Manter todo o patrimônio no Brasil pode representar uma concentração de risco mesmo em períodos de Selic elevada. Um estudo do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef) calcula que uma exposição mínima de 16% a ativos internacionais seria necessária para neutralizar parte do impacto do dólar sobre o consumo dos brasileiros.
A pesquisa chama atenção para a baixa internacionalização das carteiras. Apenas 6,3% do patrimônio informado pelos brasileiros no Imposto de Renda está no exterior. Considerando imóveis, fundos e outras aplicações financeiras, a parcela internacional corresponde a 2,2%. Dados do Banco Central mostram ainda que 25 mil pessoas físicas declaravam, em dezembro de 2024, ativos externos de pelo menos US$ 1 milhão.
Segundo os pesquisadores, um dos fatores que ajudam a explicar essa concentração é a percepção de que investimentos vinculados à Selic ou ao CDI combinam elevada rentabilidade e baixo risco. Embora esses produtos apresentem baixa volatilidade e alta liquidez em diferentes situações, o estudo ressalta que permanecem exposições à inflação, ao crédito, à economia brasileira e ao real.
A diferença aparece quando os retornos são ajustados pela inflação. O levantamento calcula que R$ 100 aplicados em um investimento que acompanhasse o CDI entre janeiro de 2000 e julho de 2026 teriam alcançado R$ 2.108, equivalente a um retorno nominal acumulado de 2.008%.
No mesmo período, entretanto, a inflação brasileira acumulou 382%. Descontada a perda de poder de compra, o retorno real acumulado do investimento seria de 337%, fazendo com que os R$ 100 iniciais correspondessem a R$ 437 em termos reais.
A análise em moeda forte também altera a dimensão dos resultados. Medido em dólar, o retorno acumulado do CDI no período considerado pelo estudo foi de 643%. Os pesquisadores usam essa diferença para mostrar que a rentabilidade elevada em reais não elimina a exposição à desvalorização da moeda brasileira.
William Eid, coordenador do FGVcef e um dos autores do levantamento, afirma que investidores brasileiros tendem a subestimar riscos associados à concentração doméstica. Para ele, os juros elevados pagos no país devem ser analisados também como remuneração pelos riscos existentes na economia brasileira, e não apenas como uma vantagem da renda fixa local.
A conclusão não é que investimentos atrelados ao CDI ou à Selic devam ser abandonados. O estudo considera esses instrumentos relevantes tanto para necessidades de liquidez quanto para a composição de carteiras de longo prazo. O ponto central é que, isoladamente, eles não diversificam riscos relacionados ao país e à moeda.
A FGV calcula em 16% a exposição internacional mínima para neutralizar o efeito do dólar sobre o consumo de um investidor brasileiro. Essa proporção não é apresentada como uma regra universal: segundo o levantamento, a parcela adequada pode aumentar conforme a fase de vida e as características patrimoniais de cada pessoa.
Outro resultado do estudo questiona a estratégia de esperar um câmbio considerado favorável para começar a investir no exterior. Em 80 janelas de dez anos iniciadas a partir de 2010, os aportes mensais superaram, em todos os casos analisados, a alternativa de aguardar uma queda do dólar.
Na simulação envolvendo a bolsa americana, quem realizou aportes mensais terminou com patrimônio 9,2% superior ao de quem aguardou por até 12 meses uma queda de pelo menos 15% do dólar para investir. Para os pesquisadores, o resultado reforça a importância da regularidade dos aportes diante da dificuldade de antecipar movimentos cambiais.
A conclusão da pesquisa é que diversificar não significa apenas aumentar o número de ativos dentro de uma carteira. A redução da concentração exige exposição a diferentes moedas, economias, emissores e classes de investimentos. Nesse contexto, a parcela internacional funciona como complemento aos ativos brasileiros, reduzindo a dependência do patrimônio de uma única economia e do comportamento do real.










