A partir de 15 de abril, o fluxo de investidores estrangeiros na B3 mudou de direção de forma abrupta — e o Ibovespa sentiu. É o que aponta Mônica Araújo, Economista-Chefe da InvestSmart XP, que detalha a magnitude do movimento e os vetores que fundamentam a reversão do capital internacional no mercado brasileiro.
O pico de aporte líquido dos investidores estrangeiros foi atingido em meados de abril, quando o saldo acumulado chegou a R$ 67,7 bilhões — volume expressivamente superior ao total de R$ 25 bilhões líquidos registrado em todo o ano de 2025. Desde então, o fluxo inverteu. Considerando o saldo líquido acumulado até 19 de maio, de R$ 45,1 bilhões, a retirada desde o pico soma R$ 22,6 bilhões — uma queda de 33% em pouco mais de um mês. Dado o peso do investidor estrangeiro no volume médio diário da B3, o posicionamento desse grupo define, em grande medida, a trajetória do Ibovespa.
A performance do índice no período ilustra com precisão o humor dos estrangeiros com o Brasil. Em dólar, o Ibovespa chegou a acumular alta de 35% no ano em meados de abril — exatamente quando os investidores estrangeiros atingiram o pico de saldo acumulado. Do nível máximo até os dados mais recentes, o índice acumula queda de quase 11% em dólar, movimento que foi parcialmente suavizado pelo desempenho positivo das ações da Petrobras no período. O mesmo padrão foi observado em outras bolsas de países emergentes, sinalizando que o movimento tem natureza global, não apenas local.
Para Araújo, a mudança de visão dos estrangeiros sobre a exposição ao Brasil tem justificativas múltiplas e complementares. O primeiro vetor é a rotação de fluxo global para a tese de tecnologia americana. O início da divulgação dos resultados trimestrais das empresas dos Estados Unidos ocorreu em meados de abril, e a surpresa positiva do desempenho financeiro do S&P consolidou uma visão otimista para o mercado corporativo americano — especialmente para as empresas de tecnologia —, atraindo capital que antes estava alocado em emergentes.
O segundo vetor é o alongamento do conflito no Oriente Médio, que tem provocado uma revisão global das expectativas de inflação de médio prazo e levado os principais bancos centrais a adotarem postura mais conservadora e precavida. O Banco Central do Brasil não escapa dessa tendência: com a Selic em 14,5% ao ano e a expectativa crescente para o IPCA à frente, o espaço para cortes de juros parece mais restrito, o que impacta o valor justo das empresas brasileiras e reduz a perspectiva de crescimento mais expressivo dos resultados no médio prazo.
Um terceiro fator, de natureza mais local, é a proximidade das eleições gerais. A tradicional volatilidade associada ao ciclo eleitoral brasileiro, somada à forte polarização política, adiciona uma camada de incerteza que pesa sobre a decisão de alocação dos investidores internacionais. Na dúvida sobre os desdobramentos do conflito e seus impactos, os investidores globais tendem a se retrair, realizar operações com lucro elevado e priorizar a redução de risco e o aumento de liquidez.
Apesar do cenário adverso no curto prazo, Araújo mantém uma leitura construtiva para o horizonte mais longo. A percepção dos investidores estrangeiros sobre o potencial do Brasil e de suas empresas continua positiva — o que sugere que, na medida em que o cenário internacional reduza a imprevisibilidade e os riscos, o capital de longo prazo tende a retornar.









