O Brasil voltou a registrar um dos maiores déficits nominais entre as principais economias do mundo, refletindo o peso crescente dos juros da dívida pública e a deterioração das contas fiscais. Nos 12 meses encerrados em junho, o rombo nominal atingiu R$ 1,317 trilhão, equivalente a 9,99% do Produto Interno Bruto (PIB), ficando muito próximo da marca de dois dígitos.
O resultado considera tanto o déficit primário — que exclui as despesas financeiras — quanto os gastos com juros da dívida pública. A única razão para que o indicador não tenha ultrapassado 10% do PIB foi o ganho de R$ 75,5 bilhões obtido pelo Banco Central com operações de swaps cambiais, impulsionado pela valorização do real no período. Sem esse efeito extraordinário, o déficit nominal teria alcançado aproximadamente 10,55% do PIB, segundo cálculos do economista-chefe da Tullett Prebon, Fernando Montero.
O número evidencia o crescente desafio fiscal enfrentado pelo país. De acordo com as projeções do mercado reunidas no Boletim Focus, o déficit nominal deverá permanecer elevado em 2026, encerrando o ano em torno de 8,7% do PIB. Trata-se de um patamar superior ao esperado para dezenas de outras economias acompanhadas pela Economist Intelligence Unit (EIU) e também acima da média de 6% do PIB projetada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para os países emergentes.
Grande parte desse desequilíbrio decorre do custo da dívida pública. Nos últimos 12 meses até junho, as despesas com juros somaram R$ 1,160 trilhão, o equivalente a 8,8% do PIB. Desse total, cerca de R$ 864 bilhões estiveram diretamente ligados à taxa Selic, atualmente em 14,25% ao ano, um dos maiores níveis de juros reais do mundo.
O cenário também se reflete na trajetória da dívida pública. A dívida bruta do governo geral chegou a R$ 10,8 trilhões em junho, correspondendo a 81,9% do PIB, maior percentual desde abril de 2021. Em comparação com o fim de 2022, o endividamento aumentou mais de dez pontos percentuais do PIB, reforçando as preocupações sobre sua sustentabilidade.
Para especialistas, a combinação de juros elevados e déficit primário persistente mantém a dívida em trajetória ascendente. O principal fator apontado é a dificuldade de o atual arcabouço fiscal gerar uma perspectiva clara de estabilização do endividamento, diante do crescimento contínuo das despesas obrigatórias e das exceções incorporadas às regras fiscais.
Embora parte dos economistas espere uma melhora do resultado primário no segundo semestre, esse movimento tende a ser insuficiente para alterar significativamente o quadro fiscal. A antecipação de despesas, como o pagamento de precatórios e a concentração de gastos discricionários na primeira metade do ano, deve favorecer uma redução do déficit primário ao longo dos próximos meses, mas o impacto sobre o resultado nominal continuará limitado pelo elevado custo dos juros.
Na avaliação de analistas, um ajuste estrutural das contas públicas será indispensável para interromper o avanço da dívida. Entre as medidas frequentemente citadas estão mudanças nas regras de crescimento das despesas obrigatórias, revisão de vinculações orçamentárias e redução de benefícios tributários. O objetivo seria elevar gradualmente o resultado primário, diminuir a percepção de risco fiscal e abrir espaço para uma queda sustentável da taxa Selic.
Esse processo teria efeito duplo sobre as contas públicas: além de melhorar o resultado primário, reduziria as despesas financeiras do governo, principal componente do déficit nominal atualmente. Sem uma consolidação fiscal mais robusta, a expectativa predominante entre economistas é de que tanto o déficit quanto a dívida pública permaneçam em níveis elevados nos próximos anos.









