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Analistas criticam plano de Lara Resende para Selic

Especialistas divergem sobre proposta de corte acelerado da Selic. Críticos alertam para fuga de capitais, enquanto integrantes do PT defendem o debate

Economistas e ex-integrantes da equipe econômica brasileira alertam que a proposta de André Lara Resende para reduzir a Selic a 7,5% em 12 meses pode provocar efeitos contrários aos pretendidos, incluindo aumento dos juros de longo prazo, desvalorização cambial e aceleração da inflação. As críticas ganharam força após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em meio às incertezas sobre a condução da política econômica no próximo mandato.

O plano, que também prevê o uso de reservas internacionais e a criação de um conselho para coordenar metas fiscais e monetárias, recebeu manifestações favoráveis de integrantes do PT. Entre os críticos, porém, predomina a avaliação de que a redução acelerada dos juros, sem medidas para estabilizar a dívida pública, poderia deteriorar as expectativas dos investidores e elevar o custo de financiamento do governo.

O pesquisador do FGV Ibre e ex-diretor do Banco Central José Júlio Senna rejeita a proposta, especialmente a criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional. Para ele, concentrar decisões fiscais e monetárias em uma mesma estrutura comprometeria a separação de responsabilidades entre o Congresso e o Banco Central.

“Não é possível concordar com coisa alguma do que Lara Resende escreveu”, afirmou Senna. Segundo o economista, a mudança retiraria atribuições das instituições responsáveis pelas políticas fiscal e monetária, além de limitar a capacidade de reação do Banco Central diante de pressões inflacionárias.

Senna considera que o simples anúncio de uma iniciativa dessa natureza poderia elevar as expectativas de inflação, produzindo efeitos sobre os próprios preços. O pesquisador também contesta a interpretação de que os juros elevados sejam o único fator responsável pelo crescimento da dívida brasileira.

Para sustentar sua avaliação, cita estudo do economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, também ligado ao FGV Ibre, segundo o qual a expansão do endividamento entre 2014 e 2025 esteve mais associada aos sucessivos déficits primários do que ao nível das taxas de juros.

A ex-secretária do Tesouro Nacional Ana Paula Vescovi concentra suas críticas na utilização das reservas internacionais para conter uma eventual desvalorização do real. Em publicação no LinkedIn, a economista afirmou que esses recursos devem funcionar como proteção contra choques externos, e não como instrumento permanente de sustentação de uma política de juros mais baixos.

“Reservas são o seguro externo do país. Transformá-las no cheque especial de uma aposta monetária é uma temeridade”, escreveu.

Vescovi reconhece que intervenções cambiais podem ser justificadas para corrigir problemas temporários de liquidez. Entretanto, alerta que pressões persistentes sobre a moeda poderiam exigir vendas recorrentes de reservas, enfraquecendo a proteção financeira do país.

A economista também lembra que, desde a adoção do câmbio flutuante em 1999, a taxa de câmbio passou a absorver choques externos, enquanto os juros ficaram responsáveis pelo controle da inflação. Segundo ela, a proposta de Lara Resende inverteria novamente essas funções. Vescovi destaca ainda que a sustentação do Plano Real dependeu de um ajuste fiscal realizado entre 1998 e 2002, período em que o país registrou superávits primários superiores a 3% do PIB.

O diretor da LCA Consultores, Bráulio Borges, aponta como principal fragilidade do plano a desconsideração de que os juros de longo prazo são determinados pelas condições de mercado. Na avaliação do economista, uma redução da Selic poderia diminuir imediatamente os gastos com títulos indexados à taxa básica, mas provocar aumento da remuneração exigida pelos investidores para financiar a dívida em outros prazos.

“A questão é que uma proposta desta, na prática, faria disparar os juros longos que afetam os demais títulos. Na prática, isso pode mais que eliminar qualquer ganho da queda artificial dos juros”, afirmou.

Borges cita como referência a experiência da Turquia, onde o governo de Recep Tayyip Erdogan promoveu cortes de juros em 2021 apesar das pressões inflacionárias. O processo foi acompanhado por forte desvalorização da lira turca e inflação próxima de 80%, seguida posteriormente por uma elevação das taxas de juros para patamares próximos de 40%.

O economista também menciona as dificuldades enfrentadas pelo Tesouro dos Estados Unidos em iniciativas destinadas a limitar a alta dos juros de longo prazo por meio de recompras de títulos públicos.

Para Borges, a discussão não deve ser apresentada como um confronto entre economistas desenvolvimentistas e defensores do ajuste fiscal. Ele argumenta que a necessidade de estabilizar a dívida pública não exige necessariamente cortes abruptos de despesas, mas medidas compatíveis com a interrupção do crescimento do endividamento.

“E é preciso, sim, algum ajuste. E não precisa ser um tesouraço à la Milei, apenas algo compatível com um endividamento que pare de crescer”, declarou.

O diretor da LCA reconhece que as explicações tradicionais não esclarecem completamente por que o Brasil apresenta juros reais tão elevados. Segundo ele, existe um prêmio adicional exigido pelos investidores que ainda não foi inteiramente explicado pelos estudos econômicos. Isso, entretanto, não justificaria uma redução das taxas por decisão administrativa, sem enfrentar os fatores que sustentam esse prêmio.

O ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto do Banco Central Sérgio Goldenstein, atualmente sócio-fundador da Eytse Estratégia, também identifica riscos para o financiamento da dívida pública.

Goldenstein reconhece que a redução da Selic produziria economia imediata sobre as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), que representam parcela expressiva da dívida federal. Entretanto, considera que juros reais muito baixos poderiam reduzir o interesse dos investidores nesses papéis.

Em exemplo divulgado nas redes sociais, o economista calcula que uma Selic de 7,5%, combinada com inflação esperada de 6%, resultaria em rendimento real próximo de 1,4% ao ano. O retorno ficaria abaixo dos aproximadamente 2,3% oferecidos por títulos americanos de cinco anos indexados à inflação.

Segundo Goldenstein, a menor atratividade dos títulos brasileiros poderia levar investidores a exigir descontos maiores nas negociações, provocando perdas de marcação a mercado, resgates em fundos de renda fixa e novas vendas de papéis no mercado secundário.

Esse movimento poderia desencadear uma sequência de pressões sobre os preços dos títulos. Para o Tesouro, os descontos exigidos nas novas emissões acabariam compensando parte da economia inicialmente obtida com a redução da Selic.

Entre os economistas que manifestaram apoio à discussão está José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula. Em artigo, ele elogiou a proposta de Lara Resende e afirmou que a situação fiscal brasileira é menos grave do que sustentam os defensores de um ajuste concentrado na estabilização da dívida pública.

Gabrielli reconhece a necessidade de reduzir os déficits, mas discorda da avaliação de que o quadro fiscal exige necessariamente a estratégia defendida pelos críticos do plano.

A deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) também demonstrou apoio ao debate ao compartilhar parte do texto de Lara Resende nas redes sociais e classificá-lo como fundamental.

A repercussão levou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a esclarecer que o governo não avalia medidas como tabelamento dos juros ou utilização das reservas internacionais. O ministro também negou que estivesse prevista uma reunião entre Lara Resende e Lula nesta semana.

As avaliações evidenciam divergências sobre a origem dos juros elevados no Brasil e os instrumentos adequados para reduzir o custo da dívida pública. Enquanto os críticos defendem que a queda sustentável das taxas depende da estabilidade fiscal e da confiança dos investidores, os apoiadores da proposta consideram necessário discutir alternativas à atual condução da política monetária.

 

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