Um grupo de 35 empresas criadas a partir de 2021 recebeu cerca de R$ 870 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025 em pagamentos declarados à Receita Federal como remuneração por serviços prestados. O levantamento considera 117 companhias que receberam ao menos R$ 5 milhões da instituição e mostra que quase 30% delas começaram a operar depois que o antigo Banco Máxima passou a usar a marca Master.
Os dados constam de documentos do Fisco encaminhados à CPI do Crime Organizado. Em pelo menos uma dúzia dos casos, os repasses começaram poucos meses após a constituição das empresas, circunstância que passou a integrar o escrutínio sobre a rede de prestadores de serviços vinculada ao banco.
A existência de empresas recentes entre os fornecedores não permite concluir, isoladamente, que tenham sido criadas para receber recursos da instituição ou que os pagamentos sejam irregulares. Alguns casos, porém, reúnem características que despertaram atenção de investigadores e especialistas, como capital social reduzido, dados cadastrais inconsistentes, endereços incompatíveis com o porte financeiro declarado ou vínculos com pessoas investigadas em outras operações.
Um dos maiores volumes identificados envolve três companhias que têm Fabia Franca como diretora. A Telure, aberta em 2023, recebeu mais de R$ 110 milhões do Master. A Nanook, criada dois meses antes, recebeu outros R$ 93 milhões, enquanto a Utter, constituída em 2022, somou aproximadamente R$ 48 milhões. Os pagamentos às três empresas ultrapassam R$ 250 milhões.
Empresas abertas a partir de 2021 e que estão na lista dos maiores pagamentos recebidos do Master
| Empresa | Valor recebido (R$ milhões) | Data de abertura | Observações |
|---|---|---|---|
| Telure Participações SA | 110,8 | 22/08/2023 | Diretora, Fabia Franca, recebeu auxílio emergencial na pandemia. Cadastro da firma tem telefone 1111-1111 e e-mail [email protected]. |
| Metanoein Participações e Consultoria | 102,2 | 12/05/2021 | Firma da empresária Rose Evelyn Coité apontada como dona de postos de gasolina operados por laranjas em investigação sobre organização criminosa e lavagem de dinheiro. |
| Nanook Participações SA | 92,8 | 06/06/2023 | Também tem como diretora Fabia Franca, que recebeu auxílio emergencial. Cadastro da firma tem telefone 1111-1111 e e-mail [email protected]. |
| Copenhagen e Assessoria e Consultoria SA | 57,9 | 01/11/2024 | Ex-diretor da firma, Artur Martins de Figueiredo, ligado a gestoras Trustee DTVM e Banvox, foi citado em investigação sobre infiltração do PCC nos setores financeiro e de combustíveis. |
| Monteiro Rusu Cameirao e Bercht Sociedade de Advogados | 50,7 | 06/12/2022 | Aberto em Salvador, escritório tem como sócio-administrador Daniel Lopes Monteiro, apontado pelas investigações como arquiteto jurídico do Master. Outro escritório dele já tinha unidade em São Paulo, aberta em 2016, que recebeu mais R$ 28,4 milhões. |
| Utter Participações SA | 48,3 | 14/07/2022 | Também tem como diretora Fabia Franca, que recebeu auxílio emergencial. Cadastro da firma tem telefone 1111-1111 e e-mail [email protected]. |
| Eclipse Works Tecnologia Ltda | 47,5 | 10/04/2023 | Empresa de Lucas Xavier Ribeiro de Souza registrada em residência em Contagem (MG). Dados do CNPJ coincidem com LX Consultoria, que tem como sócia uma beneficiária de auxílio emergencial na pandemia. |
| Nova Promotora Ltda | 26,9 | 19/02/2021 | Correspondente bancário registrada em Almenara (MG). Dez empresas no município receberam, juntas, mais de R$ 120 milhões do Master. |
| Odda Tecnologia e Soluções Ltda | 24,8 | 07/03/2022 | Uma das sócias é a Lydda Empreendimentos, que tem Davi Lopes Monteiro como administrador. Ele é irmão de Daniel Monteiro, apontado pelas investigações como arquiteto jurídico do Master. |
| Única Promotora Ltda | 24,8 | 10/03/2021 | Empresa localizada em Divisópolis, município de 10 mil habitantes em MG. Sócio Bruno Giovani Silveira Iacomini e administradora Karla Josiane Teodoro gerem outros negócios em Almenara, onde há mais firmas que receberam dinheiro do Master. |
| Jorge Warde Advogados | 23,3 | 28/01/2022 | O sócio Walfrido Warde deixou a defesa de Vorcaro em janeiro em meio às discussões sobre delação do ex-banqueiro. Além da unidade em Brasília, ele tem escritório em São Paulo, aberto em 1998, que recebeu mais R$ 53,4 milhões. |
| Massa Intermediação e Assessoria Empresarial Ltda | 20,2 | 09/06/2021 | Firma do apresentador Ratinho, que foi garoto-propaganda do cartão de consignado do banco, o Credcesta, e é pai do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD). |
| AB Serviços de Corretagem Financeira Ltda | 19,7 | 06/05/2021 | Tem como sócio Bruno Martinez Carneiro Ribeiro Neves, superintendente do Ibama na Bahia. |
| EQI Partners Consultores Empresariais Ltda | 17,7 | 28/06/2022 | Empresa faz parte da EQI (Eu Quero Investir), marca que nasceu como agente autônomo de investimentos em 2008. CNPJ que recebeu os recursos do Master atua com consultoria como atividade principal. |
| Marcus Vinicius Furtado Coêlho Advocacia | 17,5 | 21/01/2025 | Além do novo escritório em Belo Horizonte, o sócio, que foi presidente nacional da OAB, tem outro em Brasília, aberto em 2012, que recebeu mais R$ 10 milhões. |
| BN Financeira Ltda | 14,2 | 08/07/2021 | Sócia-administradora é Bonnie Bonilha, mulher do enteado do senador Jaques Wagner (PT-BA). |
| Pollaris Consultoria Ltda | 14,0 | 30/04/2024 | Empresa de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda em gestões do PT. |
*Levantamento analisou 117 empresas que receberam valores entre R$ 220 milhões e R$ 5 milhões.
