O setor bancário lidera todos os demais setores da economia em investimentos em inteligência artificial, mas essa vantagem financeira esconde uma fragilidade estrutural preocupante: a maioria das instituições está ampliando o uso de IA sem construir as bases de governança, dados e talento que tornam essa tecnologia genuinamente confiável. É o que revela o relatório O Imperativo da Confiança, produzido pelo SAS em parceria com o IDC a partir de uma pesquisa global com 2.375 líderes de tecnologia e negócios em quatro setores.
O número que resume o paradoxo é contundente: apenas 11% dos bancos operam no que o estudo chama de estado ideal, combinando alto nível de confiança na IA com sistemas efetivamente comprovados. Quase metade das instituições, 47%, vive o que os pesquisadores denominam Dilema da confiança, uma situação em que os bancos ou subutilizam sistemas de IA já validados por falta de confiança interna ou, no caminho oposto, dependem excessivamente de modelos que ainda não foram adequadamente testados e comprovados. Um quarto dos bancos, 23%, ocupa o nível mais alto do Índice de Confiabilidade da IA do IDC, mas mesmo esse grupo ainda está distante do ideal definido pelo relatório.
As fragilidades estruturais identificadas pela pesquisa são concretas. Quase um em cada cinco bancos, 19%, ainda opera com infraestrutura de dados fragmentada em silos, o pior índice entre os setores analisados. Quarenta e cinco por cento não dispõem de governança de dados eficaz e 41% carecem de infraestrutura centralizada ou otimizada para suportar modelos de IA em escala. A escassez de talentos especializados afeta 42% das instituições. O problema não é falta de dinheiro: 60% dos bancos esperam crescimento entre 4% e 20% nos investimentos em IA, e um grupo menor, de 12%, prevê aumentos ainda mais expressivos. O descompasso está na alocação: os recursos crescem mais rápido do que as fundações que dariam sustentação às iniciativas.
A evidência mais relevante do relatório talvez seja a que derruba uma premissa comum sobre o valor da IA no setor bancário. Ao contrário do que se poderia supor, a principal fonte de retorno não vem da redução de custos. O setor bancário é o único, entre os analisados, que coloca a inovação em produtos e serviços acima da eficiência operacional como motor de valor gerado pela IA. Os dados de ROI confirmam essa leitura: bancos que usam IA para aprimorar a experiência do cliente obtiveram retorno de US$ 1,83 para cada dólar investido, enquanto os que focaram em redução de custos tiveram o pior retorno do grupo, de US$ 1,54 por dólar. Instituições que priorizaram uma IA confiável tiveram 60% mais probabilidade de relatar o dobro de ROI em suas iniciativas.
O movimento em direção à IA agêntica, em que os sistemas passam a tomar decisões de forma mais autônoma, adiciona urgência ao problema. Quase um terço dos bancos planeja ampliar os investimentos nessa direção, mas quanto maior a autonomia dos sistemas, maior o risco de uma estrutura de governança insuficiente gerar consequências regulatórias ou abalar a confiança dos clientes de forma irreversível.









