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BC vê 90% de chance de inflação superar teto da meta em 2026

BC projeta IPCA de 5,21% em dezembro e vê inflação acima do teto da meta por dois trimestres consecutivos entre 2026 e 2027

A inflação deve voltar a superar o teto da meta já em outubro e encerrar 2026 em 5,21%, segundo as novas projeções do Banco Central. Com a piora do cenário para os próximos meses, a autoridade monetária elevou de 79% para 90% a probabilidade de o IPCA ultrapassar o limite superior do intervalo de tolerância no último trimestre deste ano.

Os números constam do Relatório de Política Monetária (RPM) divulgado nesta quinta-feira (24), o primeiro após a redução da Selic para 13,75% ao ano. A meta de inflação é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que estabelece um teto de 4,5%.

A revisão ocorre mesmo depois de uma sequência de resultados de inflação abaixo do esperado. O IPCA acumulado em 12 meses recuou de 4,72% em maio para 4,22% em agosto. Entre junho e agosto, a inflação ficou 0,90 ponto percentual abaixo da estimativa feita pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em junho.

Para o Banco Central, porém, esse alívio tende a ser temporário. As projeções de curto prazo apontam o IPCA acumulado em 12 meses em 4,61% em outubro, 4,85% em novembro e 5,21% em dezembro.

No cenário de referência, a inflação acumulada em quatro trimestres fica em 4,4% no terceiro trimestre de 2026 e sobe para 5,2% no quarto. O BC projeta dois trimestres consecutivos acima do limite superior do intervalo de tolerância.

A expectativa é de uma aproximação mais consistente do centro da meta apenas no primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária. Para esse período, a projeção permanece em 3,2%, mesmo percentual apresentado no relatório anterior.

Três fatores são apontados pelo BC como responsáveis pela maior pressão inflacionária no curto prazo. O primeiro é o efeito do El Niño sobre os preços dos alimentos in natura. Também entram no cálculo a reversão, em setembro, do bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica e o aumento dos preços do petróleo.

As projeções consideram ainda a manutenção da bandeira tarifária amarela até dezembro. O próprio Banco Central reconhece que essa hipótese é mais restritiva do que a indicada atualmente pelos cenários do setor elétrico.

A probabilidade de 90% apresentada no relatório não significa, entretanto, que o regime de metas será necessariamente descumprido. Desde janeiro de 2025, vigora no país o sistema de meta contínua. Pelas regras atuais, o descumprimento ocorre quando a inflação acumulada em 12 meses permanece fora do intervalo de tolerância por seis meses consecutivos.

Para os próximos anos, o risco calculado pelo BC diminui. A probabilidade de a inflação ultrapassar o teto da meta é de 33% em 2027 e 16% em 2028. Já a possibilidade de ficar abaixo do piso de 1,5% é considerada nula em 2026 e de 4% no próximo ano.

O cenário de referência utiliza câmbio de R$ 5,15 e considera o barril de petróleo Brent em média de US$ 90 no terceiro trimestre, com alta no quarto trimestre e posterior recuo até aproximadamente US$ 84 no segundo trimestre de 2027.

Para os juros, o relatório utiliza a trajetória da pesquisa Focus, com Selic de 13,75% no fim de 2026, 12% em 2027, 10,50% em 2028 e 10% em 2029. Os percentuais permanecem acima da taxa real neutra de 5% considerada pelo Banco Central, mantendo a política monetária em campo contracionista durante o horizonte analisado.

As expectativas de inflação de prazo mais longo continuam entre as preocupações do Copom. A mediana do Focus para 2026 caiu de 5,30% para 4,90% desde o relatório anterior. Em contrapartida, a projeção para 2027 avançou de 4,10% para 4,30%, enquanto a de 2028 passou de 3,68% para 3,80%. Para 2029, permanece em 3,5%.

O Copom aponta a desancoragem das expectativas como um dos riscos de alta para a inflação.

O relatório também avaliou os efeitos do aumento do petróleo provocado pelo conflito no Oriente Médio. Até agora, o BC não identifica uma propagação inflacionária relevante para outros preços e salários da economia.

Na Pesquisa Firmus, 77% das empresas consultadas relataram aumento dos custos relacionados aos derivados de petróleo, enquanto 86% apontaram alta nas despesas com frete e logística. Apesar disso, 43% informaram ter aumentado os preços de venda, indicando que parte da pressão foi absorvida pelas margens das empresas.

Os dados sobre salários também não mostram, até o momento, uma transmissão mais intensa. A média dos reajustes nominais registrados em convenções coletivas caiu de 5,7% em fevereiro para 5,1% em agosto. O crescimento interanual do rendimento médio nominal desacelerou de 9,6% para 8%.

O Banco Central ressalta, contudo, que o risco de propagação permanece. As expectativas de inflação das empresas aumentaram em todos os horizontes entre fevereiro e agosto, enquanto a expectativa para o crescimento do custo da mão de obra passou a superar o nível observado em 2025.

No mesmo relatório, a autoridade monetária reduziu de 2% para 1,8% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026. Para 2027, a primeira estimativa apresentada pelo BC aponta expansão de 1,4%. A revisão considera a composição do crescimento no segundo trimestre e indicadores de atividade mais fracos no terceiro.

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