Criptomoedas deixaram de ocupar um espaço restrito nas plataformas dos bancos brasileiros. Itaú, Banco do Brasil, Safra e outras instituições vêm ampliando os serviços oferecidos aos clientes, enquanto fintechs como o Nubank já disponibilizam dezenas de ativos para negociação.
A expansão ocorre paralelamente à consolidação das regras para o setor. Desde 2026, o Banco Central regulamenta as prestadoras de serviços de ativos virtuais, com exigências relacionadas a capital mínimo, segregação patrimonial e supervisão. Empresas que já atuavam nesse mercado têm até novembro para se adequar às novas normas.
O movimento representa uma mudança em relação aos primeiros anos de entrada das instituições financeiras nesse segmento, quando a oferta se concentrava principalmente em bitcoin ou em fundos e ETFs ligados a criptomoedas. Hoje, algumas plataformas permitem comprar diretamente bitcoin, ether, stablecoins e outros ativos digitais.
O Itaú, por exemplo, ampliou seu portfólio em 2025 e atualmente oferece 15 criptoativos, entre eles bitcoin, ether e USDC, stablecoin que busca acompanhar o valor do dólar. Os ativos adquiridos pelos clientes ficam sob custódia da própria instituição.
O Banco do Brasil começou em janeiro a permitir a compra direta de bitcoin e ether. Segundo o banco, mais de R$ 11 milhões já foram movimentados pelo serviço. Desde 2022, seus clientes podiam obter exposição ao mercado por meio de fundos e ETFs. Bradesco e Santander também oferecem alternativas ligadas a criptoativos por meio de ETFs.
O Safra adotou outra estratégia e lançou em 2025 o Safra Dólar, stablecoin própria gerida e custodiada pelo banco. A instituição apresenta o ativo como uma alternativa para exposição ao dólar.
Entre as fintechs, o Nubank possui uma das ofertas mais amplas. Depois de adicionar quatro criptomoedas em maio de 2026, passou a disponibilizar 28 ativos para compra, venda e transferência. A plataforma de criptoativos da instituição possui mais de 7 milhões de clientes no Brasil.
A maior presença dos bancos acompanha o crescimento desse mercado no País. Dados informados à Receita Federal mostram que pessoas físicas e jurídicas movimentaram R$ 505,5 bilhões em criptoativos em 2025, alta de 22% em relação a 2024 e de 433% desde 2020. Pessoas jurídicas responderam por aproximadamente R$ 497 bilhões, ou 98,3% do total declarado.
Apesar da expansão dos serviços aos clientes, isso não significa que os bancos estejam aumentando na mesma proporção suas próprias posições em criptomoedas. Nos balancetes com data-base de março de 2026 enviados ao Banco Central, não foram identificados registros de ativos virtuais mantidos diretamente pelas instituições.
A diferença é relevante porque custodiar ou intermediar uma criptomoeda para um cliente não implica assumir diretamente seu risco de mercado. Na custódia, o ativo permanece em nome do investidor. A exposição própria ocorre quando a instituição utiliza seus recursos para adquirir o criptoativo e passa a assumir riscos como oscilações de preço e liquidez.
Para especialistas, a maior segurança regulatória ajuda a explicar o avanço das instituições tradicionais. Carlos Akira Sato, da Syscapital, avalia que regras mais claras permitem que bancos, historicamente mais conservadores na entrada em novos mercados, tenham maior segurança para desenvolver produtos.
Do ponto de vista do investidor, entretanto, a presença de grandes bancos não elimina os riscos característicos das criptomoedas. Cristiano Corrêa, professor de finanças do Ibmec, destaca que as oscilações podem ser significativamente maiores e mais rápidas do que as observadas em ativos tradicionais, como ações.
Felipe Quiodine, planejador financeiro certificado pela Planejar, considera que os criptoativos podem ser utilizados para diversificação, mas defende exposição reduzida. Como referência, cita uma parcela entre 1% e 3% do patrimônio, suficiente para participar de uma eventual valorização sem tornar uma perda severa determinante para o desempenho total da carteira.
A tendência, portanto, é de maior presença dos criptoativos nas plataformas financeiras sem que isso represente necessariamente uma aposta dos próprios bancos nessa classe. A demanda dos clientes e a regulamentação aproximaram o mercado tradicional do universo cripto, mas volatilidade e risco continuam sendo fatores centrais para quem decide investir.









