Destaque
DestaqueEmpresasNotícias

Crise do Will Bank expõe disputa entre Mastercard e maquininhas sobre prejuízo bilionário

Maquininhas alegam que bandeira deveria ressarcir integralmente transações após liquidação do Will Bank

A Mastercard entrou em conflito com grandes credenciadoras de cartão após propor assumir apenas parte das perdas relacionadas ao colapso do Will Bank, fintech ligada ao conglomerado do Banco Master e liquidada pelo Banco Central do Brasil em janeiro.

Segundo fontes do setor, a bandeira teria sugerido às empresas de maquininhas dividir o prejuízo envolvendo os fluxos de pagamentos do banco digital, movimento que provocou forte reação das credenciadoras, que defendem ressarcimento integral das operações.

De acordo com interlocutores ouvidos pela reportagem, a Mastercard honrou inicialmente os pagamentos à vista ligados ao fluxo conhecido como D28 — modelo em que os lojistas recebem os recursos das vendas em até 28 dias.

Essas operações representariam aproximadamente metade do volume total movimentado pelo Will Bank antes da liquidação.

Agora, porém, a bandeira teria proposto cobrir apenas metade das perdas totais restantes. Como a inadimplência da carteira de cartões do Will estaria próxima de 50%, fontes do setor afirmam que, na prática, a Mastercard acabaria desembolsando pouco além do que já havia sido ressarcido anteriormente.

O caso elevou a tensão entre bandeiras e credenciadoras em um momento em que o Banco Central endurece as regras sobre responsabilidade nos arranjos de pagamento.

Em novembro do ano passado, o BC publicou normas determinando de forma mais explícita que as bandeiras devem assegurar o pagamento das transações aos recebedores finais.

As empresas do setor, porém, ainda aguardam a conclusão do processo regulatório, já que os novos regulamentos internos das bandeiras precisam ser apresentados e aprovados pelo regulador.

Na avaliação das credenciadoras, contudo, a legislação anterior já deixava clara a obrigação das bandeiras em assumir esse tipo de risco.

A Cielo afirmou que a gestão de riscos nos arranjos de pagamento é centralizada nas bandeiras desde 2015 e destacou que as adquirentes não escolhem quais emissores participam do sistema.

“Adicionalmente, as adquirentes não podiam, não podem e não poderão escolher os emissores que fazem parte do arranjo e tampouco são responsáveis pelas garantias atreladas à operação”, informou a companhia em nota.

Rede, Getnet, Stone e PagSeguro não comentaram o caso.

Segundo fontes do mercado, a exposição da Mastercard ao Will Bank chegou perto de R$ 8 bilhões em transações correntes de cartões antes da deterioração da fintech.

Com o agravamento da situação financeira da instituição no fim do ano passado, a bandeira conseguiu reduzir essa exposição para algo entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões e executou parte das garantias existentes.

Ainda assim, o tamanho definitivo das perdas segue incerto.

O episódio também reacendeu discussões sobre o modelo brasileiro de liquidação em D28, considerado por executivos do setor como mais arriscado e complexo para gestão de garantias.

“A liquidação em D28 torna a gestão de risco mais complicada. Isso só acontece no Brasil”, afirmou um executivo de credenciadora ouvido pela reportagem.

Nos bastidores, parte do mercado pressiona o Banco Central a se posicionar formalmente sobre o caso.

Executivos do setor avaliam que, caso não haja definição regulatória clara, a disputa poderá migrar para a Justiça.

Outro ponto revelado por fontes ligadas às negociações é que a Mastercard chegou a discutir internamente uma mudança estrutural no modelo de liquidação, reduzindo o prazo de D28 para D2.

A proposta, no entanto, enfrentou resistência do mercado e acabou retirada da versão final do novo regulamento da bandeira.

Postagens relacionadas

1 of 646