Destaque
DestaqueFinançasInvestimentosNotícias

XP recomenda realizar lucros no Tesouro e buscar crédito privado

XP recomenda realizar parte dos lucros no Tesouro após alta de até 17% e aponta oportunidades em debêntures incentivadas com isenção de IR

A forte valorização dos títulos públicos brasileiros após o primeiro turno das eleições presidenciais abriu espaço para uma mudança na estratégia dos investidores de renda fixa. Com ganhos expressivos nos papéis de longo prazo e aumento da remuneração oferecida por debêntures incentivadas, a XP Investimentos passou a recomendar a realização parcial dos lucros acumulados no Tesouro e a transferência gradual de recursos para títulos de crédito privado de empresas com elevada qualidade financeira.

A orientação consta de relatório elaborado pelos analistas Lucas Genoso e Maria Luisa Paolantoni, divulgado nesta terça-feira (13). A instituição avalia que o movimento recente criou uma oportunidade de reorganização das carteiras, mas não recomenda a venda integral dos títulos públicos nem a concentração dos investimentos em debêntures.

A reação do mercado ao resultado do primeiro turno provocou uma queda acentuada nas taxas de juros futuros, impulsionando os preços dos títulos públicos prefixados e indexados à inflação. Como esses papéis são negociados diariamente a preços de mercado, a redução das taxas exigidas pelos investidores eleva seu valor antes do vencimento, fenômeno conhecido como marcação a mercado.

O efeito foi particularmente expressivo nos títulos de prazo mais longo, que apresentam maior sensibilidade às oscilações dos juros. Na última semana, papéis longos vinculados à inflação registraram valorização próxima de 13%, enquanto alguns vencimentos de contratos de juros futuros acumularam quedas superiores a 100 pontos-base em apenas um pregão.

No dia 5 de outubro, primeiro pregão após a votação, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2029 recuou de 13,75% para 12,65%. Segundo a XP, uma queda dessa magnitude não era observada havia mais de dez anos.

O movimento também atingiu os títulos públicos indexados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A taxa da NTN-B com vencimento em 2035 passou de 7,65% para 7,04% no mesmo dia.

Entre 1º de setembro e 7 de outubro, o Tesouro IPCA+ 2050 acumulou valorização bruta de 17%, enquanto o Tesouro IPCA+ 2040 avançou 11%. Os ganhos beneficiaram especialmente investidores que haviam adquirido os títulos quando as taxas estavam mais elevadas.

Apesar da valorização, a XP não considera encerrado o potencial de queda dos juros. A instituição ressalta que a continuidade do movimento dependerá das propostas econômicas apresentadas durante a disputa eleitoral, da composição da futura equipe econômica e das perspectivas para a dívida pública brasileira.

A definição do segundo turno, marcado para 25 de outubro, permanece entre os principais fatores de incerteza. O mercado acompanha a possibilidade de mudanças na condução da política fiscal, mas a concretização das expectativas dependerá das medidas adotadas pelo próximo governo.

Enquanto os títulos públicos se valorizaram com a redução das taxas, o mercado de crédito privado apresentou um movimento diferente. Os prêmios adicionais exigidos pelos investidores para financiar empresas aumentaram, tornando determinadas debêntures incentivadas relativamente mais atrativas.

Esses prêmios, conhecidos como spreads de crédito, representam a remuneração adicional oferecida pelos títulos privados em comparação com papéis públicos de referência. Quanto maior o spread, maior tende a ser a remuneração exigida pelo investidor para assumir o risco de crédito da empresa emissora.

O IDEX-Infra, indicador que acompanha os spreads das debêntures incentivadas, iniciou outubro em 101 pontos-base acima da NTN-B de referência, depois de registrar uma elevação de 44 pontos-base durante setembro.

A abertura dos prêmios atingiu inclusive companhias consideradas de elevada qualidade de crédito. Entre agosto e setembro, os segmentos de telecomunicações e agronegócio e insumos registraram aumentos de 55 e 54 pontos-base, respectivamente.

Um dos exemplos apresentados pela XP é a debênture da São Martinho, identificada pelo código SMTO24. O spread do papel passou de 38 pontos-base em 31 de agosto para 103 pontos-base em 7 de outubro.

Na data analisada, o título apresentava taxa indicativa de IPCA mais 7,96% ao ano. Considerando o benefício tributário, a remuneração correspondia, segundo os cálculos da XP, a uma taxa equivalente de IPCA mais 9,56% em uma aplicação tributável.

