*Por Flávio Vegas, especialista de produtos da Global X
O cenário geopolítico global, marcado pela escalada de tensões envolvendo potências como Estados Unidos, Israel e Irã, tem provocado uma busca intensificada por proteção patrimonial. Historicamente, em momentos de estresse internacional, o investidor recorre ao ouro ou ativos de reserva de valor. No entanto, dados recentes revelam um fenômeno novo: o setor de Defesa e Segurança, que está se consolidando como a nova fronteira de crescimento tecnológico, está entregando resultados que superam, com folga, os índices de tecnologia tradicional.
Desde novembro de 2023, quando o setor de Defesa Tech começou a ganhar tração via instrumentos, como o ETF SHLD, nos EUA, sua valorização foi de 214,15%, comparada a 64,96% da Nasdaq. Em 2026, enquanto o índice de tecnologia recuava 3,6%, o setor de defesa avançava 18,32%. Essa discrepância não é fruto apenas do ruído de guerra, mas de uma mudança estrutural na forma como as nações investem em soberania.
Para entender esse movimento, é preciso desmistificar o setor. A defesa moderna é, em grande parte, digital. Atualmente, cerca de 10,5% das empresas que compõem essa tese são puramente de Tech e Software, focadas em inteligência artificial, monitoramento e, principalmente, cibersegurança. Diferente das indústrias bélicas do século passado, a “Defesa Tech” opera como o sistema nervoso da economia global. Ela é a camada de proteção que garante que infraestruturas críticas, como as usinas de energia nuclear e cadeias de suprimentos de minerais estratégicos, continuem operando.
Entramos na era da Soberania Digital, em que o poder de uma nação não é medido apenas pelo seu arsenal físico, mas pela autonomia sobre o seu ecossistema tecnológico. O recente movimento do Pentágono ao integrar ferramentas da OpenAI em suas operações de inteligência ilustra essa transição. A tecnologia de ponta, antes vista apenas como motor de produtividade civil, tornou-se um ativo de ‘uso dual’ (dual-use), fundamental para a dissuasão e a segurança nacional. Nesse novo paradigma, o gasto em defesa deixa de ser um custo contingencial e reativo para se transformar em um investimento em infraestrutura crítica e perene, garantindo fluxos de capital que ignoram a volatilidade cíclica do setor de tecnologia tradicional.
Como já observamos no mercado brasileiro, a discussão sobre segurança energética, exemplificada pelo interesse crescente no urânio (BURA39) e no lítio (BLBT39), é indissociável da capacidade de defesa de uma nação. A defesa moderna é, em sua essência, eletrificada e movida a dados. Enquanto o urânio oferece a base de energia limpa e constante, necessária para manter data centers de inteligência operando 24/7, o lítio é o mineral estratégico para a mobilidade e o armazenamento dessa energia em sistemas defensivos autônomos. Sem segurança energética, a soberania digital é impossível.
O interesse dos investidores é mensurável. Apenas em 2025, o Global X Defense Tech ETF (SHLD), fundo global focado em defesa que serve de referência para a tese de Defesa Tech, captou US$3,6 bilhões, atingindo um patrimônio atual de US$8,2 bilhões. Esse fluxo de capital demonstra que o mercado não vê mais a defesa como um ativo cíclico, mas como um investimento em resiliência de longo prazo.
Em um ambiente de inflação persistente e incertezas diplomáticas, ETFs e BDRs que acompanham essas teses funcionam como ferramentas de democratização do acesso a mercados internacionais e ajudam investidores a enfrentar a instabilidade com portfólios mais amplos. Tradicionalmente, o setor de defesa era acessível apenas a grandes instituições governamentais ou fundos de private equity exclusivos. Hoje, a estrutura dos BDRs listados na B3 permite que o investidor de varejo acesse ativos descorrelacionados e temas estruturais que podem atravessar ciclos de instabilidade, fortalecendo a resiliência das carteiras diante de choques externos.
Em 2026, a tecnologia que protege o mundo tornou-se tão ou mais valiosa do que a tecnologia que o conecta. Para quem busca um portfólio verdadeiramente resiliente, a defesa tecnológica não é apenas uma opção de proteção cambial, mas o novo porto seguro para quem deseja capturar a próxima onda de inovação global.









