Pela primeira vez desde o início da série histórica, em 2020, os Juros sobre Capital Próprio (JCP) superaram os dividendos como principal forma de remuneração aos acionistas das empresas listadas na B3. Levantamento da fintech Meu Dividendo mostra que os JCP responderam por 54,3% dos R$ 126,7 bilhões distribuídos em proventos no primeiro semestre de 2026, marcando uma mudança importante no perfil de distribuição das companhias abertas brasileiras.
Embora o volume total de proventos tenha alcançado R$ 126,7 bilhões entre janeiro e junho, o montante representa uma queda de 28% em relação ao mesmo período de 2025 e é o menor registrado desde 2021. Ainda assim, a fintech ressalta que esse recuo precisa ser analisado com cautela, já que o primeiro semestre do ano passado foi fortemente influenciado por distribuições extraordinárias realizadas antes da entrada em vigor da tributação sobre dividendos.
A mudança ocorreu no primeiro ano de vigência da legislação que passou a cobrar Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) de 10% sobre dividendos superiores a R$ 50 mil mensais recebidos por uma mesma pessoa física de uma mesma fonte pagadora. Até então, os dividendos eram integralmente isentos para o investidor.
Na prática, diversas companhias anteciparam parte da distribuição de lucros ainda em 2025 para evitar que esses pagamentos fossem tributados em 2026. Esse movimento elevou de forma excepcional os proventos distribuídos no ano passado e tornou a comparação estatística deste ano naturalmente mais desfavorável.
Enquanto os dividendos perderam parte da atratividade do ponto de vista tributário, os Juros sobre Capital Próprio ganharam ainda mais relevância. Apesar de também sofrerem tributação para o investidor, os JCP continuam oferecendo uma vantagem importante às empresas: os valores distribuídos podem ser deduzidos da base de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), dentro dos limites previstos na legislação.
Esse benefício fiscal explica parte da mudança observada em 2026. No primeiro semestre, os pagamentos via JCP somaram R$ 68,9 bilhões, enquanto os dividendos totalizaram R$ 57 bilhões. A evolução é significativa quando comparada aos últimos anos. Em 2022, por exemplo, os Juros sobre Capital Próprio representavam apenas 24,8% do total distribuído pelas empresas brasileiras.
Segundo a Meu Dividendo, o crescimento contínuo dessa modalidade reforça a importância de acompanhar as discussões legislativas em andamento no Congresso Nacional. A fintech lembra que existem propostas que podem alterar ou limitar a utilização dos JCP nos próximos anos, o que poderá modificar novamente a estratégia de remuneração das companhias abertas.
Apesar da queda em relação ao recorde histórico de aproximadamente R$ 176 bilhões distribuídos no primeiro semestre de 2025, a fintech avalia que o mercado brasileiro consolidou um novo patamar de distribuição de proventos.
De acordo com o estudo, mesmo os R$ 126,7 bilhões pagos neste ano permanecem acima de todos os primeiros semestres registrados antes de 2024, indicando que as empresas brasileiras continuam apresentando elevada capacidade de remuneração aos acionistas.
Entre as companhias que mais distribuíram recursos em valores absolutos, a Petrobras liderou o ranking ao pagar R$ 34,1 bilhões aos investidores durante o semestre. Na sequência aparece a Vale, com R$ 32,5 bilhões, seguida pelo Itaú Unibanco, que distribuiu R$ 8,5 bilhões após intensificar os pagamentos no mês de junho.
Quando o critério passa a ser a remuneração por ação, a liderança muda de mãos. A Vale foi a empresa que mais pagou proventos por papel no semestre, distribuindo R$ 7,16 por ação, praticamente três vezes acima dos R$ 2,66 pagos no mesmo período do ano passado.
| Empresa | Ticker | Dividendos estimados 2025 (R$ bi) | Dividendos estimados 2026 (R$ bi) | Variação | 2025 (R$/ação) | 2026 (R$/ação) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Vale | VALE3 | 12,10 | 32,50 | +169,1% | 2,66 | 7,16 |
| Petrobras | PETR4 | 35,70 | 34,10 | -4,5% | 2,08 | 2,70 |
| Itaú Unibanco | ITUB4 | 4,60 | 8,50 | +83,7% | — | — |
| BB Seguridade | BBSE3 | 28,00 | 5,20 | -81,4% | 2,31 | 2,61 |
| Santander Brasil | SANB11 | 3,00 | 4,60 | +53,7% | 0,80 | 1,24 |
| Bradesco | BBDC4 | 4,90 | 2,80 | -42,6% | — | — |
| BTG Pactual | BPAC11 | 1,50 | 2,50 | +67,6% | — | — |
| Caixa Seguridade | CXSE3 | 1,90 | 2,00 | +7,9% | — | — |
| Telefônica Brasil | VIVT3 | 3,40 | 1,50 | -54,7% | 2,07 | 0,93 |
| Suzano | SUZB3 | 2,60 | 1,50 | -40,2% | 2,02 | 1,12 |
| B3 | B3SA3 | 0,60 | 1,30 | +115,8% | — | — |
| TIM | TIMS3 | 2,70 | 1,30 | -51,9% | — | — |
Fonte: Estimativas de mercado.
Esse desempenho reflete a combinação entre recuperação dos preços internacionais do minério de ferro, forte desempenho operacional da mineradora e uma política consistente de retorno de capital aos acionistas.
O levantamento também mostra mudanças relevantes entre os setores da economia. Pela primeira vez desde o início da série histórica, o segmento de materiais básicos assumiu a liderança na distribuição de proventos, impulsionado principalmente pelos pagamentos realizados pela Vale. Ao todo, o setor distribuiu R$ 36 bilhões entre janeiro e junho.
Na sequência aparecem petróleo, gás e biocombustíveis, com R$ 35,4 bilhões distribuídos, enquanto o setor financeiro ocupou a terceira posição, com R$ 22,4 bilhões em pagamentos aos acionistas.
Outra mudança observada pela fintech foi o surgimento de novas empresas entre as maiores distribuidoras de proventos por ação. Smart Fit e Aliansce Sonae passaram a integrar, pela primeira vez, o grupo das 12 companhias que mais remuneraram seus acionistas nesse critério.
O movimento demonstra uma evolução do mercado brasileiro, com empresas tradicionalmente associadas ao crescimento passando também a combinar expansão dos negócios com políticas mais consistentes de distribuição de resultados aos investidores.