Fonte: Folha. Valores declarados pelo Master à Receita Federal em transações classificadas como pagamentos por serviços prestados ao banco entre 2022 e 2025.
Os cadastros dessas companhias apresentam informações consideradas incomuns, como números de telefone inválidos. Fabia Franca também aparece como beneficiária de aproximadamente R$ 5 mil em auxílio emergencial durante a pandemia, dado que passou a ser confrontado com o volume financeiro movimentado posteriormente pelas empresas sob sua administração.
Outro caso envolve a Metanoein, fundada em 2021 e que recebeu R$ 102 milhões do banco. A companhia entrou no radar de uma investigação sobre suposto esquema de lavagem de dinheiro e organização criminosa e foi alcançada por medidas judiciais que restringiram a movimentação de valores relacionados à empresa.
Também aparece entre as companhias recentes a Copenhagen, criada com capital social de apenas R$ 40 e que recebeu R$ 58 milhões do Banco Master. Seu ex-diretor Artur Figueiredo foi posteriormente citado na Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia Federal. Ele afirma que sua atuação empresarial foi lícita e rejeita qualquer associação com organizações criminosas.
A Eclipse, aberta em 2023, recebeu R$ 47 milhões e chamou atenção por estar registrada em um imóvel residencial em Contagem, Minas Gerais. A empresa afirma que prestou serviços de infraestrutura de tecnologia com mais de cem profissionais e que sua estrutura operacional sempre funcionou de forma remota, utilizando o endereço apenas para fins cadastrais.
Entre os recebedores também aparecem empresas ligadas a nomes conhecidos da política, da mídia e do setor jurídico. A Massa Intermediação, do apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, recebeu R$ 20 milhões. Segundo a empresa, os valores decorrem de contratos privados. Ratinho também atuou como garoto-propaganda de produto consignado do banco.
A BN Financeira, ligada a Bonnie Bonilha, mulher do enteado do senador Jaques Wagner, integra o grupo de empresas abertas em 2021. A companhia já afirmou anteriormente que prestou serviços relacionados à prospecção e indicação de operações e convênios de crédito.
A lista inclui ainda a AB Serviços, de Bruno Neves, atual superintendente do Ibama na Bahia, que recebeu R$ 19,7 milhões; a Lewandowski Advocacia, ligada a familiares do ex-ministro Ricardo Lewandowski, com R$ 6,1 milhões; a Pollaris Consultoria, do ex-ministro Guido Mantega, com R$ 14 milhões; e a A&M Consultoria, administrada pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto, com R$ 5,5 milhões.
As empresas e representantes citados que se manifestaram afirmam que os serviços foram efetivamente prestados, que os contratos eram regulares e que os pagamentos foram devidamente tributados. Em alguns casos, também alegam manter outros clientes além do Banco Master.
Escritórios de advocacia tradicionais aparecem na relação por meio de novos CNPJs abertos nos últimos anos. Um escritório ligado a Marcus Vinicius Furtado Coêlho recebeu R$ 17,5 milhões por uma unidade criada em Belo Horizonte em 2025, além de outros pagamentos realizados a uma estrutura mais antiga em Brasília.
O escritório de Walfrido Warde, com atuação consolidada em São Paulo, abriu uma unidade em Brasília em 2022, que recebeu R$ 23 milhões do banco. A banca afirma que a expansão para a capital federal ocorreu por razões operacionais e pelo aumento da atuação junto a tribunais superiores, agências reguladoras e órgãos públicos.
No caso do Monteiro Rusu, uma nova unidade aberta em Salvador em 2022 recebeu quase R$ 51 milhões. O sócio Daniel Monteiro, citado em investigações relacionadas ao Master, também aparece vinculado a uma estrutura mais antiga em São Paulo, que recebeu outros R$ 28 milhões. A justificativa apresentada pelo escritório foi a expansão da atuação para o Nordeste.
Correspondentes bancários também aparecem de forma relevante entre os recebedores. Empresas instaladas em municípios de menor porte de Minas Gerais receberam dezenas de milhões de reais. Em Almenara, por exemplo, há dez companhias que registraram pagamentos do Master, enquanto a Única Promotora, de Divisópolis, recebeu quase R$ 25 milhões.
Os responsáveis por essas empresas afirmam que a localização da sede não é incompatível com a dimensão das operações e que os contratos decorreram de atividades regulares de intermediação financeira e crédito consignado.
A composição da lista também inclui empresas ligadas a ex-integrantes do governo e pessoas próximas a autoridades públicas, além de companhias que prestaram serviços de consultoria, tecnologia, advocacia e estruturação financeira.
Para especialistas ouvidos no levantamento original, a combinação de empresas recém-criadas, elevados volumes de pagamentos e cadastros inconsistentes justifica um acompanhamento mais rigoroso por órgãos de controle. Ainda assim, a identificação dessas características não constitui prova de irregularidade e depende de investigação individualizada sobre a origem dos recursos, os contratos e os serviços efetivamente prestados.
Daniel Vorcaro assumiu o controle do antigo Banco Máxima em 2019. A instituição passou a operar como Banco Master em 2021. A assessoria do empresário não comentou os pagamentos mencionados no levantamento.









