O Ministério Público de São Paulo investiga se uma estrutura financeira que passou pelo Banco Genial foi utilizada para ocultar a origem dos recursos e os verdadeiros interessados na compra da distribuidora de combustíveis Terrana. A apuração integra a terceira fase da Operação Carbono Oculto, batizada de Crédito Oculto e deflagrada nesta quinta-feira (24).
No centro da investigação estão Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo. O Gaeco os aponta como líderes de uma organização investigada por lavagem de dinheiro no setor de combustíveis e por conexões com pessoas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Ambos estão foragidos. As suspeitas ainda dependem de conclusão das investigações e eventual responsabilização judicial.
Segundo a tese do MP-SP, Beto Louco e Primo pretendiam adquirir a Terrana sem aparecer formalmente como compradores. Para isso, teriam recorrido a fundos de investimento, empresas e operações de crédito destinadas a criar sucessivas camadas entre a origem do dinheiro e sua aplicação na distribuidora.
Os promotores atribuem ao Banco Genial participação na estrutura financeira usada no negócio. O procedimento investigatório afirma que a instituição teria oferecido instrumentos para dar aparência de financiamento convencional aos recursos empregados na aquisição e, ao mesmo tempo, dificultar a identificação dos beneficiários finais. Trata-se da acusação apresentada pelos investigadores, contestada pelo banco, e não de uma conclusão judicial sobre a responsabilidade da instituição.
Um dos principais alvos desta fase é Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor e ex-sócio do Genial. O banco informou que ele foi destituído e deixou de integrar a instituição em maio de 2026. Os irmãos André e Bruno Tupinambá também estão entre os investigados nesta etapa.
A engenharia financeira investigada começa no Fundo Radford. De acordo com o Gaeco, sua única cotista era a Usina Itajobi, apontada na investigação como integrante da estrutura empresarial ligada a Beto Louco e Primo. O fundo esteve inicialmente sob administração da Altinvest e posteriormente passou para o Banco Genial.
O Radford aplicou recursos em Certificados de Depósito Bancário Vinculados emitidos pelo Genial. Na sequência, o banco concedeu empréstimos por meio de Cédulas de Crédito Bancário às holdings Berna e Branson, que teriam utilizado os recursos para adquirir ativos relacionados à Terrana. Para o MP, o ponto central é que o dinheiro utilizado pelo banco para financiar as holdings teria vindo do próprio fundo Radford.
O juiz Sandro Nogueira de Barros Leite, responsável por autorizar as buscas, destacou justamente o caráter circular da operação. Na interpretação apresentada na decisão, o dinheiro emprestado às holdings para a aquisição da Terrana era, em última instância, proveniente do Radford, cujo cotista era a Usina Itajobi. A estrutura é uma das razões pelas quais os investigadores suspeitam que o financiamento teria servido para distanciar formalmente os recursos de seus beneficiários.
Mais de R$ 120 milhões teriam circulado por empresas e contas intermediárias analisadas na investigação. Documentos bancários, relatórios do Coaf e mensagens encontradas em celulares estão entre os elementos utilizados pelo Gaeco para reconstruir o caminho dos recursos.
A investigação também analisa a participação de Paulo Narcélio Simões do Amaral, executivo do setor de combustíveis que teria aparecido formalmente à frente das holdings Berna e Branson. Para os investigadores, ele teria funcionado como intermediário na estrutura destinada a afastar Beto Louco e Primo da aquisição formal da distribuidora.
Outro ponto levantado pelo MP envolve controles internos do Genial. Segundo o procedimento, o sistema de compliance da instituição teria identificado informações anteriores envolvendo a Entre Investimentos e Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, que também é alvo da Crédito Oculto. Apesar do alerta mencionado pelos investigadores, as operações relacionadas ao Radford prosseguiram.
O Banco Genial afirma ter adotado providências depois de tomar conhecimento dos fatos investigados. Segundo a instituição, todas as informações que possuía sobre o Fundo Radford e as holdings Berna e Branson foram entregues ao Gaeco, e as comunicações consideradas cabíveis também foram encaminhadas ao Coaf.
A instituição declarou ainda ter instaurado procedimento interno, revisado a governança das operações de crédito, afastado Humberto Tupinambá dos processos decisórios e posteriormente destituído o executivo. Depois da primeira fase da Carbono Oculto, o Genial também renunciou à administração do Radford e afirma continuar colaborando com as autoridades.
A Operação Crédito Oculto procura agora determinar o papel individual de executivos, empresas e instituições na estrutura utilizada para financiar a aquisição da Terrana. O cumprimento das buscas e as conclusões apresentadas pelo Ministério Público nesta fase não representam condenação dos investigados nem estabelecem, por si só, responsabilidade criminal do Banco Genial.










