O recente pedido de recuperação judicial do Grupo Toky, responsável pela operação da Tok&Stok, reacendeu discussões sobre os desafios de empresas que recorrem a múltiplos mecanismos de reestruturação financeira sem conseguir estabilizar sua operação no longo prazo.
Após ingressar com recuperação extrajudicial em agosto de 2024 como alternativa para reorganizar passivos e renegociar dívidas com credores, o grupo agora recorreu à recuperação judicial, em novo movimento para tentar preservar suas atividades e construir uma solução mais ampla para sua crise financeira.
O caso evidencia um cenário cada vez mais comum no mercado brasileiro: empresas que, diante do agravamento da crise, esgotam mecanismos mais pontuais antes de recorrer ao Judiciário.
“Nem sempre a recuperação extrajudicial é suficiente para resolver crises empresariais mais profundas. Quando a empresa enfrenta problemas estruturais de geração de caixa, operação fragilizada e elevado nível de endividamento, medidas mais cirúrgicas podem gerar apenas um alívio temporário”, afirma Claudio Montoro, advogado especialista em recuperação judicial e professor do Insper.
Nos últimos anos, o Grupo Toky enfrentou deterioração operacional marcada pela retração das atividades, fechamento de lojas físicas e forte pressão financeira decorrente de alavancagem e aumento do custo do crédito.
Assim como outras empresas que expandiram operações ou recorreram a financiamentos durante o período de juros historicamente baixos, o grupo foi impactado pela mudança do cenário macroeconômico e pela elevação acelerada da taxa Selic.
“O ambiente de juros baixos incentivou diversas empresas a operar com níveis maiores de endividamento. Quando esse cenário mudou, muitas estruturas financeiras se tornaram inviáveis, especialmente em setores dependentes de consumo e operação física, como varejo e mobiliário”, explica Montoro.
Antes do pedido atual, a empresa já havia renegociado dívidas financeiras, captado novos recursos e promovido mudanças societárias, incluindo cessão de participações a credores relevantes.
Para especialistas, a sequência de movimentos evidencia um risco importante nos processos de reestruturação: o desgaste gradual da confiança de mercado.
“Existe um ativo central em qualquer processo de recuperação: credibilidade. Quando a empresa passa por sucessivas medidas paliativas sem solucionar a raiz do problema, tende a desgastar a confiança de credores, fornecedores, investidores e consumidores, tornando o processo de revitalização ainda mais complexo”, destaca o especialista.
Segundo Montoro, a escolha entre mediação de insolvência, recuperação extrajudicial e recuperação judicial deve considerar não apenas o perfil do passivo, mas a real capacidade operacional da empresa de sustentar um plano de retomada.
“O sistema brasileiro oferece instrumentos diferentes para níveis distintos de crise. O desafio está justamente em identificar o momento correto e a ferramenta adequada. Quando esse timing falha, a crise financeira pode evoluir para uma crise de confiança, que costuma ser ainda mais difícil de reverter”, conclui.









