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Vorcaro nega corrupção, mas sinaliza à PF que pode revelar mais

PF questionou Vorcaro sobre pagamentos e negócios envolvendo ex-servidores do Banco Central; banqueiro negou propina e sinalizou possível colaboração

Daniel Vorcaro voltou a sinalizar à Polícia Federal que possui informações adicionais que poderiam ser apresentadas em um eventual acordo de colaboração premiada. Preso há cerca de dois meses, o banqueiro afirmou ao final de um depoimento de aproximadamente quatro horas nesta sexta-feira (28) que poderia falar “muito mais coisas” caso estivesse em um ambiente de delação. Ao mesmo tempo, negou qualquer participação em atos de corrupção envolvendo ex-servidores do Banco Central.

O interrogatório faz parte da investigação sobre a suspeita de cooptação de Paulo Sérgio Neves, ex-diretor de Fiscalização do BC, e Belline Santana, ex-chefe do departamento de supervisão bancária. A PF apura se os dois teriam recebido vantagens para prestar uma espécie de consultoria informal a Vorcaro durante o período em que o Banco Master buscava concretizar sua venda ao Banco de Brasília (BRB).

A suspeita é particularmente sensível porque envolve profissionais que ocuparam posições diretamente relacionadas à fiscalização e à supervisão do sistema financeiro. A investigação busca esclarecer se relações financeiras mantidas com pessoas ligadas a Vorcaro representaram negócios regulares ou se serviram para remunerar informações, orientações ou algum tipo de influência relacionada ao processo envolvendo o Master.

Questionado pelos investigadores, Vorcaro negou essa segunda hipótese. Em relação a Belline Santana, sustentou que os pagamentos foram destinados efetivamente a um projeto voltado à aproximação de jovens da periferia com o mercado financeiro. A Polícia Federal, por outro lado, suspeita que a iniciativa tenha servido apenas como fachada para justificar os repasses. A conclusão dependerá do conjunto de provas reunido no inquérito.

Sobre Paulo Sérgio Neves, a investigação analisa a venda de um terreno ao empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. O banqueiro afirmou que a operação foi definida pelo próprio Zettel como um investimento imobiliário e negou que a transação tivesse relação com vantagens indevidas ou com a atuação do ex-dirigente do Banco Central.

A defesa sustenta que Vorcaro respondeu integralmente às perguntas e que o depoimento afastou a hipótese de corrupção. Essa, porém, é a versão apresentada pelos advogados e ainda será confrontada pela PF com documentos, movimentações financeiras, depoimentos e demais elementos reunidos durante a investigação.

O aspecto que acrescenta uma nova dimensão ao interrogatório apareceu justamente no encerramento. Ao dizer que poderia fornecer informações mais amplas caso estivesse formalmente protegido por um acordo de colaboração, Vorcaro voltou a demonstrar interesse em negociar com os investigadores depois de tentativas anteriores que não avançaram.

Esse foi o primeiro depoimento do banqueiro desde a rejeição de suas propostas anteriores de delação. A defesa vem indicando interesse em apresentar uma terceira tentativa, embora ainda não exista uma nova proposta formal. Para que uma negociação avance, a PF deverá avaliar não apenas a disposição do investigado em falar, mas principalmente a novidade, relevância e possibilidade de comprovação das informações oferecidas.

A colaboração premiada pressupõe justamente uma contrapartida investigativa: declarações que apenas confirmem fatos já conhecidos ou que não possam ser sustentadas por provas tendem a ter menor valor para os investigadores. Por isso, a afirmação de que poderia “falar muito mais” funciona como uma sinalização, mas não significa que um acordo será necessariamente aberto ou aceito.

O depoimento foi realizado por videoconferência a partir da unidade prisional conhecida como Papudinha, onde Vorcaro está detido. O delegado responsável pelo inquérito e os advogados do banqueiro também participaram remotamente.

A investigação permanece concentrada em esclarecer se os negócios envolvendo os ex-servidores do Banco Central tiveram natureza comercial legítima ou se estavam vinculados à atuação deles em benefício de Vorcaro e do Banco Master. A eventual retomada das conversas sobre colaboração premiada poderá ampliar o alcance do caso, mas dependerá do conteúdo que o banqueiro efetivamente se disponha a entregar e da avaliação da PF sobre sua utilidade para as investigações.

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