As debêntures incentivadas possuem isenção de Imposto de Renda sobre os rendimentos para pessoas físicas, conforme as regras aplicáveis a esses títulos. O benefício pode ampliar sua atratividade em comparação com alternativas tributadas, embora a decisão também dependa do risco de crédito, do prazo e da liquidez.

Na avaliação da XP, a elevação dos spreads ocorreu principalmente por fatores relacionados ao funcionamento do mercado, e não por uma deterioração proporcional da situação financeira das empresas emissoras.

O aumento dos resgates em fundos especializados em crédito privado obrigou gestores a vender parte de suas posições no mercado secundário. A maior oferta de títulos, em um ambiente de demanda mais limitada, pressionou os preços e elevou as taxas de remuneração exigidas pelos compradores.

Esse movimento pode criar oportunidades para investidores com capacidade de manter os papéis por períodos mais longos. Entretanto, a instituição ressalta que os spreads ainda podem aumentar caso os resgates dos fundos continuem e novas vendas pressionem o mercado.

Por isso, a recomendação é realizar a alocação de maneira gradual, preservando recursos para eventuais oportunidades futuras.

A XP concentra sua preferência em emissores classificados como high grade, expressão utilizada para identificar empresas com elevada qualidade de crédito. Na metodologia adotada pela instituição, esse grupo reúne companhias com classificações de risco entre AAA e AA, associadas a uma menor probabilidade de inadimplência.

Mesmo nesse segmento, a análise individual dos emissores permanece indispensável. A classificação de crédito não elimina a possibilidade de perdas e deve ser considerada em conjunto com a capacidade de pagamento, o endividamento e as condições específicas de cada emissão.

Outro fator destacado pela XP é o possível benefício de uma redução mais intensa dos juros para a situação financeira das companhias. Empresas com dívidas vinculadas ao CDI tendem a registrar diminuição das despesas financeiras quando as taxas recuam, o que pode aliviar a pressão sobre o caixa.

Em uma simulação apresentada no relatório, a instituição estima que uma redução de um ponto percentual nos juros poderia diminuir em aproximadamente R$ 168 milhões por trimestre as despesas financeiras da Axia, considerando a hipótese ilustrativa de que toda a dívida da companhia estivesse vinculada ao CDI.

A XP ressalta que os efeitos de uma eventual redução dos juros ainda levarão tempo para aparecer nos balanços empresariais. A perspectiva, entretanto, é de que parte das companhias possa se beneficiar de condições financeiras menos restritivas.

A combinação entre spreads mais elevados e possibilidade de melhora das condições de financiamento sustenta a preferência da instituição por debêntures incentivadas de emissores considerados sólidos.

A estratégia também exige atenção às discussões sobre mudanças na tributação desses investimentos. Alterações nas regras para novas emissões podem modificar a atratividade relativa dos títulos já disponíveis no mercado, especialmente daqueles emitidos sob as condições atuais de isenção.

Para os investidores que acumulam ganhos relevantes em títulos públicos, a realização parcial dos lucros representa uma forma de reduzir a exposição às oscilações das taxas de juros e aproveitar oportunidades em outros segmentos da renda fixa.

Isso não significa, entretanto, que todos os detentores de Tesouro IPCA+ devam vender suas posições. A decisão depende do preço de aquisição, do prazo pretendido e dos objetivos de cada aplicação. Quem pretende manter o título até o vencimento continua sujeito às condições de remuneração contratadas, desde que o emissor cumpra suas obrigações, enquanto a venda antecipada ocorre pelo preço de mercado e pode resultar em ganhos ou perdas.

A XP também recomenda preservar parte da carteira em títulos públicos, permitindo que o investidor continue participando de uma eventual nova rodada de valorização caso as taxas de juros apresentem quedas adicionais.

A orientação da instituição reflete uma mudança nas condições relativas dos dois mercados. Depois de uma valorização expressiva dos títulos soberanos, parte dos ganhos pode ser direcionada a papéis privados que passaram a oferecer remunerações mais elevadas.

O principal desafio para o investidor, nesse cenário, é equilibrar a realização dos lucros já acumulados com a manutenção de oportunidades futuras, sem desconsiderar os riscos de crédito, liquidez e volatilidade que permanecem presentes na renda fixa.

Postagens relacionadas

1 of 730