A desaceleração da inflação brasileira em outubro não representa necessariamente uma melhora consistente do comportamento dos preços. Essa é a avaliação da XP Investimentos após a divulgação do IPCA-15, que registrou alta de 0,32% no mês, abaixo da projeção de 0,43% da instituição e da expectativa de 0,44% do mercado. Apesar da surpresa favorável, os indicadores acompanhados pela equipe econômica da XP apontaram aumento das pressões inflacionárias, especialmente no setor de serviços.
No acumulado de 12 meses, o índice avançou de 4,47% em setembro para 4,62% em outubro, ultrapassando o limite superior de tolerância da meta de inflação, estabelecido em 4,5%. Segundo a análise, a diferença entre o resultado divulgado e as projeções foi explicada principalmente pela queda de 9,24% nos preços das passagens aéreas, enquanto a instituição esperava aumento de 5%.
Como as tarifas aéreas apresentam oscilações frequentes, a XP considera que esse movimento oferece pouca indicação sobre a tendência mais duradoura da inflação. Outros itens, como produtos de higiene pessoal e seguros de veículos, também ficaram abaixo das estimativas, enquanto gasolina e serviços de comunicação apresentaram aumentos superiores aos previstos.
A inflação de serviços avançou 0,22% em outubro, mas os indicadores que excluem componentes mais voláteis mostraram um comportamento menos favorável. O núcleo de serviços subiu 0,45%, com a taxa acumulada em 12 meses passando de 5,28% para 5,51%. Na média móvel de três meses, dessazonalizada e anualizada, a inflação desse grupo acelerou de 5,27% para 6,29%.
Os serviços intensivos em mão de obra, acompanhados de perto pelo Banco Central, registraram aumento mensal de 0,55%, acima dos 0,52% projetados pela XP. Em 12 meses, a variação passou de 7,29% para 7,43%, enquanto a medida trimestral anualizada alcançou 7,48%.
Na avaliação da instituição, a resistência da demanda doméstica e as condições ainda apertadas do mercado de trabalho continuam pressionando os preços dos serviços, dificultando uma desaceleração mais consistente da inflação.
Os núcleos de inflação, que procuram identificar tendências ao reduzir a influência de componentes voláteis, também apresentaram aceleração. A média dessas medidas avançou 0,31% no mês, abaixo da estimativa de 0,35%, mas sua variação acumulada em 12 meses aumentou de 4,32% para 4,43%. O índice de difusão, que mede a proporção de itens com reajustes de preços, passou de 54% para 59%, indicando maior disseminação das altas.
Entre os alimentos, os preços dos produtos consumidos no domicílio subiram 1,01%, ligeiramente abaixo da projeção de 1,14%. Aves, ovos, cereais e oleaginosas exerceram pressão sobre o indicador, enquanto tubérculos, raízes, legumes e bebidas apresentaram resultados inferiores às estimativas. A alimentação fora do domicílio registrou aumento de 0,56%.
Os preços administrados avançaram 0,15%, superando a expectativa de 0,03%. A gasolina teve alta de 0,92%, acima dos 0,62% projetados, enquanto a energia elétrica recuou 0,89%, refletindo a adoção da bandeira tarifária verde em outubro.
O comportamento dos bens industriais foi o principal sinal favorável identificado pela XP. Embora o grupo tenha apresentado aumento de 0,20%, os preços industriais subjacentes registraram desaceleração na média trimestral anualizada, de 2,07% para 1,80%, indicando menor pressão nos componentes menos voláteis.
Mesmo diante do IPCA-15 abaixo das expectativas, a XP manteve suas projeções de inflação em 5,1% para 2026 e 4,4% para 2027. A instituição também preservou a expectativa de continuidade dos cortes da taxa Selic pelo Banco Central, considerando os sinais de enfraquecimento da atividade econômica.
No cenário da XP, os juros básicos devem encerrar 2026 em 13,25% e recuar para 11,50% ao final de 2027. A avaliação é que a desaceleração da economia poderá permitir novas reduções, embora a persistência das pressões sobre os preços exija cautela na condução da política monetária.










