026, ante 7,02% no mesmo período de 2025. O índice, que considera operações com atrasos superiores a 90 dias, é o mais elevado entre as principais carteiras de crédito do banco público.
A deterioração ocorreu mesmo com crescimento moderado do volume emprestado. A carteira do agro somava R$ 62,3 bilhões ao fim do primeiro semestre, alta de 3% em 12 meses, mas recuo de 4% em relação a março. Na comparação trimestral, a inadimplência avançou de 18,29% para 20,74%, movimento que a administração da Caixa já considera em processo de desaceleração.
Segundo Marcos Brasiliano Rosa, vice-presidente de Finanças e Controladoria, a curva começa a mostrar estabilidade e perda de velocidade. O banco agora vê a renegociação das operações problemáticas como uma oportunidade para recuperar parte da carteira, especialmente depois das mudanças introduzidas pela MP 1.376/2026.
A Caixa, porém, ficou fora da distribuição dos R$ 25,8 bilhões em limites equalizáveis feita pelo Tesouro Nacional para dez instituições financeiras. Esses recursos permitem oferecer condições mais favoráveis aos produtores porque a União cobre parte da diferença dos juros. Sem esse mecanismo, o banco deverá recorrer principalmente aos recursos obrigatórios provenientes do direcionamento dos depósitos à vista.
Essa alternativa ganhou espaço depois que o Conselho Monetário Nacional flexibilizou as regras e autorizou o uso desses recursos para renegociar dívidas originalmente contratadas com outras fontes, exceto operações vinculadas aos fundos constitucionais e ao Funcafé.
A administração da Caixa já identifica sinais de melhora. Adriano Matias, vice-presidente de Varejo, afirmou que abril representou o pior momento para a inadimplência rural e que a proporção de pagamentos em dia começou a se recuperar em maio, à medida que aumentou a clareza sobre as condições da MP. Segundo ele, todos os clientes elegíveis já foram procurados para renegociação, embora a operacionalização tenha começado apenas recentemente.
O tamanho da inadimplência do agro chama atenção quando comparado ao restante do balanço da Caixa, cuja carteira total alcança R$ 1,4 trilhão. No crédito imobiliário, que soma aproximadamente R$ 1 trilhão, os atrasos representam 1,45%. Na infraestrutura, são apenas 0,03% sobre R$ 110,5 bilhões, enquanto a carteira comercial registra inadimplência de 9,32% sobre R$ 270,4 bilhões.
A piora também aumentou o custo de risco para o banco. O índice de provisão da carteira de agronegócios subiu de 6,8% em junho de 2025 para 13,2% em março e chegou a 16,5% no encerramento do primeiro semestre de 2026, seguindo as regras de reconhecimento de perdas previstas pelo CMN.
Cerca de R$ 17 bilhões da carteira rural estão classificados no estágio 3, categoria que concentra ativos com deterioração relevante do risco de crédito. Desse montante, aproximadamente R$ 9 bilhões, equivalentes a 56,4%, já estão provisionados para possíveis perdas. Assim, embora a Caixa enxergue sinais de estabilização da inadimplência, a recuperação da carteira dependerá da efetividade das renegociações e da retomada da capacidade de pagamento dos produtores.









