O banco Digimais, controlado pela holding ligada ao bispo Edir Macedo, utilizou estruturas com fundos de investimento para retirar de suas demonstrações financeiras carteiras de crédito com elevado nível de inadimplência, segundo documentos obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo e analisados por especialistas do mercado financeiro.
As operações envolveram principalmente fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), utilizados para absorver carteiras de financiamentos problemáticos originadas pelo próprio banco. De acordo com a apuração, parte relevante dessas estruturas possui o próprio Digimais como cotista, mecanismo conhecido no mercado financeiro como operação “Zé com Zé”, quando a instituição aparece nos dois lados da transação.
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, esse tipo de estrutura pode melhorar temporariamente a aparência do balanço contábil sem alterar efetivamente o risco econômico da instituição. Os documentos apontam que pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos deixaram de aparecer diretamente nas demonstrações financeiras do banco após as operações.
O volume total de investimentos vinculados aos fundos citados na reportagem supera R$ 3 bilhões. Parte desses ativos não teria sido plenamente auditada devido à ausência de documentação considerada necessária pelos auditores independentes.
A principal carteira histórica do Digimais é a de financiamento de veículos, segmento considerado de maior risco no sistema financeiro devido ao elevado potencial de inadimplência e litígios judiciais. Segundo dados divulgados pelo próprio banco ao Banco Central, o peso dessa carteira caiu ao longo dos últimos anos após a transferência de operações para fundos de investimento.
Um dos fundos mencionados é o Tabor, que, segundo a reportagem, possui o próprio Digimais entre os investidores. Em abril de 2026, o fundo apresentava cerca de R$ 960 milhões em carteiras de crédito, dos quais aproximadamente R$ 575 milhões estavam inadimplentes.
Mais de R$ 200 milhões dessas operações correspondiam a parcelas vencidas há até 720 dias, cenário considerado crítico por especialistas do mercado financeiro.
Em dezembro de 2025, o Digimais reportava oficialmente R$ 366 milhões em créditos vencidos na carteira de financiamento de veículos. Porém, segundo os documentos analisados pela reportagem, somente o fundo Tabor já registrava inadimplência superior a R$ 479 milhões no mesmo período.
Especialistas ouvidos pelo Estadão classificaram algumas das operações envolvendo os fundos como estruturas de “alto risco regulatório” e de “sinal vermelho forte”. A reportagem também informou que a Polícia Federal investiga o banco por suspeitas de fraudes relacionadas às operações financeiras.
Além das carteiras de crédito inadimplentes, outra operação envolvendo fundos chamou atenção de auditores independentes. A holding controladora do banco comprou R$ 741 milhões em cotas de um FIDC chamado Hermon, fundo que possui como principal ativo o direito de recebimento de uma disputa judicial ligada à antiga Companhia de Mineração e Siderurgia incorporada durante a criação da Vale do Rio Doce nos anos 1940.
Segundo auditoria citada pela reportagem, apesar de existirem pareceres jurídicos favoráveis à operação, o negócio pode não refletir condições usuais de mercado, principalmente pela ausência de remuneração considerada compatível com o risco econômico da transação.
O Digimais declarou lucro de R$ 31 milhões ao fim de 2025 após as operações envolvendo os fundos. Segundo especialistas consultados pelo Estadão, a transferência dos ativos problemáticos contribuiu para reduzir o impacto direto da inadimplência nos resultados apresentados ao mercado.
Nos últimos meses, o banco também passou por mudanças na administração. Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil, assumiu a presidência da instituição após substituição de executivos ligados à Igreja Universal.
Paralelamente, o Digimais negocia uma potencial operação com o BTG Pactual. Em nota ao Estadão, o BTG confirmou ter assinado documentos vinculantes relacionados a uma possível aquisição do banco, mas afirmou que a operação ainda depende de condições precedentes, processo competitivo e mecanismos de suporte financeiro, incluindo eventual participação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
O Digimais e a Igreja Universal não comentaram as informações divulgadas pela reportagem.









