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Habib’s ganha proteção contra credores e tenta renegociar R$ 312 mi

Justiça ampliou suspensão de cobranças para incluir créditos antes excluídos; grupo tenta reorganizar suas finanças sem recorrer à recuperação judicial

O Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, tenta reorganizar aproximadamente R$ 312 milhões em dívidas por meio de uma negociação com credores antes de recorrer à recuperação judicial. A estratégia ganhou novo fôlego após a Justiça de São Paulo ampliar, por 60 dias, a suspensão de cobranças que poderiam comprometer o caixa e os ativos da companhia durante as tratativas.

A empresa escolheu uma mediação pré-processual como caminho para reestruturar o passivo. Esse mecanismo permite que credores e devedores discutam novas condições de pagamento sob acompanhamento judicial, mas sem abrir imediatamente um processo formal de recuperação.

A opção é relevante porque preserva maior liberdade de negociação e reduz alguns dos efeitos associados a uma recuperação judicial, como restrições adicionais de crédito, impactos reputacionais e eventuais consequências previstas em contratos comerciais.

O grupo iniciou esse processo no fim de junho junto ao Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania de Santo Amaro, em São Paulo. Desde então, busca estabelecer condições para renegociar as obrigações sem que execuções individuais consumam recursos necessários à operação dos restaurantes.

Uma primeira proteção foi concedida no início de julho, mas não alcançava todo o passivo. Alguns credores continuavam autorizados a executar garantias ligadas a recebíveis e aplicações financeiras, porque essas dívidas possuem tratamento específico na legislação e normalmente ficariam fora de uma recuperação judicial.

Esse ponto tornou-se central para o Gennius.

A companhia sustentou que o objetivo da mediação é justamente evitar uma recuperação judicial e que, portanto, permitir a cobrança de parte das dívidas durante a negociação criaria uma assimetria entre os credores. Enquanto alguns teriam de aguardar as tratativas, outros poderiam executar ativos e retirar liquidez da empresa.

A Justiça acolheu esse argumento e ampliou a proteção temporária para alcançar também essas obrigações.

Na prática, a decisão não elimina nem reduz o passivo do grupo. Ela apenas impede, durante o período determinado, que determinados credores adotem medidas capazes de retirar recursos ou bens da empresa antes que a negociação avance.

O Gennius também pediu proteção para evitar interrupções no fornecimento de serviços e insumos considerados essenciais à operação das unidades. A preocupação é preservar o funcionamento das redes enquanto a estrutura financeira é discutida.

Segundo o grupo, as cerca de 500 lojas permanecem abertas normalmente.

A deterioração financeira é atribuída pela companhia a uma combinação de mudanças ocorridas nos últimos anos no setor de alimentação.

A pandemia reduziu a circulação de consumidores em regiões urbanas onde parte relevante das lojas estava concentrada e acelerou mudanças no comportamento de consumo. Ao mesmo tempo, o avanço das plataformas de delivery alterou a relação entre restaurantes, clientes e canais de venda.

A elevação dos juros adicionou outra pressão. Com a Selic em patamares muito superiores aos observados no início da década, aumentaram tanto o custo de novas captações quanto o preço da rolagem das dívidas já existentes.

Essa combinação tende a pressionar negócios com grande número de unidades, custos fixos elevados e necessidade constante de capital de giro.

Para o Habib’s, o problema financeiro também possui uma dimensão além da própria holding. Como a operação envolve uma extensa rede de franquias, dificuldades da franqueadora podem alcançar outras partes da cadeia caso fornecedores reduzam serviços, contratos sejam interrompidos ou o acesso a financiamento se torne mais restrito.

É justamente esse efeito em cascata que a mediação tenta conter.

Ao preservar temporariamente o caixa e impedir execuções simultâneas, o grupo busca criar um ambiente no qual os credores possam negociar prazos, valores e garantias sem comprometer a continuidade da operação.

O resultado dessas conversas definirá o próximo passo do Gennius. Se houver acordo suficiente para reorganizar os R$ 312 milhões em obrigações, a companhia poderá evitar a recuperação judicial. Caso a negociação não avance, o instrumento mais amplo de reestruturação continuará como uma possibilidade.

A decisão atual, portanto, não encerra a crise financeira do grupo. Ela apenas amplia o período e o alcance da proteção necessária para que o controlador do Habib’s tente resolver o passivo fora de um processo formal de recuperação.

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