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FIDCs superam R$ 1 trilhão, mas provisões para perdas saltam 41%

FIDCs ultrapassaram R$ 1 trilhão em patrimônio, mas créditos atrasados há mais de 90 dias saltaram 62% em 12 meses, para R$ 7,5 bilhões

Os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) ultrapassaram R$ 1 trilhão em patrimônio líquido, mas a rápida expansão da indústria veio acompanhada de aumento dos indicadores de risco. Em julho, a classe alcançou R$ 1,015 trilhão, avanço de 16,3% em 12 meses, segundo levantamento do Valor Data com informações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

No mesmo período, as provisões para perdas com inadimplência cresceram 40,8%, passando de R$ 46,1 bilhões para R$ 64,9 bilhões. Os créditos com atrasos superiores a 90 dias avançaram ainda mais: 62%, chegando a R$ 7,5 bilhões.

A deterioração também aparece proporcionalmente. As provisões passaram de 7,3% para 8,3% da carteira bruta de direitos creditórios. O levantamento excluiu fundos predominantemente voltados à compra de créditos já vencidos, os chamados NPLs, e o percentual permaneceu praticamente inalterado, indicando que o movimento não está concentrado apenas nesse segmento.

A expansão dos FIDCs ganhou força a partir de 2025, em paralelo a uma concessão de crédito mais restritiva pelos bancos. A carteira bruta de direitos creditórios desses fundos aumentou 22,8% em 12 meses, de R$ 634,4 bilhões para R$ 779,2 bilhões. O ritmo foi aproximadamente três vezes superior ao crescimento de 7% do crédito bancário com recursos livres no mesmo intervalo.

Para Ricardo Rochman, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), parte do crédito migrou dos bancos para os fundos, que possuem maior flexibilidade para estruturar operações. Na avaliação dele, porém, algumas carteiras passaram a assumir riscos mais elevados em um ambiente de juros altos e maior endividamento de famílias e empresas.

Representantes da indústria fazem uma leitura menos preocupante. Samuel Garson, presidente da Associação Nacional dos Participantes em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (Anfidc), afirma que o crescimento dos atrasos não configura um cenário alarmante e destaca a pulverização das carteiras como fator capaz de reduzir o impacto das perdas. Marcelo Michaluá, sócio fundador e co-CEO da RB Asset, também argumenta que as estruturas de subordinação podem absorver parte relevante de eventuais inadimplências.

Essa proteção ocorre por meio das diferentes classes de cotas dos FIDCs. As cotas seniores têm prioridade no recebimento, enquanto as subordinadas absorvem primeiro eventuais perdas. Se uma carteira tiver perda esperada de 2%, por exemplo, a estrutura pode reservar uma fatia maior de cotas subordinadas para proteger os investidores das classes superiores.

A diversidade entre os fundos, porém, dificulta avaliações generalizadas. As carteiras podem incluir desde empréstimos consignados de menor risco até financiamentos concedidos a devedores mais arriscados e ativos já inadimplentes. Também não existe padronização ampla dos critérios de avaliação de crédito, e poucos fundos contam com classificação de agências de rating.

A transparência aparece, por isso, entre os principais desafios para a próxima etapa de crescimento da indústria. Eduardo Solamone, diretor de relações com investidores da Sol Agora, defende maior harmonização das regras de provisionamento e critérios mais uniformes entre os veículos. Segundo ele, reduzir a subjetividade permitiria aumentar a confiança e melhorar a comparação entre diferentes FIDCs.

O crescimento da classe também aumentou a atenção dos reguladores. A Anbima criou um grupo de trabalho para discutir mudanças na autorregulação e publicou orientações sobre metodologias de provisão para devedores duvidosos. O Conselho Monetário Nacional (CMN), por sua vez, endureceu recentemente as regras para determinadas aquisições de créditos e expectativas de direitos ligados a processos judiciais e arbitrais.

Para o investidor, o tamanho alcançado pela indústria não elimina as diferenças de risco entre os fundos. Christopher Galvão, sócio e analista da Nord Investimentos, chama atenção ainda para a baixa liquidez do mercado secundário, que pode dificultar a saída de algumas posições. A análise de cada FIDC exige considerar qualidade dos créditos, nível de subordinação, garantias, concentração da carteira e critérios adotados para reconhecer possíveis perdas.

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