André Esteves declarou publicamente na última segunda-feira que o BTG Pactual não tem interesse nos ativos do Master que estão com o BRB. O que o banqueiro não mencionou é que o próprio BTG carrega em seu balanço R$ 1,15 bilhão em carteiras de crédito consignado do Credcesta compradas do Banco Master desde 2021, operações que nunca foram tornadas públicas e que hoje enfrentam dois bloqueios judiciais distintos.
A estrutura criada para viabilizar as compras foi engenhosa e deliberadamente opaca. Uma empresa chamada CB Securitizadora, fundada em setembro de 2021 especificamente para empacotar cédulas de crédito bancário do Master, funcionava como intermediária. O mecanismo era simples na prática: a CB captava recursos de debenturistas, comprava as carteiras de consignados do Master e repassava os recebíveis ao investidor à medida que as parcelas eram descontadas dos servidores e aposentados. O risco ficava com o investidor, compensado por remuneração entre 21% e 25% ao ano. O Master recebia o dinheiro à vista, transferia o risco e seguia em frente.
Para o BTG, o negócio tinha uma lógica clara. O banco acessava carteiras do Credcesta com potencial altamente lucrativo, exclusivas do ecossistema do Master, que não tinha caixa para mantê-las. Para o Master, era uma forma de antecipar receitas e gerar liquidez com spread positivo. Um arranjo ganha-ganha que, ao longo de quatro emissões entre 2021 e 2023, permitiu ao Master antecipar pelo menos R$ 1,66 bilhão em carteiras.
A primeira emissão, de R$ 431 milhões em dezembro de 2021, foi pública e envolveu o BTG como coordenador líder, estruturador e responsável pela seleção dos ativos. Nessa operação, a área de Special Situations do banco, liderada por Alexandre Camara, foi além do papel de intermediário e comprou diretamente toda a série preferencial por R$ 303 milhões, tornando o BTG credor do Master. Havia, segundo a reportagem, preocupação interna em não tornar essa compra pública, já que o Credcesta era visto pelos grandes bancos como uma estrutura problemática pelos juros praticados e pela forma como nasceu.
A partir da segunda emissão, o formato mudou para oferta privada, eliminando a figura do coordenador e as exigências de transparência. O BTG continuou presente, mas agora exclusivamente como investidor, por meio do FIDC Alternative Assets I, fundo administrado e gerido pelo próprio banco, com um único cotista cujo beneficiário final é o próprio BTG. Em menos de um ano, esse fundo acumulou R$ 850 milhões em carteiras do Master por meio de três operações: R$ 200 milhões em dezembro de 2022, R$ 300 milhões em junho de 2023 e R$ 350 milhões em novembro de 2023.
Com a liquidação do Master pelo Banco Central em novembro de 2025, o negócio que parecia lucrativo entrou em colapso jurídico. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro acatou pedido do Estado e da Rioprevidência para reter valores que seriam repassados ao Master referentes a consignados de servidores estaduais, para abater dívida de R$ 970 milhões em letras financeiras sem garantias. O BTG entrou no processo alegando que o dinheiro já não era do Master, mas de seu fundo, que havia pago R$ 461 milhões pelas carteiras. O tribunal negou o recurso em dezembro.
Em paralelo, o INSS bloqueou uma carteira sob suspeita de fraude. Uma decisão favorável ao BTG obtida no plantão judiciário em 31 de dezembro foi revertida em janeiro, suspendendo todos os pagamentos referentes a carteiras de INSS compradas por R$ 531 milhões.
Os sinais de que as carteiras não eram tão sólidas quanto pareciam estavam presentes antes da liquidação. A CB Securitizadora registrou prejuízo líquido de R$ 24,6 milhões em 2023. Os auditores independentes do mesmo ano foram além: ao examinar R$ 1,22 bilhão em direitos creditórios registrados no balanço da empresa, afirmaram não ter conseguido obter evidências suficientes sobre o ajuste a valor presente dessa carteira. Em linguagem direta: não foi possível confirmar se os créditos tinham lastro real.
(Com informações do Metrópoles)










