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Economistas preveem pausa nos cortes da Selic pelo BC

Banco Central pode interromper ciclo de cortes da Selic após turbulência pós-eleitoral. Analistas avaliam riscos fiscais e inflação para 2027

O Banco Central inicia nesta terça-feira (3) uma reunião decisiva para a trajetória dos juros no Brasil, em um cenário de deterioração das expectativas econômicas após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A combinação de desvalorização do real, aumento dos juros futuros e incertezas sobre a política fiscal levou economistas a revisar suas projeções e considerar mais provável a manutenção da Selic em 13,75% ao ano.

A decisão será anunciada nesta quarta-feira (4), quando o Comitê de Política Monetária (Copom) poderá interromper uma sequência de cinco reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual. Antes das eleições, parte expressiva do mercado esperava um novo corte, que levaria a taxa básica para 13,50% ao ano.

A mudança nas expectativas ocorreu principalmente depois da reação dos ativos brasileiros ao resultado eleitoral. A alta do dólar e dos prêmios de risco, acompanhada pelo aumento das taxas de juros negociadas no mercado futuro, passou a representar um obstáculo adicional para o controle da inflação.

O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria, considera mais provável uma postura cautelosa da autoridade monetária. Embora não descarte completamente uma redução de 0,25 ponto percentual, o economista avalia que a volatilidade recente recomenda prudência até que haja maior clareza sobre as perspectivas econômicas.

Na avaliação de Loyola, a política monetária enfrenta limitações quando medidas de expansão fiscal estimulam a demanda e dificultam o trabalho de contenção da inflação. O economista também aponta a necessidade de uma resposta estrutural para o crescimento da dívida pública, de modo a reduzir as pressões sobre os juros.

A preocupação é compartilhada por Sérgio Werlang, ex-diretor do Banco Central e professor da Fundação Getulio Vargas. Ele considera provável uma interrupção temporária dos cortes para avaliar se a desvalorização cambial e a piora das expectativas inflacionárias representam movimentos passageiros ou mudanças mais persistentes no cenário econômico.

A indefinição sobre a política fiscal do próximo mandato aparece como um dos principais fatores de risco. Investidores aguardam sinais sobre a capacidade do governo de administrar as despesas e estabilizar a dívida pública, especialmente diante de compromissos assumidos durante a campanha presidencial.

O debate também envolve divergências entre integrantes do governo e participantes do mercado financeiro. Aliados de Lula questionam a intensidade da reação dos investidores ao resultado eleitoral e defendem que eventuais medidas de ajuste preservem os programas sociais. Economistas mais preocupados com a trajetória fiscal, por outro lado, avaliam que a ausência de medidas consistentes pode manter elevados os prêmios de risco.

Além das incertezas domésticas, o Banco Central acompanha fatores externos que podem pressionar os preços, como a valorização internacional do dólar e a alta do petróleo. O encarecimento da commodity pode afetar os combustíveis e outros custos de produção, enquanto a depreciação do real aumenta os preços de produtos importados.

Uma pesquisa da Reuters, concluída na segunda-feira (2), mostrou que 33 dos 48 analistas consultados esperam a manutenção da Selic em 13,75% nesta reunião. Outros 15 projetam uma redução de 0,25 ponto percentual. O levantamento confirma a mudança de percepção em relação às semanas anteriores, quando predominavam as apostas na continuidade do ciclo de flexibilização monetária.

Apesar da revisão das expectativas, não há consenso de que os cortes tenham chegado definitivamente ao fim. Parte dos economistas considera que a desaceleração da atividade econômica e a evolução recente da inflação ainda oferecem espaço para novas reduções, desde que as condições financeiras se estabilizem.

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