A Polícia Federal afirma ter encontrado no celular do banqueiro Daniel Vorcaro mensagens que indicariam atuação direta dele na produção de documentos considerados fraudulentos para operações envolvendo o Banco Regional de Brasília.
Segundo relatório da investigação, Vorcaro utilizava um grupo de WhatsApp chamado “INFO – BRB” para orientar subordinados do Banco Master sobre ajustes em extratos, contratos e documentos relacionados à venda de carteiras de crédito ao banco estatal.
A PF investiga suspeitas de fraudes envolvendo pelo menos R$ 12,2 bilhões em operações entre o BRB e o conglomerado Master, além de possíveis pagamentos de propina ao ex-presidente do banco público, Paulo Henrique Costa, suspeito de favorecer interesses de Vorcaro nas negociações.
De acordo com os investigadores, as mensagens reforçam a suspeita de que parte das carteiras de crédito negociadas com o BRB seria fictícia ou teria documentação fabricada posteriormente para dar aparência de legalidade às operações.
O grupo de WhatsApp reunia Vorcaro, Alberto Félix, então superintendente de tesouraria do Master, e Ângelo Silva, diretor financeiro à época.
Em um dos diálogos citados pela PF, de 23 de junho de 2025, Vorcaro cobra dos subordinados o envio de um extrato bancário relacionado às carteiras de crédito consignado originadas pela empresa Tirreno, apontada pelos investigadores como possível empresa de fachada.
Às 18h56, o banqueiro escreveu no grupo: “Cadê o extrato”.
Após receber o documento, Vorcaro reclamou dos valores apresentados.
“Pessoal. Saldo não pode ser 6.400!!! Era 7.200. Valor da recompra”, afirmou, em referência a bilhões de reais.
Segundo a PF, Alberto Félix respondeu que o documento ainda contabilizava alguns débitos, mas Vorcaro rebateu: “Não interessa. Não fecha a conta. Vamos ter que colocar remuneração”.
Os investigadores afirmam que o diálogo sugere tentativa de manipulação do extrato bancário.
“O primeiro aspecto a ser destacado aqui é a manipulação do valor final do extrato relativo ao pagamento da Tirreno pelo pagamento dos créditos originados e posteriormente cedidos ao BRB”, escreveu a PF no relatório.
A investigação aponta ainda que o valor final apresentado ao Banco Central do Brasil não correspondia nem aos R$ 6,4 bilhões nem aos R$ 7,2 bilhões mencionados nas conversas, mas sim a R$ 6,6 bilhões.
A PF também afirma que o Banco Central já havia identificado inconsistências nessa documentação meses antes, especialmente pela ausência de rendimentos financeiros nas contas utilizadas para lastrear as carteiras.
Outro trecho das conversas analisadas pela PF envolve cobranças feitas pelo próprio BRB sobre pendências documentais nas operações.
Em mensagens de 13 de maio de 2025, Vorcaro encaminhou aos subordinados uma lista de inconsistências apontadas pelo banco estatal, incluindo ausência de reconhecimento de firma em contratos, falta de envio de documentos e ausência de comprovantes de averbação das operações.
Segundo a investigação, Alberto Félix respondeu que providenciaria reconhecimento em cartório dos contratos e admitiu dificuldades para apresentar os comprovantes de averbação exigidos.
Em outra conversa, de 23 de maio de 2025, Vorcaro voltou a cobrar rapidez dos subordinados na produção da documentação.
“Você consegue mobilizar todos aí pra responderem esses pontos (do) brb?”, escreveu.
Quando informado de que contratos ainda estavam sendo emitidos, Vorcaro sugeriu um esforço concentrado durante o fim de semana.
“Não dá pra fazer um mutirão de emissão no fds?”, perguntou.
Para a PF, as mensagens indicam que parte dos contratos ainda estava sendo produzida meses após as operações já terem sido formalizadas junto ao BRB.
“Note-se que a revisão dos contratos por Alberto está ocorrendo apenas em maio de 2025 quando, ao menos em tese, os contratos já deveriam estar assinados, uma vez que os negócios datam de janeiro de 2025”, afirma o relatório policial.
A defesa de Daniel Vorcaro, que negocia acordo de delação premiada, não comentou o conteúdo das mensagens até o momento.
O BRB também não se manifestou sobre o relatório da Polícia Federal.










