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Economistas veem espaço para o Copom seguir cortando a Selic em agosto

Com deflação em alimentação, queda nos combustíveis e núcleos recuando, o IPCA-15 de julho trouxe surpresas positivas

O IPCA-15 de julho registrou alta de 0,06%, resultado expressivamente abaixo da projeção de 0,19% e inferior também ao dado de junho, quando o índice fechou em 0,41%. Com o resultado, a inflação acumulada em 12 meses ficou em 4,52% — ainda acima do teto da meta do Regime de Metas para Inflação, embora o dado de julho não seja utilizado diretamente para fins de medição de descumprimento da meta. Para Sara Paixão, Analista de Macroeconomia da InvestSmart XP, e Matheus Pizzani, economista do PicPay, o dado foi benigno tanto no número quanto na composição — e reforça o espaço para que o Banco Central dê continuidade ao ciclo de cortes na reunião de agosto.

O principal destaque baixista veio do grupo de alimentação, que apresentou dinâmicas distintas nas duas análises mas convergentes no resultado. Sara Paixão destaca a deflação de 0,54% no grupo de alimentação e bebidas após meses de altas consecutivas, com contribuição de café moído, frutas e carnes. Pizzani aprofunda a decomposição: a alimentação no domicílio registrou deflação de 1,14%, com retração em itens historicamente mais rígidos — como o grupo de proteínas — e em componentes de maior volatilidade, caso das frutas (-1,55%) e, especialmente, dos tubérculos, raízes e legumes (-9,51%), que explicam em grande medida o resultado ainda mais positivo do grupo em relação ao mês anterior. O economista do PicPay aponta que, a julgar o comportamento dos indicadores antecedentes e dos preços no atacado, a perspectiva é de que esse movimento se acelere no IPCA cheio de julho, com alimentação puxando o headline para baixo.

No grupo de transportes, Pizzani destaca uma combinação favorável: embora a passagem aérea tenha subido 11,70%, os combustíveis registraram nova deflação, desta vez de 0,90%, reflexo da manutenção das medidas de subvenção e, principalmente, do fator sazonal relacionado à colheita da cana-de-açúcar e à maior oferta de etanol. Para o economista, esse é um ponto central do dado: as subvenções, potencializadas pela sazonalidade do etanol, afastaram momentaneamente a possibilidade de novos choques de oferta nos combustíveis — fator fundamental para garantir que a deflação sazonal da alimentação se propagasse até os preços finais.

Do lado das pressões, habitação permaneceu como o grupo de maior impacto positivo no índice, avançando 0,97% no mês, reflexo da vigência da bandeira tarifária amarela e de reajustes de energia elétrica em diversas regiões do país, conforme aponta Paixão.

A abertura dos núcleos também agradou. A analista da InvestSmart XP destaca que o núcleo registrou alta de 0,21%, abaixo da expectativa de 0,25%, e que os serviços avançaram 0,48%, contra consenso de 0,68%. O índice de difusão recuou de 60% em junho para 48% em julho, indicando menor amplitude da inflação. Pizzani complementa: a média dos núcleos recuou de 0,34% para 0,21%, com os bens industriais passando de 0,27% para deflação de 0,01%, enquanto os serviços registraram alta de apenas 0,01 ponto percentual entre junho e julho, ficando em 0,41%. O economista do PicPay chama atenção ainda para o fato de que a coleta do IPCA-15 foi feita entre a segunda quinzena de junho — período de maior pressão sobre serviços — e a primeira de julho, o que pode trazer surpresas positivas adicionais na mudança de base para o indicador cheio do mês.

Para Pizzani, a análise pontual do arrefecimento combinado de bens industriais e serviços — excluída a volatilidade das passagens aéreas — sugere que o processo de desaceleração econômica em curso já afeta a inflação na ponta. O economista pondera que esse movimento tende a ser desigual entre os dois grupos: a trajetória dos bens industriais deve ser mais célere, enquanto os serviços têm mais fatores de dinamização, como mercado de trabalho aquecido, política fiscal e componente inercial. Riscos também não podem ser descartados para nenhum dos dois grupos: os industriais ainda dependem da evolução do petróleo e dos fretes marítimos, enquanto os serviços podem sofrer repique por novos estímulos econômicos ou pela contaminação inercial dos primeiros meses do ano.

Apesar do resultado favorável, Paixão mantém pontos de atenção relevantes: a inflação de serviços acumula 5,95% em 12 meses; os preços do petróleo permanecem voláteis; e o Boletim Focus registrou nova elevação nas projeções de inflação para 2027 e 2028. Para a analista, o mercado segue precificando corte de 25 pontos-base na reunião de agosto, com a Selic encerrando o ano em 14%. Pizzani converge para a perspectiva de continuidade do ciclo, mas projeta Selic terminal em 13,50% em 2026, avaliando que o quadro atual — ainda frágil, mas com trajetória descendente dos núcleos e perspectiva de IPCA mais estável até pelo menos o último bimestre — oferece margem para o Copom seguir calibrando a política monetária, desde que os riscos associados ao El Niño no final do ano não se materializem de forma mais intensa.

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