A redução da Selic para 13,75% ao ano reforçou entre especialistas a percepção de que o Banco Central entrou em uma etapa mais cautelosa do ciclo de flexibilização monetária. Embora Arton Advisors, Warren , Nomad e Oby Capital identifiquem melhora na inflação e moderação da atividade econômica, as análises apontam que expectativas ainda desancoradas e riscos externos podem limitar a velocidade e a extensão de novos cortes.
As diferenças aparecem principalmente na avaliação sobre as próximas reuniões. Raphael Vieira, head de Investimentos da Arton Advisors, considera que uma pausa passou a ser uma possibilidade, enquanto Camilo Cavalcanti, gestor de Portfólio da Oby Capital, mantém a projeção de mais um corte de 0,25 ponto percentual em novembro. Luis Felipe Vital, Cecilia Mazzoni e Felipe Figueiró, da Warren, destacam que o comunicado não antecipou os próximos movimentos e manteve uma postura conservadora.
Para Vieira, o corte de 25 pontos-base veio em linha com o esperado, mas a principal mensagem está na sinalização de que o espaço para flexibilização adicional ficou mais limitado. Na avaliação do especialista, o Copom não encerrou formalmente o ciclo, mas criou condições para interromper temporariamente as reduções enquanto observa os efeitos das decisões já tomadas.
A melhora da inflação e a desaceleração da atividade permitiram ao Banco Central reduzir os juros até o atual patamar, segundo Vieira. Por outro lado, a desancoragem das expectativas e as incertezas domésticas e internacionais continuam exigindo cautela. Para ele, novos cortes permanecem possíveis, mas dependerão de evidências adicionais de convergência da inflação e das expectativas para a meta.
Luis Felipe Vital, Cecilia Mazzoni e Felipe Figueiró, da Warren, classificaram o comunicado como conservador e observaram poucas alterações em relação ao documento anterior. Uma das principais mudanças ocorreu na avaliação da atividade econômica, que passou a registrar moderação nos setores mais cíclicos, substituindo a referência anterior a sinais mistos.
A equipe também chama atenção para três elementos que permanecem no diagnóstico do Copom: aumento da incerteza, principalmente no ambiente externo; expectativas de inflação desancoradas, embora sem piora adicional desde a reunião anterior; e riscos elevados em torno do cenário-base, com assimetria para cima.
Na avaliação dos analistas da Warren, o Banco Central continua indicando que o cenário exige uma Selic em nível restritivo e que a calibração da política monetária precisa ser compatível com a convergência da inflação para o centro da meta. O comunicado, porém, não ofereceu indicação sobre a decisão seguinte, mantendo os próximos movimentos condicionados à evolução do cenário econômico.
Camilo Cavalcanti, da Oby Capital, também identificou poucas mudanças relevantes na comunicação do Copom. Para o gestor, houve reforço da moderação da atividade e reconhecimento de melhora nas medidas subjacentes de inflação, embora elas continuem em níveis elevados. As expectativas para 2027 e para o primeiro trimestre de 2028 permanecem acima da meta, sustentando o diagnóstico de desancoragem parcial nos horizontes mais longos.
Cavalcanti observa ainda que o balanço de riscos permaneceu essencialmente inalterado e assimétrico para cima. A mensagem de que a magnitude total do ciclo dependerá dos novos dados, sem compromisso antecipado com decisões futuras, reforça, em sua avaliação, a postura de cautela do Banco Central.
Apesar dessas restrições, a Oby Capital mantém a expectativa de mais um corte de 0,25 ponto percentual em novembro, seguido de manutenção em dezembro. Nesse cenário, a Selic encerraria 2026 em 13,50% ao ano. Uma desaceleração mais intensa da atividade poderia permitir a continuidade das reduções por mais tempo.
Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, avalia que o comunicado preservou a estrutura e grande parte do diagnóstico apresentado em agosto. Segundo ele, o cenário externo continua marcado pelas incertezas relacionadas aos conflitos no Oriente Médio e à condução da política monetária nas economias avançadas. No ambiente doméstico, permanecem no radar do Copom a política fiscal e a desancoragem das expectativas de inflação para horizontes mais longos.
Para Kayo, a principal mudança está no comportamento da inflação corrente. Enquanto em agosto o índice cheio ainda se encontrava acima do limite superior da meta, os dados mais recentes mostram desaceleração tanto da inflação cheia quanto da média dos núcleos para níveis abaixo do teto do intervalo de tolerância, embora ainda superiores ao centro da meta. Na atividade econômica, ele também destaca a mudança do diagnóstico para uma moderação concentrada nos setores mais cíclicos.
O economista da Nomad chama atenção, entretanto, para a evolução das projeções do próprio Copom. As estimativas de inflação para 2026 e 2027 aumentaram na margem, apesar da melhora dos indicadores correntes, enquanto a projeção para o primeiro trimestre de 2028, horizonte relevante para a política monetária, permaneceu em 3,2%.
Na avaliação de Kayo, a combinação entre uma comunicação praticamente inalterada e projeções ligeiramente mais altas mostra que o Comitê preferiu não reagir a uma deterioração marginal do cenário e manteve o ritmo de redução dos juros. Embora o Copom não tenha sinalizado explicitamente a próxima decisão, o economista considera que permanece aberta a possibilidade de um novo corte, condicionado aos dados divulgados até a próxima reunião.
As quatro análises convergem na avaliação de que o Copom deverá preservar uma política monetária restritiva e dependente da evolução dos indicadores, mas apresentam diferenças sobre o ritmo do ciclo. A Arton considera que uma pausa já pode ocorrer, enquanto a Warren ressalta a ausência de sinalização sobre o próximo movimento. Oby e Nomad enxergam espaço para outra redução, sendo que a Oby projeta explicitamente um corte de 0,25 ponto percentual em novembro e Selic de 13,50% no fim de 2026.









